Privatize-se a Privatização!
Opinião
» 2015-06-26
» Maria Augusta Torcato
"Tenho muita dificuldade em compreender, e posso dizer que tenho até medo, que alguns bens e serviços estejam, exclusivamente, no domínio dos privados"
A Privatização anda à solta. De tal forma é desregrado este viço da Privatização que a menina corre o risco de acabar consigo própria quando não houver mais nada para privatizar. É que deixa de ter alimento, porque na ânsia de se saciar devorou o alimento todo. É um bocadinho como o poeta que desejava alcançar o infinito, mas, se o alcançasse, ele deixaria imediatamente de o ser. Só que enquanto o poeta faz um percurso de busca e alimenta esse percurso, porque é precisamente o percurso que faz o percurso, a Privatização priva o percurso do próprio percurso.
Sempre considerei que havia “coisas” que tinham percursos extraordinários e, por isso, não seriam privatizáveis. Falo, por exemplo, da Água, da Energia, da Saúde, da Educação, dos Transportes (não me refiro, é claro, aos veículos últimos modelos ou seus homónimos). Falo daquilo que acho que deve ser garantido a qualquer pessoa, que salvaguarda a igualdade de acesso, a igualdade de oportunidades. Tão igual e com tanto direito a… como o Ar que se respira (ai, esperemos que ninguém se lembre de privatizar o ar!).
A Privatização é irmã gémea da Estatização. Mas, apesar de serem irmãs, há pormenores que as distinguem e interesses que as opõem. A primeira corporiza e defende o “privatus”, aquilo que está condicionado ou reservado. A segunda substantiva-se pelo que é público, pelo que é pertença de todos, porque todos têm, em igualdade, o mesmo acesso e a garantia disso mesmo e é isto que é belo.
Tenho muita dificuldade em compreender, e posso dizer que tenho até medo, que alguns bens e serviços estejam, exclusivamente, no domínio dos privados. Que sejam estes a reservar-se o direito de ceder a água, ou a saúde, ou a educação, ou a energia ou os transportes. A quem bem quiserem. Como quiserem. Quando quiserem. Tenho medo. É que nunca se sabe o que passa pela cabeça das pessoas. E a simples diferença entre o privado e o público baseia-se na diferença entre o que é o interesse privado e o interesse público. Um defende o lucro da empresa, do acionista, o seu bem, o outro defende (ou deveria defender) o bem coletivo, o bem de todos. E, claramente, eu sou uma acérrima defensora deste segundo propósito.
Só que a irmã Privatização está a ganhar, aos pontos, à irmã Estatização. E a segunda não parece ter qualquer hipótese face às estratégias que estão a ser usadas. Não há, sequer, igualdade de oportunidades. É que o que é Estado e deveria garantir, pelo menos, a equidade entre as irmãs, tomou, nitidamente, o lado da Privatização. Aliás, acho que até o Estado já está privatizado. E isto porquê? Pelo manifesto interesse só no bem de alguns e pelo preterir o bem de todos. Acho que já está tudo viciado, a partir da própria origem. É como querer que de um barril saia vinho branco, quando só se colocaram lá uvas pretas (eu não percebo nada nem de uvas, nem de vinho, nem de barris).
A minha avó dizia-me, às vezes, “Filha, tu estás a tresler!”. Hoje, dir-me-ia, quiçá, o mesmo. Eu penso na palavra tresler, e penso que muita gente nem se lembrará da palavra ou nem saberá o que ela pode querer dizer. Mas uma coisa é certa: há tanta gente a tresler por aí! Até o Estado! O pior de tudo é que o seu tresler implica com todo o nosso ser.
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Privatize-se a Privatização!
Opinião
» 2015-06-26
» Maria Augusta Torcato
Tenho muita dificuldade em compreender, e posso dizer que tenho até medo, que alguns bens e serviços estejam, exclusivamente, no domínio dos privados
A Privatização anda à solta. De tal forma é desregrado este viço da Privatização que a menina corre o risco de acabar consigo própria quando não houver mais nada para privatizar. É que deixa de ter alimento, porque na ânsia de se saciar devorou o alimento todo. É um bocadinho como o poeta que desejava alcançar o infinito, mas, se o alcançasse, ele deixaria imediatamente de o ser. Só que enquanto o poeta faz um percurso de busca e alimenta esse percurso, porque é precisamente o percurso que faz o percurso, a Privatização priva o percurso do próprio percurso.
Sempre considerei que havia “coisas” que tinham percursos extraordinários e, por isso, não seriam privatizáveis. Falo, por exemplo, da Água, da Energia, da Saúde, da Educação, dos Transportes (não me refiro, é claro, aos veículos últimos modelos ou seus homónimos). Falo daquilo que acho que deve ser garantido a qualquer pessoa, que salvaguarda a igualdade de acesso, a igualdade de oportunidades. Tão igual e com tanto direito a… como o Ar que se respira (ai, esperemos que ninguém se lembre de privatizar o ar!).
A Privatização é irmã gémea da Estatização. Mas, apesar de serem irmãs, há pormenores que as distinguem e interesses que as opõem. A primeira corporiza e defende o “privatus”, aquilo que está condicionado ou reservado. A segunda substantiva-se pelo que é público, pelo que é pertença de todos, porque todos têm, em igualdade, o mesmo acesso e a garantia disso mesmo e é isto que é belo.
Tenho muita dificuldade em compreender, e posso dizer que tenho até medo, que alguns bens e serviços estejam, exclusivamente, no domínio dos privados. Que sejam estes a reservar-se o direito de ceder a água, ou a saúde, ou a educação, ou a energia ou os transportes. A quem bem quiserem. Como quiserem. Quando quiserem. Tenho medo. É que nunca se sabe o que passa pela cabeça das pessoas. E a simples diferença entre o privado e o público baseia-se na diferença entre o que é o interesse privado e o interesse público. Um defende o lucro da empresa, do acionista, o seu bem, o outro defende (ou deveria defender) o bem coletivo, o bem de todos. E, claramente, eu sou uma acérrima defensora deste segundo propósito.
Só que a irmã Privatização está a ganhar, aos pontos, à irmã Estatização. E a segunda não parece ter qualquer hipótese face às estratégias que estão a ser usadas. Não há, sequer, igualdade de oportunidades. É que o que é Estado e deveria garantir, pelo menos, a equidade entre as irmãs, tomou, nitidamente, o lado da Privatização. Aliás, acho que até o Estado já está privatizado. E isto porquê? Pelo manifesto interesse só no bem de alguns e pelo preterir o bem de todos. Acho que já está tudo viciado, a partir da própria origem. É como querer que de um barril saia vinho branco, quando só se colocaram lá uvas pretas (eu não percebo nada nem de uvas, nem de vinho, nem de barris).
A minha avó dizia-me, às vezes, “Filha, tu estás a tresler!”. Hoje, dir-me-ia, quiçá, o mesmo. Eu penso na palavra tresler, e penso que muita gente nem se lembrará da palavra ou nem saberá o que ela pode querer dizer. Mas uma coisa é certa: há tanta gente a tresler por aí! Até o Estado! O pior de tudo é que o seu tresler implica com todo o nosso ser.
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