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Síndroma da gravata

Opinião  »  2011-11-10  »  Jorge Cordeiro Simões

Pelas 10 horas do passado dia 27 de Outubro, cerca das 10 horas, parei frente à estação do Entroncamento aguardando a chegada de um comboio. Passados alguns minutos dei conta de uma manifestação de trabalhadores da EMEF. Vi ali nos seus rostos, entre os quais muitos conhecidos e alguns amigos, um sentimento de muito abatimento e tristeza que lhes não conhecera anos atrás. Entristeceu-me e preocupou-me o que ali observei.

Como é usual, a manifestação era dirigida e enquadrada por elementos que - pelo que tenho observado ao longo de dezenas de anos - não desistem de aproveitar o mais que podem, o justo descontentamento de quem trabalha, com vista à sua promoção política. Que sentido tem fazer manifestações em frente da estação no Entroncamento? Está por acaso ali algum dos responsáveis pela situação a que aqueles e muitos outros trabalhadores da EMEF chegaram para lhes exigirem respostas e soluções para a amarga situação a que vão chegando? Que eu saiba, não.

Por isso, fazer manifestações naquele local, julgo que só interessa para fazer ou promover a ”notícia”. Parece pouco face aos problemas existentes. Creio aliás que a estratégia de ”fazer notícia”, ajudou a trazer-nos até á situação em que estamos. Como pertenço ao grupo de pessoas que se enganam e têm sido enganadas, posso estar também aqui em erro. Porém, creio ser elementar que para poderem ter algum fruto - mesmo que escasso - estes tipos de manifestação deveriam ser menos politizadas e feitas frente àqueles que foram e continuam a ser responsáveis pelo descalabro a que a EMEF - uma das mal geridas empresas fantasma da CP – chegou.

A situação resulta da cada vez mais dramática falta de competitividade, a que entre nós chegou o transporte ferroviário, no essencial fruto do desbragado esbanjamento de recursos, em desnecessárias, ruinosos e ás vezes até ridículas obras, contratos e iniciativas, além do custeamento duma estrutura hierárquica desmesuradamente pesada e com injustificadas e dispendiosas mordomias, onde alguns maduros engravatados, a troco do proverbial ”prato de lentilhas”, se prestaram e prestam, ao serviço de por todos os meios manter a tranquilidade e o ”status quo”, indispensáveis ao tranquilo usufruto dos iníquos privilégios de quem está mais acima. Andam de gravata e embora trabalhando numa empresa do sector ferroviário, como dispõem de automóvel, combustível e pagamento de portagens à custa de quem paga impostos, deslocam-se preferencialmente por estrada. E lá no topo desta pesadíssima hierarquia, chegou a haver (não sei se ainda há) quem utilizasse o avião para se deslocar entre Lisboa e o Porto. O que neste país ”ao fim e ao cabo”, apenas segue os péssimos exemplos de dispendiosa ostentação terceiro mundista, vindos das mais altas hierarquias do Estado.

No caso da EMEF, este tipo de personagens concentra-se na Amadora, com um digno representante no Entroncamento. Creio que é a essa gente que devem ser pedidas contas.

Permitam-me aqui a explicação sobre alguma aversão que criei em relação à gravata. Até finais da década de oitenta do século passado, eu mesmo usei este tipo de adorno com alguma frequência, sempre que me apetecia ou as circunstâncias o aconselhavam. Tenho o devido respeito pelas pessoas que por motivos profissionais a têm de utilizar no dia-a-dia, como é o caso de trabalhadores da banca, alguns comerciantes, delegados de propaganda médica, etc. Incluo naturalmente neste grupo, também muitos cidadãos que simplesmente a usam porque gostam e se habituaram a isso. Mas, para além das abundantes notícias que nos submergem, relativas a muitos bandidos engravatados que não param de sugar a sociedade portuguesa, aconteceu que um dia no gabinete dum director, estando com a minha bata oficinal naturalmente algo suja, perante uma piadinha que ali ouvi sobre as condições em que me apresentei, respondi que aquele era para mim o traje normal de um engenheiro. Ouvi de imediato que o traje do engenheiro

era a gravata. Embora isto tenha sido dito em tom de brincadeira, face a muita coisa que já observara e aprendera na vida, esta resposta fez sentido e a partir

desse momento, gravata só mesmo em raríssimas ocasiões muito especiais.

É que tal como a muitos agricultores foram dados subsídios para deixarem de cultivar a terra, a muitos engenheiros foram dadas ”gravatas”, para que deixassem de exercer a engenharia para a qual tinham obtido qualificações, promovendo-os em alguns casos, a gestores de ”meia-tijela”.

 

 

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