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Agora era a cores - joão carlos lopes

Opinião  »  2020-05-25  »  João Carlos Lopes

"A vila, ela toda está a entardecer, tristemente a entardecer."

A tabacaria Central era uma grande casa, três andares com centenas de produtos: papeis, livros, canetas, brinquedos, jogos, carrinhos de miniatura, um nunca mais acabar de coisas que nos enchiam os olhos em tantas salas, escadarias e corredores forrados de novidades. Havia sempre surpresas a encontrar, o mundo todo naquela loja. Quando fechou, pensava-se que era só a Tabacaria Central a fechar.

Pensava-se também que o Café Portugal era daqueles cafés eternos que nunca acabam, cada terra tem um assim. Foi mais um azar, pensou-se, ai que vai fechar o Café Portugal. Ah, mas temos a Império, coração da cidade, balcão sempre aberto, o bolo rei no Natal... E a ECA, grande empresa de electrodomésticos, várias lojas, e de repente, mais um azar. A ECA fechar? Não pode ser. Pôde. E depois foi assim, grandes e pequenos comércios e lojas, as veias que faziam pulsar a vila, isto aqui nunca passou de vila, essas veias foram secando, uma a uma, em silêncio.

Havia ainda pilares, símbolos de vidas e gerações, onde a gente encostava memórias e afectos ao entardecer, porque é ao entardecer que os silêncios começam a ganhar à agitação ilusória das manhãs, é ao entardecer que os dias ajustam contas com o que há-de vir. E foi num triste entardecer que um dia destes fechou a mais antiga loja da vila e não passou muito tempo sem que o João Espanhol fosse para outras paragens cantar o “Volare”, canção que ainda se ouve de mansinho, se ouvirmos bem, quando altas horas da noite descemos a ladeira que desliza para Santiago. E foi mais ou menos nessa altura que cerrou portas a Casa Alvorão, igualmente num entardecer triste, a luz amarela a entrar por uma nesga, a última nesga de luz a desenhar os contornos dos velhos armários de mais de cem anos, cem anos de milhares de dias nos fitavam de cada vez que se entrava naquele mundo de sombras, cheiros e texturas a tresandar a passado, o passado imaginado e glorioso que imaginamos ter sido o da vila com as veias a pulsar.

Em 1975 ainda a vila pulsava e, de repente, a realidade agora a cores foi ganhando forma e deixando para trás a tristeza dos dias pardacentos. Fernando Dinis Alves devolvia-nos a cores, nesses primórdios da imagem a cores, a emoção desses dias incandescentemente solares e felizes. Tudo ele fixou, desses tempos de uma comunidade reencontrada, sobretudo a festa da rua, mas também dos rituais de passagem que exigiam a prova de posteridade, agora a cores.

“Fechou a Fotocor”! A vila está tão seca, veias ressequidas tão sem gota de sangue que não restam emoções, não se ouvem lamentos, não há uma palavra apaziguadora vinda de onde se poderia esperar que viesse. A vila, ela toda está a entardecer, tristemente a entardecer. Muda, a ajustar contas com os dias, descrente dos dias que hão-de vir.

 

 

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