Este não é o meu mundo - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-02-22
» Jorge Carreira Maia
" Esta sensação de não se pertencer ao mundo em que se vive não é inédita"
Hoje, domingo, dia em que escrevo, tive não apenas a sensação, mas a certeza de que este mundo já não é o meu. Esse a que chamei meu acabou. Não sei bem qual foi a hora em que as coisas mudaram, em que a megera da História me deixou para trás. Penso agora nisso e não consigo perceber como e quando o meu mundo morreu, e um outro, ao qual não pertenço, nasceu, principiou a balbuciar e a gatinhar, depois a erguer-se sobre as pernas, a andar e a fazer-se ouvir, com uma voz cada vez mais alta. Havia sinais, mas pareciam coisas sem sentido, a princípio nem lhes dava importância. Por exemplo, a falência das antigas regras de tratamento. Não se tratava um homem desconhecido por senhor Jorge, mas por senhor Maia. Era o último nome que indicava uma pertença e constituía a identidade. Quando a moda do primeiro nome começou, talvez já o meu mundo estivesse moribundo.
Esta sensação de não se pertencer ao mundo em que se vive não é inédita. Contudo, cada um tem a sua experiência e é essa que conta para ele. O meu mundo começou antes de eu nascer. Começou em 1945, com o fim da segunda grande guerra. Nasci nele e fui por ele moldado, mesmo se vivi muitos anos num país que estava fora do mundo que existia. Esse mundo que me acolheu fugia de um outro tenebroso. Trazia uma promessa de liberdade, que demorou, como tudo, a chegar a Portugal. Havia nele um conjunto de valores e de perspectivas do que era uma vida digna de ser vivida, tanto ao nível moral como político. Havia também a ilusão, vejo-o agora, de que esse mundo tinha um grande futuro diante de si. Nós que vivíamos nesse mundo fugíamos das trevas e não sabíamos que nos estávamos a dirigir de novo para elas.
Aqueles que viveram, em 1974, quase trinta anos depois, a chegada do mundo que começara em 1945, lembram-se que as grandes figuras políticas de então, apesar de defensoras de um regime de liberdade, eram figuras graves. Tinha-se a percepção de que elas estavam seriamente preocupadas com o rumo da comunidade. Não sei bem quando isso se perdeu, mas talvez tenha sido no início deste milénio. Esse mundo da gravitas política está morto. Talvez tenha morrido quando deixei de ser o senhor Maia e passei a ser o senhor Jorge. Um mundo em que apenas os clowns fascinam o eleitorado, onde gente sem programa, a não ser aproveitar a liberdade para a matar, nem ideias sobre o país é idolatrada pelas novas gerações já não é o meu mundo. Vivemos já, estou convicto, num mundo tenebroso, onde os clowns ainda não estão no poder, mas este já espera por eles, para que a História satisfaça a sua insaciável sede de sangue e miséria.
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Este não é o meu mundo - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-02-22
» Jorge Carreira Maia
Esta sensação de não se pertencer ao mundo em que se vive não é inédita
Hoje, domingo, dia em que escrevo, tive não apenas a sensação, mas a certeza de que este mundo já não é o meu. Esse a que chamei meu acabou. Não sei bem qual foi a hora em que as coisas mudaram, em que a megera da História me deixou para trás. Penso agora nisso e não consigo perceber como e quando o meu mundo morreu, e um outro, ao qual não pertenço, nasceu, principiou a balbuciar e a gatinhar, depois a erguer-se sobre as pernas, a andar e a fazer-se ouvir, com uma voz cada vez mais alta. Havia sinais, mas pareciam coisas sem sentido, a princípio nem lhes dava importância. Por exemplo, a falência das antigas regras de tratamento. Não se tratava um homem desconhecido por senhor Jorge, mas por senhor Maia. Era o último nome que indicava uma pertença e constituía a identidade. Quando a moda do primeiro nome começou, talvez já o meu mundo estivesse moribundo.
Esta sensação de não se pertencer ao mundo em que se vive não é inédita. Contudo, cada um tem a sua experiência e é essa que conta para ele. O meu mundo começou antes de eu nascer. Começou em 1945, com o fim da segunda grande guerra. Nasci nele e fui por ele moldado, mesmo se vivi muitos anos num país que estava fora do mundo que existia. Esse mundo que me acolheu fugia de um outro tenebroso. Trazia uma promessa de liberdade, que demorou, como tudo, a chegar a Portugal. Havia nele um conjunto de valores e de perspectivas do que era uma vida digna de ser vivida, tanto ao nível moral como político. Havia também a ilusão, vejo-o agora, de que esse mundo tinha um grande futuro diante de si. Nós que vivíamos nesse mundo fugíamos das trevas e não sabíamos que nos estávamos a dirigir de novo para elas.
Aqueles que viveram, em 1974, quase trinta anos depois, a chegada do mundo que começara em 1945, lembram-se que as grandes figuras políticas de então, apesar de defensoras de um regime de liberdade, eram figuras graves. Tinha-se a percepção de que elas estavam seriamente preocupadas com o rumo da comunidade. Não sei bem quando isso se perdeu, mas talvez tenha sido no início deste milénio. Esse mundo da gravitas política está morto. Talvez tenha morrido quando deixei de ser o senhor Maia e passei a ser o senhor Jorge. Um mundo em que apenas os clowns fascinam o eleitorado, onde gente sem programa, a não ser aproveitar a liberdade para a matar, nem ideias sobre o país é idolatrada pelas novas gerações já não é o meu mundo. Vivemos já, estou convicto, num mundo tenebroso, onde os clowns ainda não estão no poder, mas este já espera por eles, para que a História satisfaça a sua insaciável sede de sangue e miséria.
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