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Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes

Opinião  »  2026-06-23 

É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. E depois há uma coisa chamada prioridades, noção das coisas.

O rio Almonda, “o nosso querido rio Almonda” de todas as propagandas partidárias de há 40 anos para cá, “o sangue desta terra”, esse continua na mesma. Para começo de conversa, uma equipa de quatro sapadores fluviais com equipamento para tratar diariamente do rio em tudo o que ele envolve, quer no inverno quer no verão (limpezas e desobstruções, controlo de caudais nos jogos de água ao longo do seu trajecto, fiscalização e vigilância, ordenamento das captações, problemas em áreas urbanas e outros em zonas rurais, etc, tudo isto num percurso de 30 quilómetros), uma equipa de sapadores dedicados a esta tarefa não resolvia tudo, mas dava para começar. Era o mínimo, para ultrapassar a demagogia reinante e uma autêntica farsa, temos de dizê-lo com todas as letras.

Este é o programa político mínimo para pôr fim à triste masturbação colectiva dos torrejanos sobre o seu “querido rio”, os tais 200 metros entre a ponte do Raro e o açude real. Tudo o resto, palavras leva-as o vento, como as leva os “postais ilustrados” que abundam por essas redes a captar “trechos maravilhosos” do “nosso rio”, sempre os mesmos 200  metros, claro, e mesmo aí omitindo o que está por baixo das águas.

É que, mesmo esse troço do rio entre a ponte do Raro e o açude real deixa muito a desejar, apesar da sua fotogenia para ao caçadores das orgásticas “maravilhas da nossa terra”, cujos enquadramentos escondem o lixo debaixo dos pés. O espelho de água junto à pérgola vê agora crescer um pequeno mouchão, resultado assoreamento, onde abunda lixo e já cresce vegetação, e daqui a nada árvores.

O açude real, o nosso mais importante e multissecular monumento-testemunho da economia protoindustrial (energia dos moinhos e lagares do Caldeirão) e industrial (mais tarde energia eléctrica), está num estado lastimável. No tempo em que não havia recursos, os muretes do açude eram limpos e caiados no fim de cada primavera. Há uma boa dúzia de anos que não vêem tinta. Os degraus não são limpos. Cresce já vegetação de porte numa zona do açude, meio caminho andado para desagregação da construção. Um enorme barrote continua impávido e sereno, meses depois das cheias de Inverno, aliás como em vários sítios.

Caminhando mais para juzante, ressalta a miséria que o rio é junto à ponte do Lamego, onde um tronco que ficou encostado a um pilar já começou a florir e um dia deste é uma arvore a crescer debaixo da ponte. O assoreamento junto ao porto do Lamego, juntamente com o lixo acumulado, deu origem a um pântano nojento que se vai agravar como verão. A zona do Gafos é outro ponto triste, com uma ilha de lixo onde já cresceram árvores mesmo frente às calhas do moinho, travando o caminho das águas se as calhas forem abertas.

De modo que o trabalho de pessoas ligadas aos “guardiões do rio” e à associação “Viver Almonda” é precioso e digno de todos os elogios. Mas como quase tudo se resume a essas iniciativas voluntárias e filantrópicas, o seu excelente trabalho põe a nu a falência completa da acção autárquica neste domínio, porque a acção das associações deveria ser supletiva, por motivos óbvios.

Começa a faltar a paciência para esta conversa do rio, quando 99% do seu leito e margens estão em condições miseráveis (para quem conhece, claro), agravadas este ano em que no Verão que aí vem o Almonda vai ver o seu caudal descer a níveis raramente vistos. Uma boa oportunidade para o início de um programa estruturado de limpeza de leito e margens, mas ainda não vai ser desta porque nada está preparado e os festivais de sopas e saladas, a gestão autárquica à base de selfies para distrair parolos e as incontáveis e inenarráveis inaugurações da treta, que fizeram escola, parecem não querer desaparecer desta santa terrinha.

Esta terra que não merece o rio que tem. Melhor: quem mandou e manda nesta terra não merece o rio que tem. Não há paciência. Não há mais paciência para conversas, paleio, postas do feicebuque, foguetes e animações várias. O desafio para o actual presidente da Câmara é ultrapassar este triste onanismo almondino e chegar a vias de facto. J.C.L.

Nas fotos:

- Acção voluntária, há dias, dos “Guardiões do Almonda” junto ao antigo moinho dos Mesiões: os pneus continuam a ser uma imagem de marca do rio Almonda.

- O açude real no estado em que se encontra

 

 

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