Este mundo e o outro - joão carlos lopes
Opinião » 2024-02-22
Escreve Jorge Carreira Maia, nesta edição, ter a certeza de que este mundo já não é o seu e que o mundo a que chamou seu acabou. “Não sei bem qual foi a hora em que as coisas mudaram, em que a megera da História me deixou para trás”, vai ele dizendo na suas palavras sempre lúcidas e brilhantes, concluindo que “vivemos já num mundo tenebroso, onde os clowns ainda não estão no poder, mas este já espera por eles, para que a História satisfaça a sua insaciável sede de sangue e miséria”.
Maria Augusta Torcato, outra cronista de palavras claras e afectuosas, regista nestas páginas: “Parece mesmo que se derramou sobre todos nós, o mundo em geral, uma névoa que provoca esquecimento e cegueira, fazendo com que uma sombra, em crescendo para escuridão, alastre a cada dia”.
Mais directo aos dias concretos, na sua militância cívica e política sempre empenhada, António Mário Santos considera que, não havendo alteração ao rumo das coisas, “é o país que perde, numa pátria em que o deixa andar, o encolher de ombros, só conduz ao autoritarismo, à xenofobia, ao racismo, à cada vez maior desigualdade económica e social entre uma minoria de privilegiados e uma maioria de explorados”.
Costuma-se dizer-se que os discursos das gerações que vêem o mundo mudar diante de si, por força da escorrência do tempo, são e sempre foram de descrença no futuro, no fundo uma reacção à transformação do mundo que as formatou. Só que, em todos os tempos, esses discursos ligeiramente deprimidos ou radicalmente apocalípticos vergavam-se sempre uma crença ainda maior no que estava para vir, às energia transformadora da juventude, à força das ideias de mudança, às utopias mobilizadoras de gestos largos e ao desejo de viver. No fundo, acreditou-se sempre numa ideia de progresso, mesmo moldada por expressões política e ideológicas diversas. Hoje, pelo menos neste momento, isso mudou. Na verdade, ninguém acredita num devir mais risonho do que o que vivemos nas quatro décadas após a II Guerra, talvez o período mais estável e progressivo da humanidade europeia e ocidental (é aquela para que olhamos toldados pelo nosso etnocentrismo e que pensamos representar o mundo inteiro).
Pelo contrário, há hoje a sensação de que as novas gerações estão condenadas a viver pior que os seus pais. Pior, que os seus avós. Há a certeza de que esta economia mata mas assistimos, passivos, a um processo de eutanásia social que há-de consumir as sociedades europeias, vergadas à ditadura dos números, da “meritocracia”, do trabalho precário e da falta de tempo e de energia para viver, e portanto ter filhos, da falácia da transição digital que nos transforma todos em zombies eliminando quase toda a relação interpessoal das acções necessárias ao quotidiano, obrigando-nos a fazer à borla o trabalho dos bancos, das seguradoras, das das empresa de distribuição de meios, das megamercearias onde brevemente haverá um segurança e trabalharemos também para esses empórios, como já trabalhamos alegremente para as gasolineiras dos lucros dos milhões que, sem se dar por ela, eliminaram milhares postos de trabalho por esse país fora.
Temos a certeza, igualmente, que o estouro ecológico do planeta já é só uma questão de (pouco) tempo, se continuar esta alucinação chamada “crescimento” e “criação de riqueza”, um embuste ideológico que manieta consciências e permite a continuação da economia predadora dos recursos universais, enquanto não haja quem pergunte porque razão tanto “crescimento” e tanta “criação de riqueza” não consegue tirar o mundo de persistentes e permanentes “crises” em que são sempre os mesmo a sofrer as consequências e os mesmos a embolsar biliões de lucros, dessa economia predadora de recursos e de mentes que um dia privatizará, depois das patentes dos medicamentos, depois do código genético das sementes, depois das florestas, das praias e dos cursos de água (por falar nisso, aqui ao pé da porta…), o próprio ar que respiramos.
Essa economia que destrói sociedades conduziu a Europa Ocidental, agora mais alargada, e o próprio mundo, à situação em que nos encontramos e resulta de um ciclo de 500 anos que está a dar o último suspiro. Daí o último esgar da usura multinacional e o roubo do que resta por parte dos últimos conquistadores. Habituámo-nos a pensar que o mundo éramos nós, para todo o sempre. Não vai ser. A China marcará o passo, a Índia há-de ultrapassá-la, sem qualquer dúvida, gigantes como a Indonésia farão valer o seu peso, surgirão em África duas ou três potências, outro brasis emergirão das sofridas Américas, tudo alimentado por vagas de biliões de outros humanos que terão finalmente a sua vez. A Europa desistente e deprimida tem consciência disto e sabe que os 500 anos de esbulho não podiam continuar eternamente e que só durarão mais um pouco enquanto a ocidental indústria de armamento dominar os governos e os povos não se levantarem contra a barbárie cujo jogo é armar todos contra todos, à vez. Daí a nossa desistência, daí o medo, daí os muros, daí a nossa indiferença à condenação premeditada à morte por afogamento de milhares de homens e mulheres que só fazem o que sempre fizeram os outros homens e mulheres em todos os tempos e nós fizemos há 500 anos. Num futuro não muito longínquo, havemos de pedir-lhes, de joelhos, que venham, mordendo o próprio veneno que em cinco séculos espalhámos pelo mundo.
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Este mundo e o outro - joão carlos lopes
Opinião » 2024-02-22
Escreve Jorge Carreira Maia, nesta edição, ter a certeza de que este mundo já não é o seu e que o mundo a que chamou seu acabou. “Não sei bem qual foi a hora em que as coisas mudaram, em que a megera da História me deixou para trás”, vai ele dizendo na suas palavras sempre lúcidas e brilhantes, concluindo que “vivemos já num mundo tenebroso, onde os clowns ainda não estão no poder, mas este já espera por eles, para que a História satisfaça a sua insaciável sede de sangue e miséria”.
Maria Augusta Torcato, outra cronista de palavras claras e afectuosas, regista nestas páginas: “Parece mesmo que se derramou sobre todos nós, o mundo em geral, uma névoa que provoca esquecimento e cegueira, fazendo com que uma sombra, em crescendo para escuridão, alastre a cada dia”.
Mais directo aos dias concretos, na sua militância cívica e política sempre empenhada, António Mário Santos considera que, não havendo alteração ao rumo das coisas, “é o país que perde, numa pátria em que o deixa andar, o encolher de ombros, só conduz ao autoritarismo, à xenofobia, ao racismo, à cada vez maior desigualdade económica e social entre uma minoria de privilegiados e uma maioria de explorados”.
Costuma-se dizer-se que os discursos das gerações que vêem o mundo mudar diante de si, por força da escorrência do tempo, são e sempre foram de descrença no futuro, no fundo uma reacção à transformação do mundo que as formatou. Só que, em todos os tempos, esses discursos ligeiramente deprimidos ou radicalmente apocalípticos vergavam-se sempre uma crença ainda maior no que estava para vir, às energia transformadora da juventude, à força das ideias de mudança, às utopias mobilizadoras de gestos largos e ao desejo de viver. No fundo, acreditou-se sempre numa ideia de progresso, mesmo moldada por expressões política e ideológicas diversas. Hoje, pelo menos neste momento, isso mudou. Na verdade, ninguém acredita num devir mais risonho do que o que vivemos nas quatro décadas após a II Guerra, talvez o período mais estável e progressivo da humanidade europeia e ocidental (é aquela para que olhamos toldados pelo nosso etnocentrismo e que pensamos representar o mundo inteiro).
Pelo contrário, há hoje a sensação de que as novas gerações estão condenadas a viver pior que os seus pais. Pior, que os seus avós. Há a certeza de que esta economia mata mas assistimos, passivos, a um processo de eutanásia social que há-de consumir as sociedades europeias, vergadas à ditadura dos números, da “meritocracia”, do trabalho precário e da falta de tempo e de energia para viver, e portanto ter filhos, da falácia da transição digital que nos transforma todos em zombies eliminando quase toda a relação interpessoal das acções necessárias ao quotidiano, obrigando-nos a fazer à borla o trabalho dos bancos, das seguradoras, das das empresa de distribuição de meios, das megamercearias onde brevemente haverá um segurança e trabalharemos também para esses empórios, como já trabalhamos alegremente para as gasolineiras dos lucros dos milhões que, sem se dar por ela, eliminaram milhares postos de trabalho por esse país fora.
Temos a certeza, igualmente, que o estouro ecológico do planeta já é só uma questão de (pouco) tempo, se continuar esta alucinação chamada “crescimento” e “criação de riqueza”, um embuste ideológico que manieta consciências e permite a continuação da economia predadora dos recursos universais, enquanto não haja quem pergunte porque razão tanto “crescimento” e tanta “criação de riqueza” não consegue tirar o mundo de persistentes e permanentes “crises” em que são sempre os mesmo a sofrer as consequências e os mesmos a embolsar biliões de lucros, dessa economia predadora de recursos e de mentes que um dia privatizará, depois das patentes dos medicamentos, depois do código genético das sementes, depois das florestas, das praias e dos cursos de água (por falar nisso, aqui ao pé da porta…), o próprio ar que respiramos.
Essa economia que destrói sociedades conduziu a Europa Ocidental, agora mais alargada, e o próprio mundo, à situação em que nos encontramos e resulta de um ciclo de 500 anos que está a dar o último suspiro. Daí o último esgar da usura multinacional e o roubo do que resta por parte dos últimos conquistadores. Habituámo-nos a pensar que o mundo éramos nós, para todo o sempre. Não vai ser. A China marcará o passo, a Índia há-de ultrapassá-la, sem qualquer dúvida, gigantes como a Indonésia farão valer o seu peso, surgirão em África duas ou três potências, outro brasis emergirão das sofridas Américas, tudo alimentado por vagas de biliões de outros humanos que terão finalmente a sua vez. A Europa desistente e deprimida tem consciência disto e sabe que os 500 anos de esbulho não podiam continuar eternamente e que só durarão mais um pouco enquanto a ocidental indústria de armamento dominar os governos e os povos não se levantarem contra a barbárie cujo jogo é armar todos contra todos, à vez. Daí a nossa desistência, daí o medo, daí os muros, daí a nossa indiferença à condenação premeditada à morte por afogamento de milhares de homens e mulheres que só fazem o que sempre fizeram os outros homens e mulheres em todos os tempos e nós fizemos há 500 anos. Num futuro não muito longínquo, havemos de pedir-lhes, de joelhos, que venham, mordendo o próprio veneno que em cinco séculos espalhámos pelo mundo.
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