Autárquicas, Cultura em debate - PS, AD e BE são unânimes quanto à necessidade de investimento no sector
Sociedade » 2025-09-24
O ponto de partida do debate, realizado no passado sábado, foi um caderno de políticas culturais elaborado por Rui Matoso, a título de sugestão, para o município de Torres Novas. Um conjunto de ideias do programador cultural, com especialização em práticas culturais para municípios, que gostaria de ver implementadas no concelho. Os convidados para o debate foram os candidatos à câmara municipal de Torres Novas, aqueles que um dia o poderiam pôr em prática. Assim o entendessem. Dos seis candidatos conhecidos, compareceram três: Helena Pinto, pelo Bloco de Esquerda, José Trincão Marques, pelo PS e Jorge Salgado Simões, pela AD.
Logo neste friso de intervenientes, assistimos à jogada mais inteligente da época: a participação do segundo candidato da Aliança Democrática, em substituição do cabeça de lista, Tiago Ferreira. A jogar em casa (Jorge Salgado Simões é técnico superior na Câmara, com cargos de chefia na área da cultura), o representante social-democrata no debate mostrou estar bem preparado e inteirado do tema. Algo que poderia não acontecer, se tivesse sido Tiago Ferreira a assumir o lugar. Uma decisão que não merece críticas, antes aplausos, já que a capacidade de delegar é uma importante mais-valia de qualquer autarca.
Entre os que não estiveram presentes, Júlio Costa da CDU foi a ausência mais notada. Representante das associações no Conselho Municipal de Cultura, e candidato de uma das forças políticas que mais tem batalhado na questão cultural, a sua voz ficou por ser sido ouvida. O candidato justificou a ausência com a presença na manifestação da CGTP, que acontecia à mesma hora, em Lisboa. O Movimento P’la Nossa Terra e o Chega, partidos candidatos à câmara, não compareceram.
Muito notada foi também a ausência de Elvira Sequeira, número dois do PS, logo a seguir a Trincão Marques, e vereadora com o pelouro da cultura nos últimos três mandatos. Um gesto como o de Tiago Ferreira teria favorecido o Partido Socialista no debate, já que Elvira Sequeira estaria em princípio certamente mais bem preparada do que Trincão Marques que, como se viu ao longo de toda a conversa, não apresentou grandes e concretas ideias para a cultura concelhia. Além disso, evitaria a ele próprio, e aos que ouvem, a constante desculpabilização de que nada teve a ver com a actuação dos seus antecessores socialistas (incluindo Elvira Sequeira na área da cultura, depreende-se), sacudindo a água do capote sempre que Helena Pinto lhe lembrava as medidas que a Câmara PS dos últimos 30 anos aprovou ou deixou de aprovar.
Citando frequentemente a Constituição, o candidato do PS reconheceu a importância da cultura e a necessidade de esta ser independente do Estado e tratada transversalmente com a educação e o ambiente. Mais do que a política de subsídios, que tem sido adoptada nas últimas décadas, o advogado quer apostar no mecenato cultural, uma ideia que referiu e sublinhou por diversas vezes. A criação de um gabinete logístico de apoio aos projectos culturais dos munícipes e agentes culturais locais, foi uma das ideias lançadas pelo candidato, que defendeu liberdade criativa para todos. José Trincão Marques assume que o pelouro da cultura é um dos que pretende acompanhar de perto e define como uma das prioridades para o sector, ganhar escala.
Helena Pinto entende que não se pode desligar a cultura da democracia e da participação das pessoas, antes pelo contrário: “A cultura é uma forma de mobilizar os cidadãos de forma plural, de levá-los a agir. A nossa visão da cultura tem de ir para um patamar mais exigente”. A candidata bloquista lembrou que em Torres Novas existem muito jovens com talento e lamentou que estejam todos dispersos. De forma a reuni-los, Helena Pinto sugeriu a inventariação de todos os imóveis vazios do concelho e respectiva transformação em ateliês, onde estes munícipes possam trabalhar. A candidata defendeu apoios à criação artística, nas várias modalidades, e lembrou que o BE chegou a propor um concurso para criadores, que acabou por ficar pelo caminho.
Coordenação é a palavra-chave do Bloco Esquerda: “É preciso coordenar forças, acções. Vemos promessas que não foram cumpridas. O que aconteceu ao projecto de 2017 para o elevador para o Castelo? Os planos para a Casa do Povo de Riachos? A Fábrica Grande? A ideia de mudar o Conservatório de Música do Choral Phydellius para o edifício da antiga câmara?”, questionou a antiga vereadora.
A propósito da antiga Fiação e Tecidos, Helena Pinto propôs ainda a inclusão da cultura como parte do projecto em curso: “Podíamos criar a Fábrica das Artes e Ofícios na antiga fábrica. O PS apresentou um plano onde cabia tudo, porque não caber também a cultura?”, questiona Helena Pinto. A candidata do Bloco de Esquerda vai mais longe e defende a descentralização da cultura pelas várias freguesias do concelho, aproveitando os espaços já existentes em algumas das aldeias, como o polo da biblioteca e o antigo cinema, em Riachos, o Teatro Maria Noémia, em Meia Via, o Café Concerto do Teatro Virgínia, este na cidade. Nesse sentido, a candidata falou ainda da necessidade de renovar espaços das muitas associações do concelho, sempre de forma pensada, programada e concertada.
A Aliança Democrática apresenta no seu programa 17 medidas para o sector da cultura. A ideia base, segundo Jorge Salgado Simões, é dar competências às pessoas para que possam crescer: “Não queremos uma cultura passiva. A ideia é chamar os agentes criativos, juntamente com as comunidades, que estas sejam chamadas a participar”. O social-democrata entende que há espaço para apoio à criação artística no concelho e defende que a actividade cultural municipal (que mereceu o elogio dos três candidatos) não deve secar toda a actividade cultural do concelho. Tem, no seu entender, de haver espaço para as iniciativas privadas.
Entre as medidas patentes no programa da AD, Jorge Salgado Simões elogia o que sido feito no Museu, Biblioteca e Teatro Virgínia e defende uma melhor integração dos três espaços culturais da cidade. A política de edição municipal é para continuar e a comunicação da cultura é para melhorar, propõe.
Criar uma equipa dedicada a resolver os problemas existentes com os espaços e movimentos das aldeias, conhecer e integrar as comunidades imigrantes através da cultura, desenvolver a Fábrica Grande como um espaço empresarial, desportivo e cultural, são algumas das propostas da Aliança Democrática, que pretende ainda iniciar o processo de classificação da escarpa do Almonda. Outra das ideias da coligação de direita é valorizar e recuperar os pequenos patrimónios das aldeias como forma de os preservar. Iniciativas que poderão partir da Câmara ou dos próprios privados. O executivo, segundo Simões, estará disponível para incentivar esse cuidado com o património cultural.
Programador independente para o Teatro Virgínia
Um dos principais temas do debate, nitidamente uma das preocupações de Rui Matoso, moderador, que levantou a questão por diversas vezes, foi a falta de um programador cultural independente no Teatro Virgínia. No seu entender, a figura de programador tem de ter autonomia em relação ao poder político. Questionados sobre o assunto, todos os intervenientes do debate concordaram com a contratação de um técnico independente, não sujeito a pressões políticas, com algumas condições: “Estou de acordo com a contratação de um programador, mas deveria haver um conselho consultivo, pois a responsabilidade última é da Câmara”, disse Helena Pinto. Também Jorge Salgado Simões disse estar no programa da AD a contratação de um programador para o Virgínia, reiterando a premissa de que, apesar de independente, a Câmara é a primeira responsável caso algo corra mal. Inês Vidal
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Autárquicas, Cultura em debate - PS, AD e BE são unânimes quanto à necessidade de investimento no sector
Sociedade » 2025-09-24
O ponto de partida do debate, realizado no passado sábado, foi um caderno de políticas culturais elaborado por Rui Matoso, a título de sugestão, para o município de Torres Novas. Um conjunto de ideias do programador cultural, com especialização em práticas culturais para municípios, que gostaria de ver implementadas no concelho. Os convidados para o debate foram os candidatos à câmara municipal de Torres Novas, aqueles que um dia o poderiam pôr em prática. Assim o entendessem. Dos seis candidatos conhecidos, compareceram três: Helena Pinto, pelo Bloco de Esquerda, José Trincão Marques, pelo PS e Jorge Salgado Simões, pela AD.
Logo neste friso de intervenientes, assistimos à jogada mais inteligente da época: a participação do segundo candidato da Aliança Democrática, em substituição do cabeça de lista, Tiago Ferreira. A jogar em casa (Jorge Salgado Simões é técnico superior na Câmara, com cargos de chefia na área da cultura), o representante social-democrata no debate mostrou estar bem preparado e inteirado do tema. Algo que poderia não acontecer, se tivesse sido Tiago Ferreira a assumir o lugar. Uma decisão que não merece críticas, antes aplausos, já que a capacidade de delegar é uma importante mais-valia de qualquer autarca.
Entre os que não estiveram presentes, Júlio Costa da CDU foi a ausência mais notada. Representante das associações no Conselho Municipal de Cultura, e candidato de uma das forças políticas que mais tem batalhado na questão cultural, a sua voz ficou por ser sido ouvida. O candidato justificou a ausência com a presença na manifestação da CGTP, que acontecia à mesma hora, em Lisboa. O Movimento P’la Nossa Terra e o Chega, partidos candidatos à câmara, não compareceram.
Muito notada foi também a ausência de Elvira Sequeira, número dois do PS, logo a seguir a Trincão Marques, e vereadora com o pelouro da cultura nos últimos três mandatos. Um gesto como o de Tiago Ferreira teria favorecido o Partido Socialista no debate, já que Elvira Sequeira estaria em princípio certamente mais bem preparada do que Trincão Marques que, como se viu ao longo de toda a conversa, não apresentou grandes e concretas ideias para a cultura concelhia. Além disso, evitaria a ele próprio, e aos que ouvem, a constante desculpabilização de que nada teve a ver com a actuação dos seus antecessores socialistas (incluindo Elvira Sequeira na área da cultura, depreende-se), sacudindo a água do capote sempre que Helena Pinto lhe lembrava as medidas que a Câmara PS dos últimos 30 anos aprovou ou deixou de aprovar.
Citando frequentemente a Constituição, o candidato do PS reconheceu a importância da cultura e a necessidade de esta ser independente do Estado e tratada transversalmente com a educação e o ambiente. Mais do que a política de subsídios, que tem sido adoptada nas últimas décadas, o advogado quer apostar no mecenato cultural, uma ideia que referiu e sublinhou por diversas vezes. A criação de um gabinete logístico de apoio aos projectos culturais dos munícipes e agentes culturais locais, foi uma das ideias lançadas pelo candidato, que defendeu liberdade criativa para todos. José Trincão Marques assume que o pelouro da cultura é um dos que pretende acompanhar de perto e define como uma das prioridades para o sector, ganhar escala.
Helena Pinto entende que não se pode desligar a cultura da democracia e da participação das pessoas, antes pelo contrário: “A cultura é uma forma de mobilizar os cidadãos de forma plural, de levá-los a agir. A nossa visão da cultura tem de ir para um patamar mais exigente”. A candidata bloquista lembrou que em Torres Novas existem muito jovens com talento e lamentou que estejam todos dispersos. De forma a reuni-los, Helena Pinto sugeriu a inventariação de todos os imóveis vazios do concelho e respectiva transformação em ateliês, onde estes munícipes possam trabalhar. A candidata defendeu apoios à criação artística, nas várias modalidades, e lembrou que o BE chegou a propor um concurso para criadores, que acabou por ficar pelo caminho.
Coordenação é a palavra-chave do Bloco Esquerda: “É preciso coordenar forças, acções. Vemos promessas que não foram cumpridas. O que aconteceu ao projecto de 2017 para o elevador para o Castelo? Os planos para a Casa do Povo de Riachos? A Fábrica Grande? A ideia de mudar o Conservatório de Música do Choral Phydellius para o edifício da antiga câmara?”, questionou a antiga vereadora.
A propósito da antiga Fiação e Tecidos, Helena Pinto propôs ainda a inclusão da cultura como parte do projecto em curso: “Podíamos criar a Fábrica das Artes e Ofícios na antiga fábrica. O PS apresentou um plano onde cabia tudo, porque não caber também a cultura?”, questiona Helena Pinto. A candidata do Bloco de Esquerda vai mais longe e defende a descentralização da cultura pelas várias freguesias do concelho, aproveitando os espaços já existentes em algumas das aldeias, como o polo da biblioteca e o antigo cinema, em Riachos, o Teatro Maria Noémia, em Meia Via, o Café Concerto do Teatro Virgínia, este na cidade. Nesse sentido, a candidata falou ainda da necessidade de renovar espaços das muitas associações do concelho, sempre de forma pensada, programada e concertada.
A Aliança Democrática apresenta no seu programa 17 medidas para o sector da cultura. A ideia base, segundo Jorge Salgado Simões, é dar competências às pessoas para que possam crescer: “Não queremos uma cultura passiva. A ideia é chamar os agentes criativos, juntamente com as comunidades, que estas sejam chamadas a participar”. O social-democrata entende que há espaço para apoio à criação artística no concelho e defende que a actividade cultural municipal (que mereceu o elogio dos três candidatos) não deve secar toda a actividade cultural do concelho. Tem, no seu entender, de haver espaço para as iniciativas privadas.
Entre as medidas patentes no programa da AD, Jorge Salgado Simões elogia o que sido feito no Museu, Biblioteca e Teatro Virgínia e defende uma melhor integração dos três espaços culturais da cidade. A política de edição municipal é para continuar e a comunicação da cultura é para melhorar, propõe.
Criar uma equipa dedicada a resolver os problemas existentes com os espaços e movimentos das aldeias, conhecer e integrar as comunidades imigrantes através da cultura, desenvolver a Fábrica Grande como um espaço empresarial, desportivo e cultural, são algumas das propostas da Aliança Democrática, que pretende ainda iniciar o processo de classificação da escarpa do Almonda. Outra das ideias da coligação de direita é valorizar e recuperar os pequenos patrimónios das aldeias como forma de os preservar. Iniciativas que poderão partir da Câmara ou dos próprios privados. O executivo, segundo Simões, estará disponível para incentivar esse cuidado com o património cultural.
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Um dos principais temas do debate, nitidamente uma das preocupações de Rui Matoso, moderador, que levantou a questão por diversas vezes, foi a falta de um programador cultural independente no Teatro Virgínia. No seu entender, a figura de programador tem de ter autonomia em relação ao poder político. Questionados sobre o assunto, todos os intervenientes do debate concordaram com a contratação de um técnico independente, não sujeito a pressões políticas, com algumas condições: “Estou de acordo com a contratação de um programador, mas deveria haver um conselho consultivo, pois a responsabilidade última é da Câmara”, disse Helena Pinto. Também Jorge Salgado Simões disse estar no programa da AD a contratação de um programador para o Virgínia, reiterando a premissa de que, apesar de independente, a Câmara é a primeira responsável caso algo corra mal. Inês Vidal
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