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Descontentamento, ignorância e manipulação - mariana varela

Opinião  »  2021-02-05  »  Mariana Varela

"É certo que todos recebemos influências dos mais variados sítios, mas também é certo que elas pautam a forma como olhamos para tudo o resto"

Escrevo, a 25 de Janeiro de 2021, no rescaldo de um dia longo e cansativo dia 24, em que estive, das 8h da manhã às 19h da noite, numa mesa de voto, a preencher actas eleitorais e a assinalar com cruzes os nomes dos eleitores que deixaram o seu voto nas urnas.

Apesar do momento complicado que todos vivemos, muitos foram os que passaram por ali (ainda que, a nível nacional, o balanço da afluência às urnas não seja o mais positivo), uns para deixar o seu voto no candidato que gostariam de ver assegurar a Presidência da República, outros para deixar um voto em branco ou mesmo algum tipo de originalidade (porque não fazer do momento eleitoral uma expressão de criatividade? Quase como se fosse uma oportunidade para fazer ou dizer qualquer coisa. Óptimo seria se essa vontade se traduzisse numa escolha real e ponderada). Ora, a verdade é que, por mais variadas que possam ser as razões de cada um, o papel de um Presidente é, ou deve ser, apenas um: representar a República Portuguesa, garantir a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas, tendo que, ao longo do seu mandato, defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, a lei fundamental do ordenamento jurídico português. É a lei mais importante, devendo, por isso, ser respeitada por toda a legislação ordinária e quaisquer actos jurídicos, emanem eles do Estado, das regiões autónomas, do poder local ou de quaisquer outras entidades públicas, porque é nela que estão consagrados os princípios fundamentais que servem de base à República Portuguesa, ao Estado de direito democrático (que é, em si mesmo, um princípio fundamental, do qual derivam uma série de subprincípios): a soberania popular, o pluralismo e organização política democráticos, o respeito e garantia (sublinho, garantia) da efectivação de direitos e liberdades fundamentais, a separação e interdependência de poderes, a realização da democracia económica, social e cultural (relevando aqui, o papel do Estado social, na promoção da qualidade de vida do povo, nas suas várias dimensões). Esta lei, que é rica do ponto de vista democrático e social, deve ser o guia de actuação de qualquer agente político, com destaque, neste caso, para o chefe de Estado.

Tenho 19 anos. Não que a minha idade interesse particularmente aos que lêem este texto. Refiro-a porque é na qualidade de jovem que venho partilhar esta pequena reflexão, é enquanto mulher e estudante que expresso o meu profundo repúdio pelo que aconteceu dia 24 de Janeiro, dia de eleições presidenciais em Portugal e, em especial, no sítio onde cresci e vivo, e onde passo ainda grande parte do meu tempo: Torres Novas.

No concelho de Torres Novas, 1.696 pessoas escolheram para Presidente da República André Ventura. Para aqueles que estão a par, realmente a par, conscientemente e criticamente, daquilo que este representa no espaço político, e que é muito mais do que um mero desequilibrado, racista ou xenófobo, mas antes uma ameaça aos direitos sociais, económicos e culturais de todos e cada um de nós, reconhecem a gravidade destes resultados eleitorais, mesmo a nível nacional. Para quem acompanhou os discursos e intervenções deste indivíduo, não tem como não constatar o vazio dos mesmos, em que este recorre a uma série de contradições, com grande convicção e atitude de revolta e destabilização, procurando mascarar as suas verdadeiras intenções, à medida que capta a atenção dos descontentes, mas demasiado ignorantes.

O descontentamento generalizado é compreensível e justificado, e a ele me junto, mas tal não deve nunca toldar a nossa capacidade para reconhecer armadilhas. É nessa poça de ignorância e fácil manipulação que andam a chapinhar aqueles que desenharam uma cruz à frente do nome já referido. E porquê? Ignorância? Pura estupidez? Vontade de destabilizar? Sendo que estas duas últimas hipóteses serão consequência da primeira, tudo indica que as pessoas não conhecem a realidade que as rodeia, na medida em que também lhes é alheio o passado e tudo o que o envolveu. E como se pode contornar isso? Contando histórias distorcidas, brincando às escolinhas, deixar as reflexões importantes para outros espaços que não os estabelecimentos de ensino?

É certo que todos recebemos influências dos mais variados sítios, mas também é certo que essas influências que recebemos, desde cedo, pautam a forma como olhamos para tudo o resto. É nestes momentos que vemos realçada a importância e, infelizmente, as falhas do sistema de ensino, que se caracteriza, desde cedo, por uma sobrevalorização do conhecimento de factos, datas, nomes (sem os colocar num todo maior) e, muitas vezes, elementos irrelevantes para a construção de um pensamento crítico e para a edificação daquilo que, a meu ver, é o verdadeiro conhecimento: a absorção de conjunto de informação que filtrada, organizada e interligada, fará brotar uma capacidade de encarar e sentir a realidade de forma abrangente, atendendo às suas dinâmicas, contextos e demais factores determinantes no desenvolver da mesma. Urge conhecer a vida em sociedade nas suas várias dimensões, urge conhecer a História: mais do que factos, as causas e os porquês, reflectindo, dialogando, debatendo, vivendo. Problemas complexos exigem reflexões complexas e não de slogans e propaganda política.

Já dizia o padre António no Sermão de Santo António aos Peixes: “vos estis sal terrae”, que significa em latim “vós sois o sal da terra”, dirigindo-se aos pregadores de determinada doutrina (o “sal”), sendo a “terra” sinónimo de Humanidade, neste caso. Assim, Santo António concluiu que, sendo a terra corrupta, das duas uma: ou o sal não salga (e, por isso, não impede a corrupção dos elementos que compõem essa terra) ou a terra não se deixa salgar. Fazendo uma analogia com a conjuntura actual, concluo eu que o caos está instalado, a ignorância está enraizada, e as tentativas de manipular essas circunstâncias com vista à defesa de interesses individuais, por mais bárbaros e prejudiciais que sejam para uma comunidade, está aí à porta. Nunca desapareceu, é verdade, e estou em crer que nunca desaparecerá. Contudo, a distância de segurança que pode e deve ser criada é cada vez mais pequena.

Há pouco referi que sou jovem. É verdade, não fazem muitos anos desde que me comecei a mover nesta realidade, mas como já pudemos concluir, a existência de tempo suficiente para apurar o entendimento e para adquirir noções elementares e essenciais para qualquer cidadão, não tem correspondido a uma efectiva consciencialização social. E tenho pena, tenho pena de estar a assistir, presentemente, a um grande e profundo caos, motivado pela política e afectando, consequentemente, as escolhas políticas e o próprio rumo da política, numa lógica de círculo vicioso.

“A história repete-se”, dizemos nós, “a história é cíclica”. Porém, esquecemo-nos frequentemente de frisar que a história, se bem conhecida e perspectivada dos mais variados ângulos, procurando-se um conhecimento cabal e amplo daquilo que está na origem dos acontecimentos e daquilo que também estes originam, não tem de se repetir, não deve repetir-se, quando é o mal que procura vir à tona. Aí sim, a história terá mesmo de se repetir, e o bem lutará, decifrando o caos e cortando o mal pela raiz.

 

 

 

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