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Nascente do Almonda: há outro caminho - jorge salgado simões

Opinião  »  2024-06-11  »  Jorge Salgado Simões

Tem sido difícil assistir a tudo o que se tem passado em torno da nascente do Almonda nos últimos anos, um conflito exacerbado por dois lados com interesses legítimos, mas incapazes de construir qualquer benefício para um património que todos dizem querer valorizar. E é difícil porque há pessoas que respeito em cada um desses lados, e porque, até determinado ponto, uns e outros, têm argumentos válidos. Mas depois, o que sobra é pouco mais do que ruído.

A Renova é uma empresa extraordinária, com uma história relevante e um peso económico e social que atravessa várias gerações de torrejanos. É uma montra do que se produz bem por aqui, e que demonstrou, nas últimas décadas, capacidade para se adaptar em várias frentes, incluindo a ambiental. Por ética empresarial, estratégica comercial, eficiência, ou por todos estes motivos em conjunto, houve uma trajetória de melhoria dos seus processos que, de alguma forma, nos devolveu a esperança de uma relação mais próxima do Rio Almonda naquele local.

É por causa deste capital acumulado que gera estranheza a forma como a Renova vem gerindo este processo. Assinale-se a insistência na vedação e afastamento das pessoas da nascente, incluindo o recurso às forças de segurança, quando a escusa de responsabilidades em caso de acidente se resolveria com uma boa sinalética de perigo; os relatos de alegadas pressões exercidas junto de proprietários e vizinhos, com limitações no acesso à água e política agressiva de aquisições na envolvente; ou ainda a tentativa de condicionamento de eleitos locais aquando da discussão de uma intervenção pública no espaço.

Do outro lado da barricada encontramos gente preocupada, que quer uma qualificação desta zona ímpar do nosso património, de forma a que as pessoas se possam aproximar da nascente e usufruir de um recurso que, sem dúvida, deve ser de acesso público, independentemente da forma jurídica que se invoque. A denúncia do que se tem passado e a defesa de um outro futuro para aquele local, incluindo o respeito pelo que foi o seu passado, merece o nosso reconhecimento.

Contudo, também deste lado encontramos exemplos impossíveis de acompanhar, e que conduzem o debate para um extremo de confrontação que dificulta qualquer ganho para a causa. Já vimos invocada a pureza da água da nascente, que é, na verdade, uma exsurgência cársica de onde a água brota com uma carga poluente significativa; o reclamar da demolição da represa e de todo o edificado da fábrica de forma a devolver o rio e o local ao seu estado natural; ou ainda a eleição da nascente como nova tradição para o Dia da Espiga, com tantos locais com melhores condições para o fazer ao longo do rio.

Ora, como eu, haverão muitas outras pessoas que não estão e nenhum destes dois lados do conflito. Que não querem nem a situação atual, nem o contexto de guerrilha instalado, mas antes uma espécie de terceira via: a nascente do Almonda e o património envolvente definitivamente valorizados, e uma Renova com condições para ser ainda mais competitiva. Ou seja, querem uma solução.

Temos um rio que vem à superfície sob um afloramento que, como se sabe de décadas de atividade arqueológica, encerra valores patrimoniais absolutamente únicos. Há evidências, investigadores, investigação publicada, e a noção da necessidade de conservação e de manutenção da investigação, que ponha a descoberto todo o conhecimento que este complexo ainda nos poderá dar sobre a pré-história e a evolução da ocupação humana no território. Temos uma fábrica, e um complexo fabril, que engole o rio naquele seu início, um testemunho de algo que hoje nunca aconteceria, mas que devemos manter como lição para o futuro. Há a situação deste edificado inicial da fábrica estar num caminho de subutilização por via de uma opção acertada de deslocalização da produção daquele local. E temos ainda o impasse já referido, que é preciso superar.

A minha proposta é que aproveitemos esta energia para uma mobilização conjunta em torno dos trabalhos para a inscrição da escarpa e complexo de galerias do Almonda na lista de Património Mundial da UNESCO, ou seja, entre os locais de valor arqueológico universal a preservar para as gerações futuras.

Há exemplos de locais inscritos e de processos em curso com estas características, experiência de modelos já implementados, e que devem ser aproveitados. Trata-se de um processo para um horizonte temporal de 10 a 15 anos, e a levar a cabo por um conjunto de entidades: autarquias e outras entidades públicas com responsabilidade na área da salvaguarda do património cultural, da conservação da natureza, e da gestão da água, a Renova, e também os cidadãos, individualmente ou representados em associações e movimentos próprios.

O sítio tem de permanecer conservado, mas há espaço para mais investigação, e há sobretudo a necessidade de disponibilização de um espaço de interpretação e visitação afastado dos locais de sensibilidade arqueológica, mas perto do conjunto e condicente com a condição de Património Mundial. E é aqui que entra o complexo fabril, que tem todas as condições para acolher o desenvolvimento de um projeto excecional, inovador, de futuro, que guarde também a memória produtiva do local, e inclua a beneficiação de toda a envolvente.

Para além da valorização patrimonial, imaginemos o que isto poderia fazer pelo reconhecimento e atratividade de Torres Novas e da região, pela competitividade da própria marca Renova associada a esta classificação, e por tantos arqueólogos, investigadores, técnicos e pessoal envolvido por muitos e muitos anos no sítio arqueológico do Almonda. É um caminho mais longo e não isento de dificuldades. Mas tem ganhos para todos e é possível!

 

 

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