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TRUMP “MAU”, TRUMP “BOM”! - josé alves pereira

Opinião  »  2020-11-06  »  José Alves Pereira

"A pandemia apenas veio desnudar as desigualdades e injustiças"

Quando este texto for publicado, é provável que o primeiro passo para saber quem é o novo presidente dos EUA tenha sido dado, ou a julgar pelos sinais que se vão manifestando talvez a saga se venha a prolongar. É sabido que nestas eleições estão Donald Trump e Joe Biden, candidatos, respectivamente, pelos partidos Republicano e Democrata. Se não é sensato equipará-los, tal o abismo comportamental que os separa, igualmente se afigura ilusório tentar encontrar contradições profundas na postura de um ou outro partido. Os EUA assentam numa estrutura política e social estruturalmente violenta, de profundas descriminações e injustiças marcadas por uma amoralidade histórica continuada.

Com republicanos ou democratas, apenas varia o grau da inanidade de um sistema cada vez mais incapaz de superar as suas contradições mais profundas. Os três multimilionários mais ricos possuem uma riqueza equivalente ao rendimento dos 140 milhões de cidadãos mais pobres! É aqui que entra Trump, não como um epifenómeno, mas como expressão do poder dos sectores mais conservadores e reaccionários. A sua alarvidade, pesporrência e desprezo pelo “outro”, o despudor e as mentiras usuais são a amálgama ideológica que une muitos e diversificados interesses. Pretender vê-lo como a pessoa eleita pelo mundo rural profundo, entendido este como atrasado e ignorante, é omitir os verdadeiros poderes que o sustentam, sejam os lobbys do armamentismo, da finança, dos grupos supremacistas brancos ou dos círculos das seitas evangélicas. Na recolha de fundos para a sua campanha, cada convidado, para um beberete, pagava a módica quantia de 250 mil dólares.

A pandemia apenas veio desnudar as desigualdades e injustiças. Dezenas de milhões de desempregados, sem qualquer protecção social, que tendo perdido o emprego ficaram sem seguro de saúde, logo impedidos de aceder aos tratamentos contra o covid. A descriminação racista, de que tivemos, há meses, um repugnante exemplo, é marca identitária dos EUA, e não é de agora. Só que este, por “azar” dos agressores e do sistema político, foi filmado. A segregação racial não atinge estes cidadãos apenas por serem negros; atinge-os porque juntam a esta condição o de serem maioritariamente pobres e como tal excluídos.

Seja com democratas ou republicanos, sempre assim foi. Trump, com a sua venalidade e grosseria, é o homem certo que o sistema precisava e que serve para muitos comentadores, entretidos nas minudências quotidianas, fazerem prova de progressismo não poupando na adjectivação, justa, para caracterizar a personagem, embora por vezes pareça que aproveitam a situação para exorcizar os seus próprios fantasmas.

E é aqui que entra o Trump “bom”, continuador de práticas passadas, muito apreciadas pelos governos das democracias ocidentais. Unidos na mesma cruzada contra a independência de povos e países, incentivam e participam directamente em acções de ingerência desestabilizadoras. É que quando ele se propõe, pela ameaça militar, chantagem económica e pressões diplomáticas, impor um “presidente” a um país livre e soberano (Venezuela), exibem satisfação e dão apoio os governos vassalos da Europa, entre eles o português, partilhando com o presidente da Pepública e tripudiando a Constituição, com os amens naturais da direita ideológica. Calam-se no golpe que afastou Evo Morales (Bolívia), apoiam o governo protofascista da Ucrânia e aceitam que se impeça o auxílio médico a países a braços com o problema do covid.

É longa a lista histórica de conivências. Um traço dominante das políticas da governação Trump, na relação com outros povos e países, não se afasta muito das práticas dos anteriores governos. Alguém saberá destrinçar quem foi quem, republicanos ou democratas, nas agressões ou chantagens à Jugoslávia, Iraque, Síria, Afeganistão, Líbia, Irão, etc. Quem dá suporte, desde há décadas, à repressão, saque de territórios e incumprimento das resoluções da ONU praticadas por Israel. Quem destruiu o Iraque e a Líbia, lançando-os numa guerra civil sem fim à vista, provocando a morte de centenas de milhar de pessoas, tendo naquele primeiro país, que ocupam há dezassete anos, instituído, em Abu Ghraib, um centro de inenarráveis torturas. Quem raptou dezenas de cidadãos em todo o mundo para os enclausurar em jaulas no campo de detenção de Guantanamo, onde apodrecerão, sem julgamento, até à morte. Um país em que o sistema prisional é maioritariamente gerido por empresas privadas, que projectam, constroem e exploram presídios, a quem o estado paga uma verba por preso, usados ainda como mão-de-obra disponível.

Perante este cenário de práticas passadas, não admira que os discursos do candidato democrata se resumam a objecções frouxas em que os argumentos políticos e ideológicos são substituídos, maioritariamente, por fait divers e críticas de ocasião. A tudo isto as democracias ocidentais fecham os olhos, umas vezes apoiando directamente, outras franzindo o sobrolho incomodado, mas objectivamente partilhando um alinhamento cúmplice. Não deixa de ser curioso que apontem o Trump “mau”, mas usem os seus termos, argumentos e manipulações quando se trata de acusar e lançar campanhas de ingerência a países e regimes terceiros, usando-o como se fora um Trump “bom”. Umas vezes porque se situam no mesmo universo de interesses imperiais, outras, como meio calculista de justificar o seu distanciamento e mesmo dessolidariedade de regimes colocados no opróbrio internacional pelos meios mediáticos dominantes.

 

 

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