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A bocarra - miguel sentieiro

Opinião  »  2020-08-19  »  Miguel Sentieiro

"Sonho com o dia em que possa ir dar um mergulho descontraído às imaginárias praias fluviais da Ribeira, das Lapas, de Torres novas, dos Riachos, do Paúl do Boquilobo"

Estão 40 graus. Tenho de ir dar um mergulho senão as minhas células refogam. Onde vamos mergulhar aqui perto? A piscina de Torres Novas não existe. Aquele espaço aprazível de verão onde passei toda a adolescência a mergulhar, a nadar e a conviver foi convertido numa piscina coberta aquecida para a malta aprender a nadar durante as outras estações do ano. Parece que a coisa resulta; a criançada já consegue fazer 80 piscinas seguidas com uma técnica irrepreensível.

E o calor pá? Onde é que um gajo se refresca? Sempre tens o poço de saltos encostado à piscina coberta ali meio à sombra e aquilo dá para todos, pelo menos em profundidade; é fundo comó raio! O Covid não entra. E o rio? Achas que podemos mergulhar no nosso rio Almonda? Parece que a água cheira um bocadinho mal; a coloração é assim a puxar para o lilás. Mas pode ser que tenha propriedades medicinais. Também há gente que se besunta com bosta de bovino como tratamento de beleza. Até aquele tipo muito inteligente, um tal de Bolsonaro dizia que a malta das favelas não apanhava o vírus porque está habituada a mergulhar nos esgotos a céu aberto e ganha uma natural imunidade. Ah morreram muitos? Então se calhar, à cautela, deveríamos escolher água mais ou menos limpa.

Ao longo do rio deve haver um local com água fiável. Como não percebo nada de recursos hídricos, perguntei a alguém mais informado que, depois de percorrer mentalmente o rio no sentido a montante, excluindo possíveis focos de poluição, me transmitiu a sua conclusão: só se fores ali à nascente do Almonda! Estranhei que num percurso de 30km de rio, só mesmo um mergulho na nascente garante que as células se refresquem em segurança .

Lá fui, com a toalha por cima do ombro, chinelinho de dedo e bati com a testa num portão que estava fechado, proibindo a ida a banhos…?... então e os 40 graus? E o bem estar das minhas células em estado de ebulição que já acalentavam a esperança do súbito arrefecimento? Depois de arrefecer as expectativas, olhei com atenção para a nascente do rio Almonda com o suor a escorrer na cara e a visão era idílica. Um lago com água limpa e cristalina, encostada a uma rocha imponente, seguida de uma queda de água, levando o rio para…dentro do túnel de uma fábrica? Eis o pináculo do absurdo proporcionado pela rotação panorâmica da nossa cabeça! A verdadeira imagem dos nossos tempos. Um recurso natural a ser engolido diretamente para a bocarra daquele mamarracho de cimento. Depois de gargarejada, a água é lançada de novo no seu curso. E esse gargarejo não se limita a utilizar a água do rio num dos pontos do seu trajecto, vai logo ao ponto de origem para não dar margem de dúvida. É como se o agricultor fosse beber o leite directamente da teta da vaca e, o que não quisesse, bocejava e cuspia no balde para entrega.

Mas tens alguma coisa contra a cárie do agricultor? Nada, mas se calhar era mais higiénico beber no seu copito e deixar correr o resto do leite da teta para o balde, do balde para os copos. Olha o que disse o Bolsonaro do sistema imunitário; a água vinda de um belo gargarejo até tem mais bactérias imunológicas.

A placa proibitiva a banhos na nascente do Almonda dizia “Perigo de afogamento”. Nada mais correcto. O rio “afoga-se” assim que nasce. É afogado nas entranhas da fábrica por detrás daquela bocarra devoradora. Uma imagem só possível pela conivência de quem possibilitou esta alarvidade. Numa discussão sobre as razões do gargarejar, surgem sempre na primeira linha os postos de trabalho criados. É certo que o rio é engolido e que ao longo do seu curso toda a malta despeja o que quer, mas ao menos é para criar emprego. Polui-se tudo à javardola, da água, à terra, ao ar, mas é pelo bem económico comum.

“Aquele cheiro pestilento do rio lilás que corre junto da minha casa incomoda um bocadinho, mas o meu patrão é tão simpático que eu não levo a mal. Vejam bem, que até me oferece uma garrafa de espumante e uma caixa de bombons na altura do natal!”

Estou a ver se acalmo as minhas células refogadas pelo calor, tentando não dizer mal dos inaptos responsáveis que se acotovelam num exercício de “passa a culpa ao outro e não ao mesmo” nesse processo de enorme complexidade que é retirar o esterco dos rios, impedindo que me banhe num plano de água limpa durante o verão.

Eu sei que é uma visão algo egoísta das minhas células. Mas sonho com o dia em que possa ir dar um mergulho descontraído às imaginárias praias fluviais da Ribeira, das Lapas, de Torres novas, dos Riachos, do Paúl do Boquilobo. Temos na equação um rio, as margens, as células refogadas, basta tirar daqui o esgoto que se entranha nesse leito e os gargarejos javardos. Caso não saibam como fazer, espreitem malta de outras localidades que sabem como potenciar os seus rios à porta de casa como espaços vivos de lazer.

Aprendam com os autarcas de Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Penacova ou Lousã. Ou no caso de quererem exemplos com outra dimensão, espreitem além fronteiras a cidade de Munique que, com mais de um milhão de habitantes, consegue oferecer à população o usufruto descontraído do rio Isar, onde até conseguem fazer surf.

Por aqui, enquanto a canícula continuar e os gargarejos também, resta-me refrescar as células com um banho de mangueira no quintal.

 

 

 

 

 

 

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