Warning: file_get_contents(http://api.facebook.com/restserver.php?method=links.getStats&urls=www.jornaltorrejano.pt%2Fopiniao%2Fnoticia%2F%3Fn-e5e86adf): failed to open stream: HTTP request failed! HTTP/1.1 404 Not Found in /htdocs/public/www/inc/inc_pagina_noticia.php on line 148
Jornal Torrejano
 • SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Domingo, 13 Setembro 2026    •      Directora: Inês Vidal    •      Estatuto Editorial    •      História do JT
   Pesquisar...
Qua.
 30° / 17°
Períodos nublados
Ter.
 31° / 16°
Céu limpo
Seg.
 38° / 20°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  38° / 19°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Gisèle Pelicot é uma mulher comum - joão ribeiro e raquel batista

Opinião  »  2025-03-13 

Gisèle Pelicot vive e cresceu em França. Tem 71 anos. Casou-se aos 20 anos de idade com Dominique Pelicot, de 72 anos, hoje reformado. Teve dois filhos.

Gisèle não sabia que a pessoa que escolheu para estar ao seu lado ao longo da vida a repudiava ao ponto de não suportar a ideia de não lhe fazer mal, tudo isto em segredo e com a ajuda de outros homens, que, como ele, viviam vidas aparentemente, parcialmente e eticamente comuns.

Por infortúnio, para aqueles que agiam de forma grotesca e cobarde, Gisèle expôs o que mais de 80 pessoas faziam com o seu corpo quando dormia, ou quando se encontrava inconsciente. Gisèle, uma mulher de 71 anos, que vive em França, e casou com homem, de 72 anos, com quem teve dois filhos, foi manipulada enquanto dormia e enquanto estava acordada, manipulada fisicamente e mentalmente.

Sugerimos com este texto, que antes de passarmos para uma discussão sobre aquilo que aqui se torna mais evidente, o direito e o dever cívico e humano desta mulher em tornar a sua história pública, reflectirmos sobre o seu marido, tentando não tornar este texto num ensaio insultuoso, importando aqui compreender a volatilidade da palavra confiança.

Ela nunca notou nada?!

Essa é a pergunta que ressoa mais alto. Como é possível viver décadas sem que um vislumbre da verdade se insinue na rotina, sem que o quotidiano escancare os seus dentes? Não é fácil aceitar que tantas engrenagens giraram, ocultas, por tanto tempo. No entanto, essa incredulidade talvez revele mais sobre nós do que sobre Gisèle. Há algo de profundamente humano no desejo de encontrar falhas na percepção alheia, como se a incapacidade de notar transformasse a vítima numa cúmplice do crime.

Como nunca houve uma marca ou sintoma do soporífero? Uma pergunta que parte do pressuposto de que o corpo denuncia sempre o que sofre, de que a dor tem o dever de ser visível, legível. Mas e se a própria normalidade foi cuidadosamente construída para mascarar o que acontecia? Se o marido, com a conivência do ambiente, teceu uma narrativa onde Gisèle, ao acordar, via apenas cansaço, uma nódoa esquecida, um incômodo banal que não valia a pena interrogar?

E as testemunhas? Os vizinhos, o homem do gás, os filhos... Como é que ninguém viu? Mas será que nunca viram mesmo? Ou será que a visão já se habituou a desviar-se, como quem olha por cima do ombro de uma sombra? Porque não faltam casos de comunidades inteiras que se tornam silenciosas e cúmplices de atrocidades – por medo, conveniência, ou, pior, pela aceitação de que o mal, uma vez tornado quotidiano, já não choca, já não perturba.

Talvez Gisèle, como tantos outros, tenha vivido presa num enredo maior, o da banalização do mal. Essa anestesia moral que se infiltra lentamente, tornando o grotesco algo quase imperceptível. Hannah Arendt, ao falar de Eichmann, não descreveu um monstro, mas um funcionário eficiente, uma pessoa banalmente comum, mecanicamente atenta ao cumprimento de regras, incapaz de questionar a monstruosidade do que fazia. O mal, assim, parece não exigir genialidade, apenas conveniência e silêncio.

Mas, e os predadores? Como se conhecem, como operam? Há uma sociabilidade subterrânea que une esses homens, um entendimento que escapa à lógica convencional. Como se houvesse um radar que lhes permite identificar uns aos outros, uma linguagem não verbal que garante a partilha do inominável. A questão que não podemos evitar é: até que ponto somos diferentes deles? Será que qualquer um de nós, colocado no cenário certo, poderia ser cúmplice?

O silêncio. Eis o verdadeiro protagonista desta história. O silêncio de quem sabia e nada disse. O silêncio de quem percebeu e preferiu desviar os olhos. O silêncio da própria Gisèle, que talvez tenha notado algo, mas, isolada pela violência invisível que lhe era imposta, nunca pôde articular o que sentia. A nossa sociedade é construída sobre esse pacto de silêncio, uma resignação colectiva que torna possível a continuidade de tantas tragédias.

Assim, a questão final deixa de ser sobre Gisèle ou os predadores que a violentaram. A pergunta mais importante é: por que continuamos a permitir que o mal se torne banal? Por que ficamos calados? E o que será necessário para que o silêncio se torne, finalmente, insuportável?

[imagem: Wikipédia]

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


Os nossos sonhos - joão carlos lopes »  2026-08-12  »  João Carlos Lopes

1. Tomar e Santarém vão ver os seus politécnicos passar a escolas politécnicas universitárias. Independentemente da lógica da medida, que já se esperava para atender a interesses corporativos e políticos, esta cosmética vai suscitar naturalmente novas dinâmicas a essa duas cidades.
(ler mais...)


A educação das massas »  2026-08-08  »  Acácio Gouveia

A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita.
(ler mais...)


Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades? »  2026-08-08  »  António Gomes

As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou.

“Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo.
(ler mais...)


Caderneta completa »  2026-08-08  »  Carlos Paiva

Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente.
(ler mais...)


Leituras de férias »  2026-08-08  »  Jorge Carreira Maia

Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente.
(ler mais...)


É tempo de mudança »  2026-07-07  »  António Mário Santos

Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas.

Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público.
(ler mais...)


É só uma fase »  2026-07-07  »  Carlos Paiva

O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes.
(ler mais...)


Mundial de Futebol e Tour de França »  2026-07-07  »  Jorge Carreira Maia

Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos.
(ler mais...)


Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes »  2026-06-23 

É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro.
(ler mais...)


Julgam-se donos disto tudo »  2026-06-20  »  António Gomes

A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa.

É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)