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Generalizar, apontar, julgar - inês vidal

Opinião  »  2020-11-21  »  Inês Vidal

Digo isto com frequência. Quem melhor me conhece, já o ouviu dezenas de vezes. Ainda hoje, ao jantar, dizia à minha filha que não podemos viver no preconceito. A vida não é a preto e branco, tem antes milhares de nuances. Cada pessoa é uma vida e um conjugar de momentos que a fazem tomar decisões e cada decisão dessas é só mais um momento que vai engrossar a sua vida daí para a frente. A tal vida que não é a preto e branco, tem antes milhares de nuances.
Ensinava-a que não podemos julgar as pessoas, muito menos pelas histórias que não conhecemos. Quem somos nós para julgar o outro? Quem somos nós para apontar o dedo à mulher que se prostitui sem percebermos como chegou a esse ponto sem retorno, ao homem que está preso sem ouvirmos os motivos que o levaram lá, à mulher que se divorcia duas vezes, ao sem abrigo que vimos dormir no cartão ao relento? Um dia, antes de um qualquer momento que os levou ali, a vida era outra, provavelmente completamente diferente, bem aceite aos olhos do preconceito. São apenas humanos com uma história, tal como nós.
A linha é ténue, dizia-lhe ainda. Aquela linha que divide o que achamos ser o bem, do que nos ensinaram que era o mal. Tão ténue e fácil de ultrapassar, tantas vezes contra a nossa vontade, mas apenas porque todos nós temos um limite, um fundo, um preço. Uns, um preço mais elevado do que outros. Há pessoas boas e más, é certo, mas não somos ninguém para as rotular, muito menos sem tentar ouvir a sua versão da sua própria história.
Depois de tamanha e socialmente bem aceite dissertação a uma criança de apenas 11 anos, dei comigo a pensar se teria a mãe do André, por ventura, tido conversa semelhante com ele durante a sua infância. E depois de temer que a senhora até a tenha tido e que essa tenha surtido o efeito exactamente contrário, acalmei-me quando olhei para o olhar da minha filha - bem mais ponderado do que a minha, já só por si, tão ponderada explanação - que me espelhava o quão óbvio e evitável era o meu extenso discurso.
E assim, deitei-me como me levantei: confiante de que qualquer criança sabe aquilo que tantos adultos parecem já não conseguir ver: uma prostituta nunca é só uma prostituta, um ladrão nunca é só um ladrão e as suas acções, só por si, descontextualizadas, não os definem. A generalização não é, certamente, o caminho para a sociedade que todos, ou quase todos, defendemos em alta voz. Pelo menos, não é o caminho que eu quero trilhar. Quem optar por ele, que se assuma. Porque, mais do que jogos de extremas, esquemas ou geringonças, é da vida de pessoas que falamos, pois é para elas que a política se faz.

 

 

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