JOGO AMIGÁVEL
Opinião
» 2015-07-01
» José Ricardo Costa
"Na sociedade pode haver vencedores, não tem é de haver derrotados."
Vale a pena ver estes cinco golos. Pelos golos em si, obras de arte de elevada fineza, mas também para pensar nas putativas reacções dos guarda-redes que os sofreram. Golos destes são um hino ao futebol e fazem a alegria de quem gosta do desporto-rei. Mas pensar na reacção dos guarda-redes que os sofreram pode revelar-se um pedagógico exercício.
Um economista ou um político pode ou não apreciar futebol. Um guarda-redes, por inerência, é alguém que o aprecia e o vive com intenso prazer. Se os guarda-redes que sofreram estes belos golos os vissem a partir de uma posição neutra e imparcial, iriam apreciá-los com um prazer tão intenso como qualquer outro adepto de bom futebol. Mas isso é impossível. Guarda-redes que os sofrem e avançados que os marcam, sendo ambos apreciadores de futebol, estão comprometidos numa situação de inexorável incompatibilidade na qual a alegria de uns só pode existir à custa da tristeza dos outros. O avançado fica feliz por marcar, mas, por muito belo que seja o golo, leva o guarda-redes a um estado de tristeza, frustração, irritação, desespero. Se, pelo contrário, os guarda-redes defendessem aquelas bolas, ficariam felizes e orgulhosos mas milhares de pessoas, incluindo os jogadores adversários, teriam perdido a alegria por estes belos golos.
Como superar este estado agónico? Má notícia: não se supera. No desporto não há qualquer hipótese de o superar, daí a sua dimensão trágica. Um jogo de futebol não é uma realidade moral. Tem regras, claro, mas regras que, como no código da estrada, servem apenas para lhe conferir alguma racionalidade, impedir o caos e a pura arbitrariedade. Mas não é uma realidade moral na qual os interesses de uns não devem poder ser satisfeitos à custa do prejuízo de outros. Bem, pelo contrário, como numa guerra, trata-se de uma espécie de contrato tácito entre dois inimigos que aceitam o facto de, no final, haver vencedores e vencidos.
E na sociedade, será também assim? Depende. Se encararmos as relações sociais e económicas como uma espécie de jogo no qual a vitória de uns implica a derrota de outros, então, neste caso, os conflitos sociais e económicos estarão no mesmo registo de um conflito entre um guarda-redes que defende e um avançado que marca. Ora, isso pode acontecer se retirarmos a moral da política e da economia e, como no futebol, limitarmos as relações sociais e económicas a um básico conjunto de regras que visam apenas impedir que a sociedade caia numa caótica situação de guerra, não de todos contra todos como dizia Hobbes, mas de alguns contra muitos.
Isso, porém, não deve acontecer. Tal como no Evangelho de S. Marcos se diz que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado, também a economia e a política existem por causa do homem, não é o homem que existe para política e a economia e onde a vitória de uns é feita à custa da derrota de muitos. A política e a economia não devem ser vistas como um jogo sem regras, mas como actividades cujas regras impedem a ideia de a sociedade se poder transformar num casino onde poucos são felizes e muitos são infelizes.
Os golos são belos como é belo o acesso a bens sociais como a saúde, a educação, a protecção dos mais desfavorecidos devido aos azares da vida ou até uma vida materialmente decente. Acontece que no futebol não existe o conceito mas uma sociedade sem ela é necessariamente doente: chama-se justiça social. No futebol são onze contra onze e no final ganha a Alemanha. Socialmente, os interesses de uns não são necessariamente os interesses de outros. Não há volta a dar. E muito bem, pode haver vencedores. Não tem é de haver derrotados.
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JOGO AMIGÁVEL
Opinião
» 2015-07-01
» José Ricardo Costa
Na sociedade pode haver vencedores, não tem é de haver derrotados.
Vale a pena ver estes cinco golos. Pelos golos em si, obras de arte de elevada fineza, mas também para pensar nas putativas reacções dos guarda-redes que os sofreram. Golos destes são um hino ao futebol e fazem a alegria de quem gosta do desporto-rei. Mas pensar na reacção dos guarda-redes que os sofreram pode revelar-se um pedagógico exercício.
Um economista ou um político pode ou não apreciar futebol. Um guarda-redes, por inerência, é alguém que o aprecia e o vive com intenso prazer. Se os guarda-redes que sofreram estes belos golos os vissem a partir de uma posição neutra e imparcial, iriam apreciá-los com um prazer tão intenso como qualquer outro adepto de bom futebol. Mas isso é impossível. Guarda-redes que os sofrem e avançados que os marcam, sendo ambos apreciadores de futebol, estão comprometidos numa situação de inexorável incompatibilidade na qual a alegria de uns só pode existir à custa da tristeza dos outros. O avançado fica feliz por marcar, mas, por muito belo que seja o golo, leva o guarda-redes a um estado de tristeza, frustração, irritação, desespero. Se, pelo contrário, os guarda-redes defendessem aquelas bolas, ficariam felizes e orgulhosos mas milhares de pessoas, incluindo os jogadores adversários, teriam perdido a alegria por estes belos golos.
Como superar este estado agónico? Má notícia: não se supera. No desporto não há qualquer hipótese de o superar, daí a sua dimensão trágica. Um jogo de futebol não é uma realidade moral. Tem regras, claro, mas regras que, como no código da estrada, servem apenas para lhe conferir alguma racionalidade, impedir o caos e a pura arbitrariedade. Mas não é uma realidade moral na qual os interesses de uns não devem poder ser satisfeitos à custa do prejuízo de outros. Bem, pelo contrário, como numa guerra, trata-se de uma espécie de contrato tácito entre dois inimigos que aceitam o facto de, no final, haver vencedores e vencidos.
E na sociedade, será também assim? Depende. Se encararmos as relações sociais e económicas como uma espécie de jogo no qual a vitória de uns implica a derrota de outros, então, neste caso, os conflitos sociais e económicos estarão no mesmo registo de um conflito entre um guarda-redes que defende e um avançado que marca. Ora, isso pode acontecer se retirarmos a moral da política e da economia e, como no futebol, limitarmos as relações sociais e económicas a um básico conjunto de regras que visam apenas impedir que a sociedade caia numa caótica situação de guerra, não de todos contra todos como dizia Hobbes, mas de alguns contra muitos.
Isso, porém, não deve acontecer. Tal como no Evangelho de S. Marcos se diz que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado, também a economia e a política existem por causa do homem, não é o homem que existe para política e a economia e onde a vitória de uns é feita à custa da derrota de muitos. A política e a economia não devem ser vistas como um jogo sem regras, mas como actividades cujas regras impedem a ideia de a sociedade se poder transformar num casino onde poucos são felizes e muitos são infelizes.
Os golos são belos como é belo o acesso a bens sociais como a saúde, a educação, a protecção dos mais desfavorecidos devido aos azares da vida ou até uma vida materialmente decente. Acontece que no futebol não existe o conceito mas uma sociedade sem ela é necessariamente doente: chama-se justiça social. No futebol são onze contra onze e no final ganha a Alemanha. Socialmente, os interesses de uns não são necessariamente os interesses de outros. Não há volta a dar. E muito bem, pode haver vencedores. Não tem é de haver derrotados.
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
CH4
» 2026-06-20
» Carlos Paiva
Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. |
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia
» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. |
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
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» Jorge Carreira Maia
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