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Altruísmo heróico e outras fábulas - carlos paiva

Opinião  »  2021-02-22  »  Carlos Paiva

"Para obter uma dose da esperança líquida, também basta estar no sítio certo à hora certa."

O herói nacional, melhor jogador de futebol do mundo de sempre, segundo dizem, foi protagonista numa daquelas histórias que são matéria-prima para solidificar lendas. Nessa história, sublinhando as origens humildes, o estratosférico conquista mais um laço com o Zé comum. Revelado num episódio da sua juventude, contam que matava a fome com as sobras de uma cadeia de fast food, cujas funcionárias, encantadas pela sua simpatia, lhe ofereciam disfarçadamente nas traseiras das instalações. É um facto que o controlo do tempo entre confecção e consumo destes produtos é apertado. Para isso servem aquelas marcas que os funcionários vão colocando no papel ou caixa que embrulha o artigo. Mais de xis vezes reaquecido, vai para o lixo, mais que ípsilon tempo na calha, vai para o lixo. Para evitar eventuais reclamações e consequências legais, é cumprido à risca o prazo de validade do artigo. Tipicamente de vinte a trinta minutos.

Derivado a este procedimento, as sobras aparecem. Basta estar no sítio certo à hora certa para evitar que um hambúrguer e batatas fritas gerem desperdício, contribuindo para salvar o planeta, enquanto o marketing vai cristalizando uma imagem universal do sonho americano tornado realidade. É possível nascer desfavorecido e chegar ao topo. As pessoas são genericamente boas e a ideia deprimente de uma sociedade “faca na liga” atenua-se. Aconteceu na vida real. Deu na televisão. É verdade. Há esperança. Processos de transferência e necessidades de escapismo obrigam a que heróis por mérito próprio surjam. Melhor: sejam absolutamente necessários.

É a mesma coisa com as vacinas para a Covid-19. Para obter uma dose da esperança líquida, também basta estar no sítio certo à hora certa que as sobras criadas pela metodologia aparecem. Nem é preciso saber jogar futebol nem fazer beicinho ou olhos de Bambi. Daí recentemente se verem vários cidadãos comuns, anónimos e irrelevantes na pirâmide social, a vaguear pelas traseiras dos centros de saúde, aparentemente a matar o tempo, sem nada para fazer. Estão disfarçadamente à espera que a funcionária apareça com as sobras. O intervalo entre preparação e administração não é propriamente de vinte minutos como no hambúrguer. É de cinco dias. Segundo o fabricante, entre o descongelar e o administrar, há uma janela de cinco dias (desde que mantida em frio). Cinco dias são muito tempo, dão perfeitamente para uma gestão efetiva das sobras, seguindo as prioridades delineadas no plano nacional. Voluntariado para evitar o desperdício neste contexto é um argumento infantil, risível. Com a agravante de passar um atestado de inutilidade aos profissionais, aos métodos, ao plano. Calculo que exista na bíblia uma passagem que sustente os valores e princípios patentes nesta postura. Para palmadinhas nas costas entre pares e auto-elogios pela excelência do serviço prestado, calculo que também. É um livro muito universal, providencia justificação para quase tudo. Por associação de ideias, ocorre-me o ditado: “De presunção e água benta, cada qual toma a que quer”. Ambas.

Neste complexo de inferioridade latente, pelos poetas declamado e por músicos tocado, receptivo a heróis e sedento de glórias, mesmo que em segunda mão, há uma esperança que se debate e teima em não morrer. É a esperança no dia em que a pergunta “És filho de quem?” não seja formulada na entrevista de emprego, ou a resposta signifique zero face às competências do indivíduo. Esta esperança tem de acontecer na vida real, passar na televisão, ser verdade. Não pode andar esquiva e envergonhada nas sombras das traseiras de um centro de saúde.

 

 

 

 

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