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A SAGA / FUGA DE FRANCISCO DUARTE MENDES

Opinião  »  2020-03-07  »  José Alves Pereira

O título deste texto é uma adaptação, a partir de uma obra de ficção, do escritor galego Gonzalo Torrente Ballester, A Saga e Fuga de J.B. Como veremos, seria difícil encontrar um título que melhor correspondesse aos factos aqui reportados, sendo que são já poucos os viventes que de tal guardam memória.

Quem foi Francisco Duarte Mendes, chamado de “Chico” Mendes pelos da sua geração? Era um cidadão nascido em Torres Novas, em 18.10.1922, exercendo a profissão de torneiro mecânico, casado e morador na rua Miguel de Arnide, n.º 11, um pouco acima da Igreja de Santiago. Envolvido nas actividades oposicionistas ao regime salazarista foi preso, pela primeira vez, em 16.10.1947, saindo em liberdade condicional, sob caução, em 14.8.1948. Num documento da PIDE, datado de 1953, é indicado como “Elemento Disperso” do PCP com ligações ao MUDJ (Movimento de Unidade Democrática Juvenil), na organização de Torres Novas.

Volta à prisão em 1.7.1952, onde se mantém até 15.6.1954, data em que sai, para ficar em liberdade condicional até 8.5.1957. Durante os cerca de 3 anos e 2 meses encarcerado, vai passar pelo designado Depósito de Presos de Caxias, Cadeia do Aljube e a sua enfermaria e Cadeia do Forte de Peniche. É julgado duas vezes no Tribunal Plenário da Boa-Hora. Pelo meio, sofreu as habituais medidas de segurança, que lhe iam prolongando o cativeiro, a perda de direitos políticos e o pagamento de cauções.
Após a saída da prisão, retoma a actividade profissional, como operário de manutenção de equipamentos, na Fábrica de Curtumes de Joaquim da Viúva, Vila Moreira (Alcanena). Reata ligações políticas através de Manuel Coelho Dias, que também estivera preso 6 meses. Em 1960(?) é orador numa reunião comemorativa do 1.º de Maio, realizada na Pensão Matias (Alcanena?).

Em 21 de Setembro de 1961, a PIDE vai fazer nova razia de prisões em Torres Novas, depois das dezenas verificadas em 1952. Noite adentro e durante todo o dia, sem mandatos de detenção, nas residências, locais de trabalho e mesmo na via pública, 20 trabalhadores, a maioria da Organização local do PCP, são presos. Faltava uma prisão para completar a rusga. Passava um pouco da meia-noite quando batem à porta do “Chico” Mendes. São recebidos por Francelina, sua esposa. Esta chama o marido e avisa os agentes da PIDE que aquele se estaria a vestir, dado já estar deitado. Ouve-se, durante minutos, a água do lavatório a correr. Desconfiados com a demora, os algozes irrompem pela casa e... do Francisco Duarte Mendes, nem sinais. Ter-se-ia escapado por uma pequena janela traseira, palmilhado alguns telhados, descido para o Bairro de Valverde, pegado na sua Lambretta e arrancado para Alcanena. Ali, depois de uma porta se lhe ter fechado, foi abrigado pela democrata alcanenense D. Esmeralda Flora Bento, e encaminhado para uma casa amiga, numa localidade próxima, onde se manteve alguns dias. Levado para Alpiarça, esteve escondido no sótão da Praça do Peixe(?), onde era apoiado por Carlos Pinhão Correia, membro do PCP, também este já com várias passagens pela cadeia. Transcorridos alguns dias, foi levado para Lisboa, hospedando-se numa pensão onde se fazia passar por estudante nocturno, iniciando um período de actividade política clandestina. Emigra para Marrocos donde passa para França, arredores de Paris. Aí vai integrar uma organização do PCP denominada Originários de Portugal, visando os contactos e ajudas aos emigrantes portugueses.

Após o 25 de Abril de 1974, regressa a Portugal e a Torres Novas. No final da manifestação do 1.º de Maio é orador, na condição de exilado político, da varanda do Cine-Teatro Virgínia. Creio bem que se justifica o título do texto “A Saga/Fuga de Francisco Duarte Mendes”. Pelo caminho desta aventurosa odisseia, muitos passos e episódios se perderam, outros não se puderam confirmar. A história não documentada vai-se diluindo com o desaparecimento dos protagonistas e das memórias do seu tempo. Fica o registo possível de um episódio da resistência antifascista em Torres Novas.

NOTA - Além de algumas recordações pessoais, foram essenciais para a elaboração deste texto: o registo cadastral obtido do arquivo digital da Torre do Tombo e a transcrição de fragmentos de uma conversa gravada, em Março de 2019, por Rui Alves Pereira, com Helena Ramos Silva e Jorge Maurício Frazão, que conviveu de perto com o Francisco Duarte Mendes. Utilizámos este nome, por ser o que consta no registo criminal, embora, a julgar pelos apelidos dos pais e por esclarecimento de um dos depoentes, o verdadeiro seria Francisco Mendes Duarte.

 

 

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