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SEQUESTRADOS - josé mota pereira

Opinião  »  2020-07-03  »  José Mota Pereira

"A economia, a nossa, a de todos, estará sequestrada, nela se produz e vende cada vez menos"

Parece inevitável que no próximo ano, ano e meio, possamos desconfinar mais do que estamos. A surgirem alterações, será sempre no sentido do aumento do confinamento e não o seu contrário. Sem prazo à vista para que nos libertemos disto.
Até lá, temos de suportar o sequestro da vida social do ser humano. Suportar o sequestro do convívio familiar e dos amigos. A separação e o afastamento. A impossibilidade do abraço fraterno nas horas felizes e nos momentos tristes. Afastados da arte e da cultura, da música e da dança, do teatro, de tudo, da criatividade colectiva do engenho humano.
Os serviços públicos permanecerão sequestrados no seu atendimento cada vez mais em modo virtual. Continuaremos a assistir ao sequestro da juventude e das suas aventuras, dos seus grupos, dos seus amores. O sequestro do amor, sim. Ainda mal.
Permanecerá o sequestro das escolas, o afastamento a-social, o sequestro do atendimento na saúde com a sombra da pandemia a pairar sobre as cabeças dos profissionais e dos doentes.
O sequestro do trabalho, das condições, dos direitos, das remunerações, da capacidade de intervir colectivamente, já para não falar do sequestro do convívio entre trabalhadores, que vai até às cantinas confinadas, colegas de trabalho postos todos de costas uns para os outros. Até a máquina do café está confinada e o teletrabalho a entrar-nos, sorridente, pela casa dentro.
A economia, a nossa, a de todos, estará sequestrada, nela se produz e vende cada vez menos e menos com menos dá mais crise, portas fechadas, menos subsistência, menos resistência.
Finalmente, o sequestro das nossas democracias, feito de parlamentos que mal funcionam, da fiscalização democrática que não se faz, a nível central ou local, os debates sobre o futuro adiados, a destruição das organizações que não reúnem, não debatem, o pensamento a unificar-se, uma comunicação social a estender a mão abdicando da liberdade crítica, a diversidade a ficar amorfa.
Vamos ficando assim, confinados, cada um de nós, no seu muro. Mais um ano, ano e meio, pelo menos assim.
Sairemos disto, pois claro, todos aqueles a quem a saúde permitir. Mas seremos com toda a certeza uma sociedade muito diferente daquilo que já vivemos nestes milhares de anos. Inevitavelmente. Provavelmente menos humanos, mais sós, mais isolados e egoístas. Disso já não há vacina que nos salve.

 

 

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