• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 12 Abril 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 22° / 13°
Céu nublado com chuva fraca
Qua.
 24° / 12°
Céu nublado com chuva fraca
Ter.
 23° / 12°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  23° / 9°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

A Pilhagem - josé ricardo costa

Opinião  »  2021-01-10  »  José Ricardo Costa

"Mas que Torres Novas é esta sem torrejanos? A existência de Torres Novas é condição necessária para haver torrejanos"

Podemos dizer que um jogo de futebol sem público ou vida sem música é como um jardim sem flores. Não que um jardim sem flores deixe de ser um jardim. Acontece que, como no jogo de futebol, fica melhor se as tiver. Já se for uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, a comparação com o jardim sem flores não funciona, pela singela razão de que uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, sendo ainda sopa, sopa de feijão com couves não é de certeza.

Esta profunda reflexão surgiu-me há dias, a meio da tarde, quando precisei de desopilar um pouco, após várias aulas, atravessando num dia de semana o centro de Torres Novas sem ver quase ninguém. Daí resultou um estado mental de inquietante estranheza que me fez sentir a meio caminho entre um quadro de De Chirico e o sonho do dr. Isak Borg no filme Morangos Silvestres quando se descobre numa cidade completamente vazia, com relógios sem ponteiros e em que a única presença humana é ver-se a si próprio a passar numa rua morto num caixão.

Como é possível chegar a este ponto de ser tão difícil encontrar um torrejano na avenida como ouvir uma canção brasileira que não tenha as palavras “amor” ou “coração”? Não estou a exagerar, consegui fazer toda a avenida, cruzando-me com duas pessoas apenas. Só que uma delas tivesse dupla personalidade já seria mais simpático: passariam a ser três, um ramalhete humano mais compostinho.

Mas que Torres Novas é esta sem torrejanos? A existência de Torres Novas é condição necessária para haver torrejanos. Se não houvesse uma terra chamada Torres Novas não haveria torrejanos, do mesmo modo que não existem concrujanos pela simples razão de não existir uma terra chamada Concruje. Mas a existência de torrejanos também é condição necessária para Torres Novas existir. Aceito que seja menos intuitivo e até podemos perguntar se Torres Novas não continuaria a ser Torres Novas se rebentasse agora aqui uma bomba de neutrões que se limitasse a matar todos os torrejanos, deixando tudo o resto intacto. Parece que continuaria, pois se Torres Novas não é a avenida, a praça, as ruas, os edifícios, a estação de correios, o Virgínia, as lojas, os parques infantis, então é o quê? Aguiar da Beira?

Mas a verdade é que não, não continuaria a ser Torres Novas. Está bem, sim, Aguiar da Beira jamais seria mas metamos na cabeça que Torres Novas também não. Um conhecido filósofo chamado Martin Heidegger dizia que não há artista sem obra de arte nem obra de arte sem artista. Pronto, a relação entre Torres Novas e torrejanos é uma coisa do género. Como Cristo, recorro a uma linguagem figurada para explicar.

É através dos ossos, músculos, tendões, cordas vocais, que explicamos os diferentes movimentos de um corpo: andar, correr, saltar, estar sentado ou falar. Mas uma pessoa não está sentada, a andar ou a falar porque tem ossos, tendões, músculos ou cordas vocais. É porque tem crenças, desejos, motivos, finalidades, intenções que as levam a estar sentadas para tomar um café e ler o jornal, a andar na rua para ir comprar um molho de couves ou a usar as cordas vocais para perguntar (medo!) o resultado do Benfica.

Pela mesma razão, Torres Novas não é Torres Novas só porque tem as suas lojas, edifícios, ruas, mercado, praça ou avenida. Tudo isso existe para os torrejanos e não para os aguiarenses. Uma avenida, ruas, praças, lojas, mercado podem ser realidades físicas com identidades óbvias e distintas das de uma montanha, um oceano ou uma floresta mas uma avenida, ruas, praças, mercado, lojas sem torrejanos, uma cidade não é de certeza pois só há cidade onde há pessoas, ainda que possa haver pessoas sem cidade, só que, neste caso, torrejanos não serão.

Daí que a ideia de Torres Novas sem torrejanos esteja mais no mesmo nível, paradoxal, de uma sopa de feijão com couves que não tem couves, do que de um jardim sem flores. Porque para além dos elementos físicos específicos que nos fazem perceber que estamos na praça 5 de Outubro e não do Giraldo, que percorremos a rua Alexandre Herculano em vez da Augusta ou que passamos a ponte da Levada e não a de Ponte de Lima, o que faz de Torres Novas ser o que é, não é uma essência ideal, eterna e imutável, mas o que os torrejanos fazem dela com as suas dinâmicas sociais, económicas e culturais. Por que razão dizemos que a Torres Novas de hoje é diferente de há 60 anos? Porque os torrejanos são outros, fazendo outras coisas da sua terra e esperando coisas diferentes dela. O que já mudará tudo é os torrejanos não fazerem nada da sua terra ou dela nada esperarem.

Uma Torres Novas vazia passa a ser uma não-Torres Novas, feita de torrejanos que não estão lá, tornando-se estes, assim, por culpa própria, tanto não-torrejanos como um aguiarense, um fafense ou estremocense que também são não-torrejanos mas sem terem disso qualquer culpa ou sequer consciência. Estamos assim perante um agónico e autofágico processo de destorresnovização de Torres Novas que, por sua vez, destorrejaniza os torrejanos.

Torres Novas sem torrejanos fica assim um bocadinho como um robot sem pilhas, reduzida a um conjunto de elementos físicos que apenas lhe dá uma mera aparência de cidade. O que verdadeiramente senti naquela fatídica tarde de semana a andar por Torres Novas? Uma pilha desvitalizada e enferrujada dentro de um robot decrépito e meio enferrujado que já não consegue andar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


Os 2,36 euros extra…ordinários - miguel sentieiro »  2021-04-10  »  Miguel Sentieiro

Num momento em que o sentimento generalizado sobre os chineses é de alguma desconfiança, preparo-me aqui para contrapor e dar uma oportunidade aos tipos. Eu sei que nos foram mandando com a peste bubónica, a gripe asiática, a gripe das aves, o corona vírus.
(ler mais...)


#torresnovas@weshallover.com - josé ricardo costa »  2021-04-10  »  José Ricardo Costa

É muito bom viver em Torres Novas mas também se sente o peso de estar longe do que de verdadeiramente moderno se passa no mundo, enfim, nada de #Me Too, Je suis Charlie Hebdo, vetustas estátuas transformadas em anúncios da Benetton.
(ler mais...)


Rever a revisão, já! - josé mota pereira »  2021-04-10  »  José Mota Pereira

 

 Recuemos no tempo. Entremos numa máquina do tempo e cliquemos no botão que nos leve até ao ano de 2001. Recordemos vagamente que em 2001:

 - Caíram as Torres Gémeas em Nova Yorque em 11 setembro.
(ler mais...)


Na era do ad hominem - jorge carreira maia »  2021-04-10  »  Jorge Carreira Maia

Quando a internet surgiu e, posteriormente, com a emergência dos blogues e redes sociais pensou-se que a esfera pública tinha encontrado uma fonte de renovação. Mais pessoas poderiam trocar opiniões sobre os problemas que afectam a vida comum, sem estarem controladas pelos diversos poderes, contribuindo para uma crescente participação, racionalmente educada, nos assuntos públicos.
(ler mais...)


Equilíbrio - inês vidal »  2021-04-10 

É e sempre foi uma questão de equilíbrio. Tudo. E todos o sabemos. O difícil é chegar lá, encontrá-lo, ter a racionalidade e o bom senso suficientes para o ter e para o ser. E para saber que o equilíbrio de hoje não é obrigatoriamente o de amanhã, muito menos o que era ontem.
(ler mais...)


As árvores morrem de qualquer maneira e feitio - carlos paiva »  2021-04-10  »  Carlos Paiva

Comemorou-se a 21 de Março o dia da floresta. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) resolveu assinalar a data disponibilizando 50.000 árvores gratuitamente à população. Quem as quisesse plantar, teria de se identificar, inscrever, levantar a árvore (até um máximo de dez árvores por pessoa) e, num prazo de 48 horas, declarar o local onde plantou documentando com fotos.
(ler mais...)


Rejuvenescimento político - anabela santos »  2021-04-10  »  AnabelaSantos

Hoje, como acontece diariamente, no caminho de casa até à escola, lá se deu o habitual encontro matinal entre mim e o Ananias, o meu amigo ardina. Trocámos algumas palavras, comprei o jornal e seguimos por caminhos opostos que nos levam à nossa missão do dia, o trabalho.
(ler mais...)


O CRIT já não é de todos os torrejanos - joão carlos lopes »  2021-04-08  »  João Carlos Lopes

Durante décadas, todos os torrejanos ajudaram no que puderam o CRIT, uma obra social que granjeou a estima de todos os cidadãos e empresários, e foram muitos, que sempre disseram sim a todas e quaisquer formas de ajuda em prol da aventura iniciada em 1975.
(ler mais...)


Peixes e pombos ou a civilização a andar para trás - joão carlos lopes »  2021-03-23  »  João Carlos Lopes

Dir-se-ia, de uma câmara socialista, esperar que se perseguissem os valores e ideais que aqui e ali, somados, vão concorrendo para um mundo melhor e para uma relação mais harmoniosa e avançada entre todos e tudo o que habita uma casa comum que é o território natural de um pequeno concelho.
(ler mais...)


Depois de casa roubada, trancas à porta - antónio gomes »  2021-03-20  »  António Gomes

Na política, ou se tem ideias, rasgo e capacidade de antecipação para marcar a diferença, ou andamos sempre no rengo-rengo.

As vítimas da pandemia estão aí, agora com maior visibilidade, mais desemprego, mais encerramentos de pequenas empresas, comércio, restauração, serviços, trabalhadores independentes sem rendimentos.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-04-08  »  João Carlos Lopes O CRIT já não é de todos os torrejanos - joão carlos lopes
»  2021-03-23  »  João Carlos Lopes Peixes e pombos ou a civilização a andar para trás - joão carlos lopes
»  2021-03-20  »  José Ricardo Costa A Rosa do Nome - josé ricardo costa
»  2021-03-20  »  Jorge Carreira Maia A arte do possível - jorge carreira maia
»  2021-03-20  »  Carlos Paiva São rosas, senhor - carlos paiva