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A Faixa - josé ricardo costa

Opinião  »  2021-10-17  »  José Ricardo Costa

"“A cidade que temos hoje não é a mesma que os nossos antepassados tiveram nem a que os nossos descendentes irão ter. E ainda bem que é assim."

A percepção visual tem as suas leis, que interferem, sem darmos conta, no modo como diante de uma imagem, separamos a figura e o fundo, a visão central e a periférica, o seu motivo e o contexto. E muito antes da ciência estudar essas leis já os artistas do Renascimento as exploravam para criar os efeitos visuais desejados. Esta prosápia aborrecida serve apenas para início de conversa sobre a primeira vez que vi esta fotografia.

Olha-se para ela de repente e, seja português, africano ou esquimó, o que enche logo o olho são os homens que ocupam quase todo o seu espaço, sobrando apenas uma faixa sem interesse sobre as cabeças. Depois sim, por curiosidade, talvez o português tente identificar o sítio onde se encontram. Comigo aconteceu uma coisa surpreendente: olho e o que vejo logo é a faixa horizontal, só depois reconheço os quatro homens que o meu cérebro atirou para segundo plano. Não se tratou de uma disfunção neurológica do dr. Sacks. O que se passou foi que, ao contrário daqueles homens para os quais eu sou indiferente, a pequena faixa conhece-me desde que nasci e mal me viu chamou-me em voz alta como uma mãe chama um filho que anda a brincar na rua para ir almoçar. Pronto, não foi isso mas literariamente fica bem.

Seja como for, os quatro homens e a paisagem da pequena faixa têm uma coisa em comum: são e não são ao mesmo tempo. Eu sei, e alguns de vós também, que atrás destes homens está um restaurante chamado Rogério, uma barbearia, um consultório médico, uma farmácia, um cabeleireiro e dois cafés a que se chegava através da rua que se vê ao fundo em frente aos vidros, ou penicos na versão de alguns. Já nada disso existe, desapareceu. O mesmo se passa com estes homens: estão ali, todos contentes, mas três deles já cá não estão e o que sobra também já não é bem o mesmo que ali está e um dia irá mesmo deixar de estar onde quer que seja. Daí esta fotografia ter qualquer coisa de barroca vanitas, seja pelos homens, seja também por aquele pedaço de cidade que ali está com a sua vida de outrora e que agora também já não existe.

Esta fotografia pode ser útil para ajudar a perceber como deve uma cidade gerir a relação entre a sua memória histórica e a sua evolução e modernidade. E volto novamente à minha percepção imediata da sua faixa superior. Um carro ou o rosto de uma pessoa podem ser decompostos em partes: um tejadilho é uma coisa, o capot, outra. Os olhos são uma coisa, a boca, outra. Mas para os percepcionarmos logo como carro ou rosto não foi preciso somar as suas partes para percebermos que são um carro e Renault Clio ou um rosto e rosto de um actor conhecido. Digamos que o todo é anterior à soma das partes. Ora, foi isso que me permitiu reconhecer a paisagem mal olhei para a faixa superior. Por outro lado, mesmo havendo mudanças num carro ou num rosto, sabemos distinguir a substância dos acidentes. Não é por aparecer com outra cor que o mesmo Renault vai deixar de o ser, não é por o rosto de uma pessoa estar bronzeado ou passar a ter óculos que a sua identidade vai ser alterada. Porque se trata de acidentes, coisas que podem ou não existir sem que interfiram no que é a verdadeira substância.

É também assim que vejo uma cidade. Os olhos que reconhecem de imediato esta fotografia deverão ser os mesmos olhos com que os nossos pais ou avós a teriam reconhecido e parece-me bem que os nossos filhos, netos e bisnetos possam continuar a reconhecê-la com os mesmos olhos, independentemente do que já lá existiu, existe ou vier a existir. Uma cidade pode mudar, aliás, deve mudar. A cidade que temos hoje não é a mesma que os nossos antepassados tiveram nem a que os nossos descendentes irão ter. E ainda bem que é assim, que hoje temos aquela praça ou a avenida que outros não tiveram como ainda mal é terem destruído as piscinas que fizeram as alegrias dos torrejanos durante anos. Mas sempre o todo enquanto anterior à soma das suas partes, como o rosto de uma pessoa que de imediato reconhecemos e cujas mudanças também não lhe retiram identidade.

É assim que todos os que já morreram, os que estão agora vivos e os que ainda estão para nascer fazem parte de uma mesma comunidade, que embora sendo vítimas do tempo que tudo destrói, adquirem uma espécie de imortalidade graças a um espaço comum que os acolhe para sempre.

 

 

 

 

 

 

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