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As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos

Opinião  »  2025-11-09  »  António Mário Santos

«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro

 A esquerda portuguesa está em crise. No seu conjunto, são hoje, incluindo o PS, menos de 20% do eleitorado (PCP 2,9%, BE 2%, Livre 4,1%). O PS, mais centro que esquerda: os restantes, cada um com seu discurso, linhas ideológicas diversas. Os quatro com múltiplos sectarismos e, com outros nomes, há mais dum século, na vida portuguesa, incapazes de objectivos de interesses comuns.

Desde a Primeira República, e principalmente, depois do consulado sidonista, manteve-se sempre em crise.

À ditadura dos generais conservadores, ao orgulhosamente sós salazarista e à primavera/outono marcelista, nunca conseguiram uma frente de esquerda capaz duma tomada de poder, mantendo-se, uns, na luta de sacrifício clandestina, outros numa oposição aceite pela ditadura, a apresentar-se periodicamente em eleições manipuladas, a regressar ao mutismo das revoluções de café que a PIDE vigiava.

A guerra colonial veio abrir outras frentes de esquerda, no mundo universitário, católico, operário, substituindo a decadência do estalinismo pós segunda guerra mundial pelo maoismo chinês e pela agitação revolucionária, com meios mais contundentes, numa resposta à guerra colonial e ao seu desgaste em vidas humanas, corrupção desenfreada do poder fascista, vida miserável das populações.

Os militares que fizeram Abril tinham um projecto assente nos três Dês, democratizar, descolonizar, desenvolver.

51 nos depois, após um PREC tumultuoso que desuniu a frágil unidade das esquerdas em torno da ideia socialismo, entrou-se em 1975 num percurso constitucional, em que o partidarismo legítimo e múltiplo criou governos, fez oposição, elegeu deputados e presidentes da República, vereações e assembleias camarárias, juntas e assembleias de freguesia.

Verifica-se, porém, que todas as tentativas de unidade das esquerdas, por sectarismo, por centralismos de poder partidário, por visões de mundo moldáveis consoante os avanços e recuos do capitalismo e das ameaças sempre enraizadas da ameaça totalitária, assente no neocolonialismo e no racismo, nunca conseguiram ultrapassar o historial dos divórcios com separação de bens e partilha de filhos quase sempre frustrados e sem capacidade de manutenção do diálogo familiar.

A geringonça portuguesa foi um caso exemplar de estudo da incapacidade infantil da doença das esquerdas da esquerda. A primeira vez que estas se encontraram com o poder e a capacidade de resolver os problemas do atraso estrutural da sociedade portuguesa, com uma maioria absoluta incontestável, e uma aceitação pública reconhecida, zangaram-se, dividiram-se, forneceram à direita a faca, o queijo, o pão e o vinho, e nem o prato conseguiram que se não partisse.

Hoje, vivem no estado lastimável da viragem à direita da sociedade, na incerteza do presente, na utopia da resistência como mudança da trajetória do futuro. Incapazes, entretanto, de fazerem a soma de quantos são, do que influenciam, do que pensam as populações do que eles valem, de abrirem os livros da história da esquerda mundial e verificar as causas dos seus recuos e derrotas. A autocrítica parece ser uma das palavras que nunca souberam bem o que significa. E continuam, como se o erro e a asneira fossem sempre das outras esquerdas.

Tudo isto me veio à mente, quando ontem assisti à tomada de posse da vereação e assembleia municipal do concelho de Torres Novas. O Partido Socialista toma posse como vencedor, elege o presidente do executivo pela regra eleitoral, mas passa de décadas de maioria absoluta a uma fase de minoria, com a oposição a ter o poder do controlo do executivo. Na Assembleia, a presidência conseguiu ser mantida pelos socialistas, pela votação das outras forças de esquerda com assento, já que não garantem, por si e juntas respectivas, a maioria necessária, ainda mais quando uma das faltas, na tomada de posse, era um dos seus eleitos.

Desejei, antes da posse, ao Dr. José Manuel Trincão Marques, como cidadão de esquerda candidato e votante do BE, as maiores felicidades na gestão que vai presidir, mas dizendo-lhe que não vai ser nada, mas mesmo nada, fácil.

Prevejo que a direita se aliará à extrema-direita (como já o fez na eleição da Assembleia Municipal). Ir-lhe-á fazer a vida muito cara, a começar pelo orçamento, pedidos de sindicância, alterações da estrutura do quadro de pessoal, investimentos com verbas do quadro aprovado dos fundos europeus. E terá sempre, no médio prazo, em vista a sua exoneração e a realização de eleições intermédias. Tudo depende da política nacional, após as presidenciais, e da capacidade das esquerdas, mesmo no mundo concelhio, de conseguirem junto das populações a necessidade de resistência à ânsia do totalitarismo que se agiganta, com o apoio das televisões e das redes sociais. O que, a prazo, e com o divisionismo estéril das esquerdas portuguesas, me parece, sem uma consciência unitária da sua sobrevivência democrática, muito difícil de combater.

Quem viver, verá.

 

 

 

 

 

 

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