O MAJOR-GENERAL PATRONO DA GUERRA
Opinião
» 2025-07-08
» José Alves Pereira
O nosso major-general é uma versão pós-moderna do Pangloss de Voltaire, atestando que, no designado “mundo livre”, estamos no melhor possível, prontos para a vitória e não pode ser de outro modo. Só que o dr. Pangloss, filósofo e oráculo do barão de Thunder (Vestefália), acabou tragicamente os seus dias em Lisboa às mãos da Inquisição.
A qualquer hora do dia ou da noite um cidadão, tomado por uma insónia que lhe arrasa a paciência, liga a televisão e lá está o nosso major-general de verve afiada a flagelar de chispas os incréus, adoradores do satanás de Moscovo e seguidores dos Ayatollahs de Teerão.
Para balizar argumentos os pivôs vão espalhando pólvora e colocando mechas. O nosso major-general de gesticulação excitada não está, ainda, quanto a criatividade, ao nível do Milhazes e do Irineu, embora algumas explicações nos pareçam remontar ao tempo dos arcabuzes de carregar pela boca com o perigo do tiro sair pela culatra.
Há tempos, correspondendo a uma pergunta do cardápio de questões à la carte servidas à moda da casa, sobre a eficácia dos 17 pacotes de sanções aplicadas à Rússia, explicitou o seu efeito. Sabia que, por exemplo, num sítio da Sibéria não conseguiram fazer os folares da Páscoa por falta de ovos. Está-se a ver «oh tovarish, não me dispensa dois ovos que o meu Ivanovichtzinho precisa de uma gemada para ficar forte e ir para a Ucrânia». Com tanta galinácea a cacarejar por cá e os camaradas na Sibéria na dieta das omeletas.
Justificando a necessidade de investir na defesa nacional contra os perigos externos deu um exemplo assustador. As costas portuguesas estão infestadas de submarinos russos navegando para cá e para lá, costa acima costa abaixo a gozar com a gente, a ver as fêveras lusas na Costa da Caparica e as cenas luxuriosas na praia do Meco. Um cidadão, com a namorada a tomar o fresco na ponta do Guincho, na Boca do Inferno ou Sítio da Nazaré de súbito avista no horizonte um periscópio, içado e desafiador. O submarino põe-se de bico há entrada da barra do Tejo e zumba, lá vai míssil para Lisboa. A moderadora arremelga os olhos estarrecida. O cidadão desprotegido pensa: vão atingir as catedrais da Luz ou Alvalade ou ainda pior o CC Colombo. Até os cabelos se encrespam. O nosso major-general antecipando o pânico logo nos sossega: o ataque poderia ser dirigido à Assembleia da República. Safa! Se vêm russos, para desafios menores, Desertas, Berlengas, Quinta da Marinha, podemos ter norte-coreanos; fuzileiros olheirentos e cheios de maldade a desembarcarem nas Berlengas. Nhonhó para cá, renhonhó para lá e zás, algemas no faroleiro e roubo da marmita do almoço. Este, a tremer, balbucia qualquer coisa, faz-se desentendido e eles a ameaçarem com a foto do Kim Jong-un. Isto num impasse quando o chefe, igual aos outros, apenas falava mais alto e tinha uma estrela vermelha tatuada na testa, rapa do bolso a foto do Nuno Melo. O faroleiro por gestos explica que é o ministro da defesa de Portugal e também das Berlengas. Aí os norte-coreanos rebentam numa surriada galhofeira sem parança; num gesto de boa vontade revolucionária, com medo do Min. Neg. Estrangeiros Paulo Rangel, devolvem a marmita. Com a “incursão” dos EUA ao Irão o nosso major-general empenha todo o seu garbo, energia e espírito de missão a empurrar MOABs, mãe de todas as bombas, para as entranhas da terra (sic) iraniana. E explica que, dada a precisão, pelo mesmo furo podem entrar bombas em corropio até destruírem túneis, adjacências e principalmente argumentos decentes dos palradores do regime. Justificando o “espírito humanitário” das tropas israelitas ao expulsar palestinianos das suas terras detalhou o sr. major-general que tudo lhes era bem explicado, para onde deviam ir e até mesmo eles, militares, ajudavam no seu encaminhamento e transporte.
O “mundo livre” precisa destes heróis televisivos e da sua lengalenga bélica para defender os “nossos valores”, seja cantando hossanas ao títere de Kiev, ao ogre louro de Washington ou ao genocida de Telavive, enfiando a burka para não ver o que se passa em Gaza ou clamando que os nossos filhos e netos devem estar preparados para morrer ao serviço da NATO. Propagandistas de armas e guerras, corajosos combatentes de plantão nos universos comunicacionais, senhores da manipulação e da intriga funcionando como instigadores do medo social. Pesaroso, escrevia há tempos num jornal de reverência um dos comentadores oficiais do regime, e cito de memória, «perante o que vemos no nosso mundo democrático está cada vez mais difícil criticar a China».
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O MAJOR-GENERAL PATRONO DA GUERRA
Opinião
» 2025-07-08
» José Alves Pereira
O nosso major-general é uma versão pós-moderna do Pangloss de Voltaire, atestando que, no designado “mundo livre”, estamos no melhor possível, prontos para a vitória e não pode ser de outro modo. Só que o dr. Pangloss, filósofo e oráculo do barão de Thunder (Vestefália), acabou tragicamente os seus dias em Lisboa às mãos da Inquisição.
A qualquer hora do dia ou da noite um cidadão, tomado por uma insónia que lhe arrasa a paciência, liga a televisão e lá está o nosso major-general de verve afiada a flagelar de chispas os incréus, adoradores do satanás de Moscovo e seguidores dos Ayatollahs de Teerão.
Para balizar argumentos os pivôs vão espalhando pólvora e colocando mechas. O nosso major-general de gesticulação excitada não está, ainda, quanto a criatividade, ao nível do Milhazes e do Irineu, embora algumas explicações nos pareçam remontar ao tempo dos arcabuzes de carregar pela boca com o perigo do tiro sair pela culatra.
Há tempos, correspondendo a uma pergunta do cardápio de questões à la carte servidas à moda da casa, sobre a eficácia dos 17 pacotes de sanções aplicadas à Rússia, explicitou o seu efeito. Sabia que, por exemplo, num sítio da Sibéria não conseguiram fazer os folares da Páscoa por falta de ovos. Está-se a ver «oh tovarish, não me dispensa dois ovos que o meu Ivanovichtzinho precisa de uma gemada para ficar forte e ir para a Ucrânia». Com tanta galinácea a cacarejar por cá e os camaradas na Sibéria na dieta das omeletas.
Justificando a necessidade de investir na defesa nacional contra os perigos externos deu um exemplo assustador. As costas portuguesas estão infestadas de submarinos russos navegando para cá e para lá, costa acima costa abaixo a gozar com a gente, a ver as fêveras lusas na Costa da Caparica e as cenas luxuriosas na praia do Meco. Um cidadão, com a namorada a tomar o fresco na ponta do Guincho, na Boca do Inferno ou Sítio da Nazaré de súbito avista no horizonte um periscópio, içado e desafiador. O submarino põe-se de bico há entrada da barra do Tejo e zumba, lá vai míssil para Lisboa. A moderadora arremelga os olhos estarrecida. O cidadão desprotegido pensa: vão atingir as catedrais da Luz ou Alvalade ou ainda pior o CC Colombo. Até os cabelos se encrespam. O nosso major-general antecipando o pânico logo nos sossega: o ataque poderia ser dirigido à Assembleia da República. Safa! Se vêm russos, para desafios menores, Desertas, Berlengas, Quinta da Marinha, podemos ter norte-coreanos; fuzileiros olheirentos e cheios de maldade a desembarcarem nas Berlengas. Nhonhó para cá, renhonhó para lá e zás, algemas no faroleiro e roubo da marmita do almoço. Este, a tremer, balbucia qualquer coisa, faz-se desentendido e eles a ameaçarem com a foto do Kim Jong-un. Isto num impasse quando o chefe, igual aos outros, apenas falava mais alto e tinha uma estrela vermelha tatuada na testa, rapa do bolso a foto do Nuno Melo. O faroleiro por gestos explica que é o ministro da defesa de Portugal e também das Berlengas. Aí os norte-coreanos rebentam numa surriada galhofeira sem parança; num gesto de boa vontade revolucionária, com medo do Min. Neg. Estrangeiros Paulo Rangel, devolvem a marmita. Com a “incursão” dos EUA ao Irão o nosso major-general empenha todo o seu garbo, energia e espírito de missão a empurrar MOABs, mãe de todas as bombas, para as entranhas da terra (sic) iraniana. E explica que, dada a precisão, pelo mesmo furo podem entrar bombas em corropio até destruírem túneis, adjacências e principalmente argumentos decentes dos palradores do regime. Justificando o “espírito humanitário” das tropas israelitas ao expulsar palestinianos das suas terras detalhou o sr. major-general que tudo lhes era bem explicado, para onde deviam ir e até mesmo eles, militares, ajudavam no seu encaminhamento e transporte.
O “mundo livre” precisa destes heróis televisivos e da sua lengalenga bélica para defender os “nossos valores”, seja cantando hossanas ao títere de Kiev, ao ogre louro de Washington ou ao genocida de Telavive, enfiando a burka para não ver o que se passa em Gaza ou clamando que os nossos filhos e netos devem estar preparados para morrer ao serviço da NATO. Propagandistas de armas e guerras, corajosos combatentes de plantão nos universos comunicacionais, senhores da manipulação e da intriga funcionando como instigadores do medo social. Pesaroso, escrevia há tempos num jornal de reverência um dos comentadores oficiais do regime, e cito de memória, «perante o que vemos no nosso mundo democrático está cada vez mais difícil criticar a China».
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