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Eu voto, mas não gosto do rumo que isto leva - inês vidal

Opinião  »  2021-01-23  »  Inês Vidal

"Fui sonhadora e utópica durante grande parte da minha juventude. Acreditava no sonho e nas pessoas que o diziam sonhar. "

Sinto que estou sempre a dizer o mesmo, que os meus textos são repetições cíclicas dos mesmos assuntos e que estes são, só por si, repetições cíclicas e enfadonhas deles próprios. Não sei se limitação minha, que não vejo mundo, se culpa do que me rodeia que é, também por si só, uma repetição cíclica e enfadonha desse mundo que nos rodeia a nós. Seja como for, vou repetir-me agora. Isto de haver um jornal que me dá tempo de antena, tem destas coisas...

Aprendi cedo a respeitar as eleições. Lá em casa, dia de ir a votos era um dia de ritual. Tomar banho, vestir a roupa nova que outros guardam para o Natal, almoçar e no fim ir às urnas. Nunca, sem antes tomar um café no bar dos bombeiros. Era no quartel que se instalava a mesa de voto de quem, lá em casa, já tinha direito a ele. Sempre gostei da mística que envolvia a chegada àquela sala onde nos esperava a democracia: saber qual a mesa de voto em questão, que caras conhecidas estavam à altura de segurar o caderno eleitoral e quais as que entoavam em alta voz o nome conforme o bilhete de identidade. No final, o tal momento chave: dizer ao mundo, em silêncio, quem queríamos que nos representasse.

Talvez por tudo isso, feliz foi o dia em que fiz 18 anos. Mais do que tirar a carta de condução, queria votar. Desde então, não falhei uma eleição e ainda hoje, dia de ir a votos não é dia, se não sentir borboletas na barriga sempre que sou chamada a escolher a minha voz. Verdade se diga que não falhar uma eleição, não quer obrigatoriamente dizer que algum dia tenha festejado uma. Sempre me habituei a viver nessa margem dos que gritam convictos, mas que poucos ouvem.

Fui sonhadora e utópica durante grande parte da minha juventude. Acreditava no sonho e nas pessoas que o diziam sonhar. Pelo menos, eu sempre achei que assim era. Hoje, perante a lucidez e racionalismo que o meu espelho reflecte, tenho dúvidas de que algum dia o possa ter sido.

Quando tento perceber que ponto ditou a viragem nessa minha forma de estar, identifico dois momentos que deverão ter gritado a mudança: o primeiro aconteceu em casa da Marta Dinis, filha da Lucinete, que deu o nome às batatas fritas torrejanas feitas ali no Vale, não sei se se recordam. A Marta era minha amiga e estava doente (coisas correntes, nada de grave). Fui visitá-la (na altura os vírus não assustavam por aí além) e na parede escura do quarto da Marta estava o cartaz de uma lista que havíamos integrado para a associação de estudantes. Lembro-me daquela imagem vezes sem conta. Era a lista X e o seu slogan, inscrito nesse cartaz, soava qualquer coisa como “com os pés na terra e a cabeça no lugar”. As eleições decorreram a 23 de Outubro de 1997. Perdemos, claro. Éramos utópicos de mais, oferecíamos cultura e ideais, como se isso interessasse a alguém... Do outro lado, havia uma lista que pagava imperiais aos alunos da noite. Ganhou, escusado será dizer.

Penso que esse foi o primeiro momento em que percebi que a utopia não pagava as contas e que eram as questões essencialmente práticas, mais concretamente o que trazem ou poderão trazer ao bolso de cada um e dos seus mais próximos que, no fundo, movem os homens.

O segundo momento que me marcou - negativamente entendo eu, mas provavelmente de forma positiva no meu crescimento - aconteceu já ao serviço do Jornal Torrejano, quando comecei a acompanhar presencialmente as assembleias municipais. Para mim, ser eleito para um órgão como a assembleia municipal, que sempre admirei mais do que qualquer outro, era um prestígio que não estava ao alcance de qualquer um. Ter a possibilidade de dizer ao executivo camarário que isto não é o da Joana e que o povo estava atento ao que se fazia e pronto a escrutinar os gestos que fossem além dos previstos na lei local, era para mim tarefa primeira no trabalho autárquico. Admirava quem se disponibilizava para um cargo daqueles, ao serviço de todos os nossos e de tudo o que é nosso, acreditando que era apenas e só isso que movia cada um daqueles elementos. Pelo menos, seria isso a mover-me a mim. Acho.

Qual não foi o meu espanto quando me apercebi, no decorrer dos anos, mandato após mandato, que a maioria dos que se “disponibilizava” para ali estar, cumpria o modelo de corpo presente, levantando a mão quando alguém o ordenava, dizendo sim senhor, sem saber bem a quê. A maioria, sublinho. Há excepções, e das boas, o que acabava por acentuar ainda mais a diferença entre quem ali estava por amor à causa e por respeito à coisa pública e os que ali estavam por ego, estatuto ou na ânsia de conseguir um lugar ao sol. Bastava, para isso, levantar a mão. A coisa mais simples.

E foi aí que me desacreditei de vez das pessoas e da forma como, nos dias que correm, olham a política: não como causa comum, mas como um caminho fácil para chegar ao topo. Cada um por si. Mas continuei a respeitar a política e a importância desta na vida corrente de cada um de nós. A acreditar em partidos e em convicções. Pelo menos nas minhas. Mas deixei de acreditar nas pessoas que os compõem e por lá se movem, convicta de que onde as há, haverá sempre uma intenção e um preço que acabam a falar mais alto.

Mas mesmo desacreditada das pessoas e da forma como encaram a política, não desisto, não descuro e, acima de tudo, não delego os meus direitos e os meus deveres. São meus.

Não ponho a mão no fogo por pessoa nenhuma e não acredito nas boas intenções ou nos discursos de amor ao país de parte dos candidatos que constam do cardápio de domingo. Desconfio sempre de alguém que gosta muito de se ouvir. E lamento que parte grande dos portugueses não leve um momento como o das eleições, com o respeito que eu lhe entrego. A associação de estudantes da escola que frequentei ou a assembleia municipal de Torres Novas são apenas meras metáforas, à sua pequena escala, de uma realidade bem maior, ainda que tão pequena.
Domingo é dia de eleições. Vou vestir a minha melhor roupa, aquela que não usei no Natal e vou votar. Talvez ainda sem saber ao certo em quem, mas com certezas absolutas sobre em quem não voto. Vou e vou com a mesma euforia de sempre, carregada pelo peso da responsabilidade que um gesto aparentemente tão simples, carrega. Vou votar, esperando que comigo vão todos, conscientes de que ninguém pode escolher por nós a nossa voz. Mas vou votar triste pelo ponto a que deixámos chegar a nossa política, bem visível na forma como tem corrido a campanha que agora termina, com o pé a fugir para o chinelo, em parte na base do ataque pessoal e do fait-divers, quais gaiatos que pagam imperiais aos alunos da noite para ganhar eleições. Vou votar, ciente de que aceitarei o resultado democraticamente conquistado, mas assumindo desde já, publicamente, que não serei portuguesa de alguns dos pretensos presidentes.

 

“Vou votar, ciente de que aceitarei o resultado democraticamente conquistado, mas assumindo desde já, publicamente, que não serei portuguesa de alguns dos pretensos presidentes”

 

 

 

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