• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Terça, 14 de Agosto de 2018
Pesquisar...
Sex.
 36° / 16°
Períodos nublados
Qui.
 33° / 17°
Céu limpo
Qua.
 34° / 16°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  34° / 15°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

O meu Ti Boino

Opinião  »  2018-08-09  »  Maria Augusta Torcato

"O meu Ti Boino foi-se. Hoje, depois de ter recebido a notícia, percebi que nunca soube qual era o seu verdadeiro nome"

O meu Ti Boino foi-se. Faltavam-lhe dois aninhos para chegar aos cem.

A notícia chegou hoje, nesta terça feira de julho, logo pela manhazinha, e eu, que nunca tenho tempo para retornar a casa, porque a nossa terra é e será sempre a nossa casa, mesmo que nela não tenhamos passado mais do que um oitavo dos anos que temos, lá vou amanhã, quarta feira, também de manhazinha, para o acompanhar à sua última morada. Afinal, há coisas que nos obrigam a rever o nosso calendário e agenda, pondo à frente aquilo que é importante. Ou talvez não. Talvez fossem outras coisas que agora me surgem que fossem mesmo importantes. Seriam, porventura, as visitas que eu deveria ter feito e não fiz. Seriam talvez as minhas disponibilidades para levar e acompanhar a minha mãe junto da irmã e do cunhado. Seriam os momentos em que contávamos uns aos outros como estávamos, o que fazíamos, trocávamos notícias, risos, histórias e, no fim, eu lá trazia sempre o frasco de mel habitual, meia dúzia de queijos de cabra, que foram sempre os melhores que alguma vez comi, uma abóbora grande e outros mimos que por lá sempre havia para nos reconfortar. E como o reconforto era tão bom e doce em toda aquela simplicidade! Tal como o calor da lareira sempre acesa.

O meu Ti Boino foi-se. Hoje, depois de ter recebido a notícia, percebi que nunca soube qual era o seu verdadeiro nome. Sei o sobrenome, Boino. O da minha tia é fácil de reconstituir, porque sabendo o primeiro, os restantes elementos que o compõem são iguais aos da minha mãe. Mas do meu tio nunca soube e nunca isso me preocupou nem condicionou a nossa relação. Era meu tio, por parte da minha tia, que, por sua vez, é minha tia por parte da minha mãe.

Amanhã lá vou. Comigo levo a minha mãe. Sinto, apesar de ela não me dizer, que pensa que “estas visitas” estão a começar a acontecer mais vezes do que aquilo que ela gostaria. E eu também. Sinto também, apesar de não me dizer, que se sente empurrada pelo tempo e pela doença. E, mesmo que queira fazer finca pé, parece não estar a conseguir controlar o jogo. E ela sempre foi uma vencedora. Basta ser uma sobrevivente para ser uma vencedora. E, por isso, muitas vezes, escasseiam as palavras entre nós acerca destas coisas, porque nos bastam os olhares. Eles dizem tudo. E dizem tudo o que, às vezes, não queremos ouvir...ou ver.

Ultimanente, tenho andado com os nervos à flor da pele, como se diz. As lágrimas que antes tanto custavam a sair, não por falta de sensibilidade, mas por força e coragem, agora brotam com muita facilidade. A força e a coragem mantêm-se. Fazem parte do adn e o quotidiano da vida exigem-no. E eu aprendi a não abdicar. Mas há momentos em que parece que tudo se desbarata, nada se mantém e nós damos conta (não é que não saibamos, vamo-nos enganando a nós próprios) da quebra das raizes que nos prendem e dos ramos que nos suportam e da nossa própria efemeridade. Para mim, e no que a mim própria me diz respeito, parece que não tem qualquer importância, mas o que tenho mesmo é um medo terrível da perda daqueles que, não sendo nós, são a razão de nós sermos. É o que eu sinto. Por isso, porque a “coragem não se mede pela força, mas pelo medo que vem nela”, acho que somos todos muito corajosos.

O meu Ti Boino foi-se. Os anos quebraram a sua disciplina, quer na relação com os outros, quer na força e exigência do trabalho. Ele e a minha tia trabalharam sempre tanto! Pode ser que agora possam ambos descansar. De forma diferente, é claro! Mas só quem vive uma relação de e entre cuidado e cuidador pode entender.
Tio, não chegou aos cem anos, mas eu lembrar-me-ei da promessa que nos tinha feito: faria uma grande festa e todos nos juntaríamos aí na aldeia, vindos dos quatros cantos do mundo, independentemente do tamanho do mundo de cada um de nós. Fá-la-emos um dia. Há de ser um dia! Um dia...

 

 

 Outras notícias - Opinião


Um tema leve para o Verão »  2018-07-30  »  Nuno Curado

Tenho andado a pensar num tema ligeiro sobre o qual escrever nesta crónica, porque, pronto, é Verão e está calor e ninguém tem vontade de gastar energia a preocupar-se com temas importantes. Por isso é que nos telejornais lá temos as habituais reportagens na praia sobre a temperatura da água do mar, ou na Amareleja sobre os impressionantes 45 graus que lá se fazem sentir… todos os anos sem diferença… Quer dizer, este ano ainda não.
(ler mais...)


Torto e fora dos eixos »  2018-07-28  »  Jorge Carreira Maia

Tornou-se um lugar comum aproximar duas ideias que emergiram na mesma época, mas em obras literárias diferentes. Em Hamlet, William Shakespeare fazia notar que “O mundo está fora dos eixos. Oh! Sorte maldita! … Por que nasci para colocá-lo em ordem!”.
(ler mais...)


Um concubinato de conveniência »  2018-07-12  »  Jorge Carreira Maia

Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas de momento.
(ler mais...)


Obstipação intestinal: um mal cada vez mais presente »  2018-07-12  »  Juvenal Silva

A obstipação intestinal, também conhecida como prisão de ventre, é uma doença gastrointestinal cada vez mais presente e, com um grau de Incidência preocupante, já na idade infantil. Num organismo saudável, o percurso da matéria residual pelo trato digestivo, corresponde a um ciclo previsível e regular que poderá oscilar entre 6 a 24 horas.
(ler mais...)


F »  2018-07-12  »  José Ricardo Costa

Admito ser um bocadinho conservador, sobretudo naqueles dias em que acordo com uma certa vontade de lavar os dentes com pasta medicinal Couto e de ter um mordomo chamado Jeeves para me trazer o fato às riscas enquanto faz o resumo do Financial Times.
(ler mais...)


A avó Augusta, a foice e a vassoura »  2018-07-12  »  Maria Augusta Torcato

Esta crónica vai apresentar o formato de duas em uma. É que, apesar das temáticas e problemáticas quotidianas fervilharem na minha cabecinha, não tenho tido tempinho algum para escrever. E o ato de escrever exige pelo menos um bocadinho de tempo.
(ler mais...)


Dias difíceis »  2018-06-22  »  Jorge Carreira Maia

A situação política está mais confusa do que parece. Só há um dado claro e inequívoco. Exceptuando os socialistas, todos os actores agem com o objectivo de evitar que o PS obtenha maioria absoluta nas próximas legislativas.
(ler mais...)


Aloé Vera, a planta milagrosa »  2018-06-21  »  Juvenal Silva

Aloé Vera, também conhecida por planta do milagres pelos médicos da antiguidade, é uma planta medicinal cujo uso tem sido intensificado ao longo dos séculos e, nas últimas décadas, tem sido motivo de interesse de pesquisas, com vários estudos científicos na aplicação de uma grande variedade de doenças e com grande destaque nas doenças oncológicas.
(ler mais...)


Cumpre-se a tradição »  2018-06-21  »  Anabela Santos

Junho, mês dos santos populares… António, Pedro e João.
Santo António, conhecido por Santo António de Lisboa, o santo que pregou aos peixes, o Santo casamenteiro, não é exclusivo da nossa capital e não é de Pádua.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)
»  2018-08-09  »  Maria Augusta Torcato O meu Ti Boino