• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 24 Janeiro 2022    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 17° / 6°
Céu limpo
Qua.
 16° / 6°
Céu limpo
Ter.
 16° / 5°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  15° / 4°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Pedinchice - inês vidal

Opinião  »  2021-11-25  »  Inês Vidal

"Os tempos mudaram. Já ninguém dá nada a ninguém e almoços grátis não os conheço. É preciso pensar e reescrever os moldes deste voluntariado "

Habituámo-nos à pedinchice. Já não a estranhamos nem questionamos, antes a integrámos na nossa rotina, no nosso dicionário mental, assumindo-a como parte integrante e inerente à solidariedade de que somos tão adeptos. Nem sequer nos perguntamos se a solução para a carência de quem pede poderia passar por outra qualquer forma que não a mendigaria. Entretanto, sem perder muito tempo a pensar, vamos dando e doando, alimentando a pedinchice e livrando-nos assim de pesos na consciência, descansados por ter ajudado quem precisa, cada um tendo por base as causas que mais lhes tocam. Como se caridadezinha fosse solução, como se o penso rápido da esmola resolvesse o problema.

Enquanto houver quem dê, haverá sempre quem peça. Especialmente enquanto não houver uma solução concertada para sanar, na base, as reais necessidades e continuarmos a optar por ir atalhando sintomas, ao invés de cortar definitivamente a raiz já podre.

Encontramos a pedinchice em cada esquina, em todas as áreas e sectores. O dinheiro não chega para tudo e o que há está muitas vezes mal distribuído. À nossa escala, a uma escala local, concelhia se preferirem, chocamos também com ela de frente por diversas vezes. Tantas vezes. Vezes de mais.

É recorrente ouvirmos, por exemplo, as colectividades queixarem-se de falta de apoios municipais, questionar a justiça dos critérios de distribuição dos mesmos ou ouvir a oposição a lamentar a tão politicamente incorrecta política de subsídio-dependência. Uma forma inteligente e nada ética de manter o “sim senhor” das colectividades perante o poder. Toda a gente tem um preço e os trocos que vêm de cima fazem muitas vezes diferença na vida de uma associação sem grandes fontes alternativas de rendimentos.

Mas, apesar de já nos termos habituado a ver pedir, há quem saiba pedir melhor do que outros. Ninguém pede tanto, nem tantas vezes, nem com tanta aceitação dos benévolos que dão, como os Bombeiros Voluntários Torrejanos. Escudados na sua inquestionável missão de socorro às populações, não se sentem valorizados na hora da atribuição de subsídios e apoios camarários. E ninguém melhor do que um político para pedir a outro. Arnaldo Santos sabe pedir, sabe usar o bom nome e admiração que a sua corporação tem junto da população para publicamente, sem intermediários, se dizer injustiçado. E fala alto, decide manchetes, escreve parangonas. Diz que o socorro está comprometido. Lança o pânico.

Com o respeito que os bombeiros merecem junto da população, é fácil que esta, perante tais pronúncios, se vire contra a câmara sem questionar. Uma vez mais sem questionar: sem questionar os critérios, as vantagens da dependência para quem gere os cifrões ou se a queixa terá ou não fundamento. Quem ouve só recorda as imagens da televisão que mostram bombeiros exaustos e sujos no combate às chamas. A emoção tolda a razão e não há distanciamento suficiente para sequer duvidar. Ninguém consegue negar ou ver negar ajuda a quem um dia os poderá salvar. Somos demasiado egoístas, até na hora de ser altruísta.
Do outro lado do quartel, Pedro Ferreira sente-se, também ele, injustiçado e nega que se negue a apoiar a corporação da terra. Não alinha em ameaças e garante às populações que o socorro está longe de estar em causa. Se não forem estes bombeiros, serão outros.

E andamos nisto, neste bate-boca antigo, que já remonta ao tempo de outros senhores e que se pensava ter melhorado com o actual executivo. Antes uma luta de egos, de quem tirou o lugar a quem, dois galos numa capoeira demasiado pequena. Agora, uma luta qualquer, que ninguém entende muito bem qual é.

Na essência, um princípio errado. Questões básicas e de base que, enquanto não forem resolvidas, continuarão a dar azo a uma guerra aberta que só prejudica quem deveria beneficiar. Já vai sendo altura de parar, sentar e pensar, assim interesse a quem está na liderança de ambas as partes. É preciso perceber qual o futuro dos bombeiros de Torres Novas, que de voluntários já vão tendo pouco. Mais do que milhões para remediar a cena, é preciso assumir a filosofia cada vez mais empresarial de uma corporação que emprega 40 trabalhadores assalariados e que só atrai os seus voluntários pagando-lhes o tempo e o risco.

Os tempos mudaram. Já ninguém dá nada a ninguém e almoços grátis não os conheço. É preciso pensar e reescrever os moldes deste voluntariado em concreto, com respeito pela história, com visão no futuro, percebendo como se move a actualidade. Mas, para isso, é preciso que quem gere os destinos das partes envolvidas na discordância perceba que nenhuma das instituições em causa tem dono e que a sua existência está muito acima de qualquer umbigo. A eleição para um cargo de tal monta não confere poderes para olhar apenas para o seu quintal. É altura de arrumar os egos em prol de um verdadeiro trabalho de socorro, cidadania e solidariedade.

Falar é fácil, mas como de utópica já tenho pouco, imagino que isso não acontecerá enquanto as associações do nosso concelho estiverem entregues a pessoas. 

 

“Os tempos mudaram. Já ninguém dá nada a ninguém e almoços grátis não os conheço. É preciso pensar e reescrever os moldes deste voluntariado .

 

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


(des)esperança e lição da professora Natureza - maria augusta torcato »  2022-01-13  »  Maria Augusta Torcato

Cada ano novo traz consigo esperança e intenções. É talvez isso que contribui para que nós o sintamos como novo. É uma perceção, uma representação que está tão imbuída em nós e que, mesmo nos mais céticos e desesperançosos, alimenta uma pequenina, ténue e fugaz luz no nosso interior.
(ler mais...)


Que orçamentos, que políticas municipais para as exigências de hoje? - antónio gomes »  2022-01-13  »  António Gomes

Bem o sabemos, os orçamentos materializam políticas e estas devem reflectir as exigências das pessoas e reflectir os desafios do futuro mais ou menos próximo.

Se os orçamentos e os planos a quatro anos não responderem ao grande desafio das alterações climáticas, onde se inclui naturalmente, a menor disponibilidade de água ou a saturação de CO2 na atmosfera…

Se não responderem à falta de habitação digna, em particular para os mais jovens, se não tentarem pelo menos responder ao decréscimo de população, contrariando a grave crise demográfica…

Se o foco continuar a ser o apoio ao grande comércio em detrimento de toda uma rede de pequenos comerciantes por onde passa a base da vivência nos centros das cidades ou, se em termos de apoio à economia e ao emprego, se continuar a olhar apenas para o nosso umbigo em detrimento de um plano muito mais vasto que integre os concelhos vizinhos e tenha capacidade de atracção de investimentos….
(ler mais...)


LINDO, LINDO, É IR AO CURRAL DAS FREIRAS - josé alves pereira »  2022-01-13  »  José Alves Pereira

Na segunda metade dos anos 70 do pretérito século, comecei a ir à Madeira com alguma regularidade. Maior rigor será dizer ao Funchal. Estava em construção o conjunto designado por Casino Park Hotel, obra emblemática com os esboços e o traço inicial do arq.
(ler mais...)


De sua graça - carlos paiva »  2022-01-13  »  Carlos Paiva

Destacado ou disfarçado, por mais de uma vez incluí nestas crónicas a noção de que a medição do sucesso pelo número de aderentes significa zero na balança das boas decisões. O discernimento com maior profundidade raramente acontece dentro das maiorias.
(ler mais...)


O equívoco dos homens fortes - jorge carreira maia »  2022-01-13  »  Jorge Carreira Maia

A sociedade portuguesa, pouca habituada a uma conduta disciplinada, embasbacou com o Vice-Almirante Gouveia e Melo. Até aqui não vem mal ao mundo. Contudo, algumas declarações do novo chefe da Armada abrindo a possibilidade de se candidatar à Presidência da República podem trazer consigo um equívoco.
(ler mais...)


O que aí vem - inês vidal »  2021-12-26  »  Inês Vidal

Passámos o ano, festejámos em família, vivemos mais uma vaga, fechámo-nos em casa, voltámos ao estudo em casa, às síncronas e assíncronas. Vacinámos Portugal. Com o bom tempo largámos as máscaras, acreditámos que o sol teria voltado a brilhar.
(ler mais...)


Regionalização, Espírito do Tempo e a bílis de Rui Rio - jorge carreira maia »  2021-12-26  »  Jorge Carreira Maia

 

Regionalização. A regionalização é uma excelente ideia. O problema, porém, é que estamos em Portugal – e no sul da Europa – o que pode transformar uma coisa boa, num grande problema.
(ler mais...)


A um melhor ano. Eventualmente. - carlos paiva »  2021-12-26  »  Carlos Paiva

Típico da época, os balanços, as listas, as contas feitas. E, contas feitas, é demasiado deprimente picar a checkbox da desilusão. Os problemas que havia, são os que há, somando os que surgiram entretanto.
(ler mais...)


Os donos disto - pedro ferreira »  2021-12-10  »  Pedro Ferreira

Começo esta crónica por lembrar que ninguém diz algo apenas porque sim ou porque calhou. O nosso tempo é limitado e a atenção dos outros também. Sempre que falamos sobre algo, fazemo-lo pela necessidade de dizer x em vez de y ou do silêncio.
(ler mais...)


O som do silêncio - carlos paiva »  2021-12-10  »  Carlos Paiva

Poucos de nós têm a perceção da importância que o som tem nas nossas vidas. Não me refiro só à música, mas também. Os ouvidos não têm pálpebras que bloqueiem o som mediante comando, não têm íris que ajuste a intensidade mediante conveniência, o som está presente de forma permanente, quer queiramos quer não.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-12-26  »  Inês Vidal O que aí vem - inês vidal
»  2021-12-26  »  Jorge Carreira Maia Regionalização, Espírito do Tempo e a bílis de Rui Rio - jorge carreira maia
»  2022-01-13  »  Jorge Carreira Maia O equívoco dos homens fortes - jorge carreira maia
»  2022-01-13  »  José Alves Pereira LINDO, LINDO, É IR AO CURRAL DAS FREIRAS - josé alves pereira
»  2022-01-13  »  Carlos Paiva De sua graça - carlos paiva