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O universo num grão de areia - carlos paiva

Opinião  »  2025-10-18  »  Carlos Paiva

Somos um povo granular. Se há algum denominador comum no nosso comportamento, é esse o mais evidente. Por defeito, permanecemos divididos em pequenos domínios e, apenas pontualmente, mediante grande pressão, somos capazes de união num bloco sólido.

Nos grandes agentes aglutinadores da sociedade, instituições públicas de grande dimensão e mundo corporativo, são visíveis as quintas e quintinhas. Pequenos reinos, pequenas áreas que, embora inseridos numa máquina maior com a qual obrigatoriamente interagem, cultivam uma atitude que entendem exclusiva de si próprios.

Na composição geográfica do território, pode ser interpretado comportamento idêntico. Cidades inteiras manifestam uma atitude celular perante a distribuição territorial. Coimbra vai à Figueira da Foz exclusivamente uma vez por ano, por motivos de uma tradição estudantil. De resto, não passaria pela cabeça de ninguém em Coimbra proferir frases como: e se fôssemos almoçar à Figueira? Eu e a minha família passamos as férias de verão na praia da Figueira. Vamos beber um copo à Figueira? A Figueira da Foz é destino para tudo isso, e mais, para o resto do mundo, excepto Coimbra.

Diversas cidades de dimensão significativa, próximas da costa, apontam os seus destinos de lazer habituais para longe. Em casos extremos, quando visitamos essas cidades, não tropeçamos num único indício revelador da proximidade dos paraísos que a rodeiam. Alguns ao alcance de uma saudável caminhada. Perguntando aos locais onde gozam as suas férias, respondem centenas milhares de quilómetros de distância. Então e a praia aqui ao lado? Ficam com um ar de incompreensão, como se tivéssemos passado a falar em sânscrito.

Os complexos de inferioridade resultantes de uma população rústica, estigmatizada pela ignorância e pobreza, impostos pela ditadura fascista, desabrocha numa necessidade urgente de vivência cosmopolita, associada com frequência à ostentação de poder económico, nem que seja apenas aparente. São rituais vinculativos a ideais de modernidade sucesso superioridade. Construídos com presunções e pressupostos é certo, mas perfeitamente capazes de proporcionar o reconforto psicológico em falta. Dado o tempo suficiente, há de passar. Penso.

Talvez a tendência granular esteja inscrita no nosso DNA. A repressão secular da igreja, a monarquia, a ditadura, não tenham tido o protagonismo que lhes atribuo na formatação comportamental lusitana. Mas a questão mantém-se independentemente da origem, prejudica o presente, transitório ou não. Desdenhar as mais valias em carteira é má gestão. Delapidar essas mais valias é suicídio. Como as boas práticas de gestão e o bom senso alertam, a descapitalização é uma ladeira íngreme e escorregadia. Caminho ilógico, compromete a sobrevivência. A não ser que seja intencional e sirva outros propósitos.

Na realidade actual, um mundo pós-política, as ideologias agonizam no seu último reduto, o espaço académico. Meras abstracções em exercícios intelectuais. Extintas as ideologias na prática política, por efeito de cascata desaparecem igualmente da orientação governativa. O conceito de organizações sociais opostas (direita / esquerda) tornou-se obsoleto. Na nova realidade não existe duelo entre governo e oposição, apenas problemas para resolver, acordos para negociar. A adaptação da governação ao paradigma corporativo dispensa qualquer mecanismo de transição. Sem sobressaltos, sem ninguém dar por nada, já está feito. E é aqui que a postura granular se pode revelar fatal para o bom funcionamento da máquina maior.

A actualidade autárquica enfrenta um problema impossível. Nunca haverá condições financeiras suficientes para repor, inverter, recuperar, compensar, as asneiras irresponsáveis de trinta anos de desdém. Mesmo com financiamentos externos e endividamento gigantesco à banca. Nunca. Foram muitas asneiras e muito caras. Daí, ser péssima ideia alguém prometer que esse é o caminho a seguir. O que está feito, está feito. O melhor que podemos esperar será travar a espiral descendente caótica de más decisões e remendar o que for possível remendar. Emendar, embora seja uma ideia agradável, é irreal. Esperançosamente, que apareça, finalmente, liderança.

A postura granular colocou-nos onde estamos hoje. Urge mudar a postura. Ora aí está um desafio político de valor. Uma promessa que faz sentido.


 

 

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