As cinco depressões do nosso descontentamento - carlos paiva
Opinião
» 2026-02-22
» Carlos Paiva
O interesse do homem pelos movimentos e ciclos astrais é milenar. Por todo o planeta, monumentos e descobertas arqueológicas revelam esse interesse. Primariamente motivados pela passagem das estações do ano, ciclo do qual dependia o sucesso da agricultura, vital para a sobrevivência, até outras previsões, mais ligadas à superstição, embora calculadas por uma protociência baseada essencialmente no registo de acontecimentos coincidentes, por vezes justificados por vezes casuais, retiravam-se interpretações dos tempos por vir. Eventualmente formando credos e cultos que evoluíram para o formato da religião organizada.
Saber, representa poder. Reis elevaram-se, faraós caíram, ora por "adivinharem" eclipses solares e lunares com exactidão, ora por falhar em prever anos de seca extrema. As cheias anuais do Nilo eram vitais tanto pela água doce, como pela fertilização dos solos com os sedimentos arrastados de outras paragens pela corrente. Falhando o ciclo, haveria fome doença miséria. O reino ficava fraco, exposto à cobiça de outros, caía.
As cheias do Tejo, rio que nasce em território espanhol, tiveram exactamente o mesmo protagonismo funcional para a vida agrícola do Ribatejo, entretanto divorciada dos ciclos naturais por pressões económicas, não tanto pela necessidade de consumo dos bens alimentares ali produzidos. As cheias na planície aluvial do Mondego, rio que nasce em território português, encaixam em ciclos idênticos de fertilização dos solos.
Na realidade, o aproveitamento político dos ciclos naturais e de eventuais soluços disruptivos com os quais a imprevisibilidade da natureza ocasionalmente nos reduz à nossa insignificância, é milenar. O aproveitamento político, ora reforçando o poder instituído, ora determinando a sua queda, ora via superstição, ora via conhecimento científico, é um facto comum na história da humanidade. Não deveria ser surpresa. Dá nojo, mas não surpreende.
Enquanto os idiotas que nos governam proferiam frases insultuosas desprovidas de senso, exibindo escandalosamente na comunicação social a sua ignorância e incompetência com o orgulho de quem cometeu uma asneira monumental à vista de todos mas ainda não deu por isso, a sociedade civil mexeu-se. Fez o que estava ao seu alcance para ajudar quem necessitava de ajuda.
Voluntários apareceram sem ser chamados, de pá e vassoura na mão e ajudaram a limpar o lixo, a desimpedir as vias permitindo a circulação. Anónimos foram ao supermercado depois de saírem do trabalho, encheram o carro com os bens que o bom senso lhes dizia serem precisos e puseram-se a caminho das localidades mais afectadas. Gente que se viu obrigada a fazer 100 quilómetros para comprar combustível, quando chegava à caixa da estação de serviço para pagar, descobria que a despesa já estava paga. Por alguém que, entretanto, se tinha ido embora, sem esperar por um agradecimento. Empresários do turismo que disponibilizaram a totalidade dos serviços das suas unidades hoteleiras, sem custos, a quem precisasse, sem convidar as televisões para vir testemunhar. Empresários da construção civil que disponibilizaram matérias primas e transporte das mesmas, de borla ou a preço de custo, sem mostrar o nome ou logotipo da empresa em lado nenhum. Profissionais das mais diversas áreas que ofereceram os seus braços de trabalho sem cobrar honorários.
Se há alguém que está de parabéns é o Zé Povinho. O anónimo que fez o que pôde. E para o fazer, pagou IVA, pagou Segurança Social, pagou IRS/IRC. E pagou portagens na autoestrada. Porque esse sistema, curiosamente, manteve-se em pleno funcionamento, não houve intempérie que o afectasse. A isenção de pagamento veio depois e, entretanto, já desapareceu, mais rápida que ventos ciclónicos. Para este Zé Povinho, verdadeiramente humano, heroico, a cor da pele, a maneira de vestir, ou a adoração de um personagem imaginário diferente do seu, influenciaram zero.
A falta de ordenamento do território, a falta de manutenção preventiva, o licenciamento para construção à la carte, a desarticulação dos meios de resposta, as obras e intervenções fundamentais remetidas para o fundo da gaveta, as aquisições milionárias de equipamentos inadequados, a perigosidade das comunicações assentarem exclusivamente em meios digitais, as consequências deste rol de inépcias, os druidas previram, mas os governantes ignoraram.
Décadas sucessivas, governos sucessivos com a mesma postura. A chuva e o vento vieram pôr a nu as consequências. Especialmente para cidades com rios a passar dentro do perímetro urbano, esta foi a sirene de alerta. Há trabalho a ser feito, prioridades a serem revistas. Palmadinhas nas costas quando se anda a correr atrás do prejuízo, fica mal.
Só se dão parabéns, se for caso disso, no fim, com tudo resolvido. Tal como a ópera só termina depois da senhora gorda cantar. Então aplaude-se, não antes.
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
As cinco depressões do nosso descontentamento - carlos paiva
Opinião
» 2026-02-22
» Carlos Paiva
O interesse do homem pelos movimentos e ciclos astrais é milenar. Por todo o planeta, monumentos e descobertas arqueológicas revelam esse interesse. Primariamente motivados pela passagem das estações do ano, ciclo do qual dependia o sucesso da agricultura, vital para a sobrevivência, até outras previsões, mais ligadas à superstição, embora calculadas por uma protociência baseada essencialmente no registo de acontecimentos coincidentes, por vezes justificados por vezes casuais, retiravam-se interpretações dos tempos por vir. Eventualmente formando credos e cultos que evoluíram para o formato da religião organizada.
Saber, representa poder. Reis elevaram-se, faraós caíram, ora por "adivinharem" eclipses solares e lunares com exactidão, ora por falhar em prever anos de seca extrema. As cheias anuais do Nilo eram vitais tanto pela água doce, como pela fertilização dos solos com os sedimentos arrastados de outras paragens pela corrente. Falhando o ciclo, haveria fome doença miséria. O reino ficava fraco, exposto à cobiça de outros, caía.
As cheias do Tejo, rio que nasce em território espanhol, tiveram exactamente o mesmo protagonismo funcional para a vida agrícola do Ribatejo, entretanto divorciada dos ciclos naturais por pressões económicas, não tanto pela necessidade de consumo dos bens alimentares ali produzidos. As cheias na planície aluvial do Mondego, rio que nasce em território português, encaixam em ciclos idênticos de fertilização dos solos.
Na realidade, o aproveitamento político dos ciclos naturais e de eventuais soluços disruptivos com os quais a imprevisibilidade da natureza ocasionalmente nos reduz à nossa insignificância, é milenar. O aproveitamento político, ora reforçando o poder instituído, ora determinando a sua queda, ora via superstição, ora via conhecimento científico, é um facto comum na história da humanidade. Não deveria ser surpresa. Dá nojo, mas não surpreende.
Enquanto os idiotas que nos governam proferiam frases insultuosas desprovidas de senso, exibindo escandalosamente na comunicação social a sua ignorância e incompetência com o orgulho de quem cometeu uma asneira monumental à vista de todos mas ainda não deu por isso, a sociedade civil mexeu-se. Fez o que estava ao seu alcance para ajudar quem necessitava de ajuda.
Voluntários apareceram sem ser chamados, de pá e vassoura na mão e ajudaram a limpar o lixo, a desimpedir as vias permitindo a circulação. Anónimos foram ao supermercado depois de saírem do trabalho, encheram o carro com os bens que o bom senso lhes dizia serem precisos e puseram-se a caminho das localidades mais afectadas. Gente que se viu obrigada a fazer 100 quilómetros para comprar combustível, quando chegava à caixa da estação de serviço para pagar, descobria que a despesa já estava paga. Por alguém que, entretanto, se tinha ido embora, sem esperar por um agradecimento. Empresários do turismo que disponibilizaram a totalidade dos serviços das suas unidades hoteleiras, sem custos, a quem precisasse, sem convidar as televisões para vir testemunhar. Empresários da construção civil que disponibilizaram matérias primas e transporte das mesmas, de borla ou a preço de custo, sem mostrar o nome ou logotipo da empresa em lado nenhum. Profissionais das mais diversas áreas que ofereceram os seus braços de trabalho sem cobrar honorários.
Se há alguém que está de parabéns é o Zé Povinho. O anónimo que fez o que pôde. E para o fazer, pagou IVA, pagou Segurança Social, pagou IRS/IRC. E pagou portagens na autoestrada. Porque esse sistema, curiosamente, manteve-se em pleno funcionamento, não houve intempérie que o afectasse. A isenção de pagamento veio depois e, entretanto, já desapareceu, mais rápida que ventos ciclónicos. Para este Zé Povinho, verdadeiramente humano, heroico, a cor da pele, a maneira de vestir, ou a adoração de um personagem imaginário diferente do seu, influenciaram zero.
A falta de ordenamento do território, a falta de manutenção preventiva, o licenciamento para construção à la carte, a desarticulação dos meios de resposta, as obras e intervenções fundamentais remetidas para o fundo da gaveta, as aquisições milionárias de equipamentos inadequados, a perigosidade das comunicações assentarem exclusivamente em meios digitais, as consequências deste rol de inépcias, os druidas previram, mas os governantes ignoraram.
Décadas sucessivas, governos sucessivos com a mesma postura. A chuva e o vento vieram pôr a nu as consequências. Especialmente para cidades com rios a passar dentro do perímetro urbano, esta foi a sirene de alerta. Há trabalho a ser feito, prioridades a serem revistas. Palmadinhas nas costas quando se anda a correr atrás do prejuízo, fica mal.
Só se dão parabéns, se for caso disso, no fim, com tudo resolvido. Tal como a ópera só termina depois da senhora gorda cantar. Então aplaude-se, não antes.
Os nossos sonhos - joão carlos lopes
» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
1. Tomar e Santarém vão ver os seus politécnicos passar a escolas politécnicas universitárias. Independentemente da lógica da medida, que já se esperava para atender a interesses corporativos e políticos, esta cosmética vai suscitar naturalmente novas dinâmicas a essa duas cidades. |
A educação das massas
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. |
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades?
» 2026-08-08
» António Gomes
As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou. “Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo. |
Caderneta completa
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. |
Leituras de férias
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. |
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
|
» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
Os nossos sonhos - joão carlos lopes |
|
» 2026-08-08
» António Gomes
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades? |
|
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A educação das massas |
|
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Leituras de férias |
|
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Caderneta completa |