• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Quarta, 12 de Dezembro de 2018
Pesquisar...
Sáb.
 16° / 6°
Céu nublado
Sex.
 15° / 7°
Períodos nublados
Qui.
 15° / 8°
Períodos nublados com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  13° / 9°
Céu muito nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

A Mala

Opinião  »  2018-03-08  »  José Ricardo Costa

"O tempo não parou e o milénio passou a ser o nosso enquanto a história esfrega um olho"

É uma das mais poderosas e iconográficas imagens do século XX português: homens, mulheres, crianças, carregando malas enormes e pesadas para dentro do Sud Expresso, rumo a Paris, exalando aquela pobreza granítica do quadro O Almoço do Trolha, de Júlio Pomar. Pessoas entre a humildade e a miséria de uma analfabética vida sem história, muitas sem nunca terem visto o mar num país que foi à beira-mar plantado ou alguma vez pisado a capital do império, sendo antes este a tê-las pisado toda a vida. Aquelas malas enormes e pesadas são muito mais do que malas: são uma vida levada aos ombros, desde a pobre aldeia portuguesa até aos esgotos sombrios da cidade-luz.

Fiz três vezes o Sud Express, duas antes do 25 de Abril e outra no Verão de 74. Faz bastante tempo, a minha idade era pouca, mas lembro-me bem das grandes malas mas também de sacos, saquinhos e sacolas, com batatas, enchidos, queijos, garrafões de vinho ou azeite lá da terra. Ao longo de dois longos dias numa carruagem onde se conversava, comia e, depois, à noite, também se dormia, e no meio de toda aquela tralha, respirava-se uma homérica atmosfera de viagem, uma experiência de transfiguração social, com a Espanha a fazer de mar informe entre uma Ítaca que ficou para trás e o desconhecido mas sem qualquer doce Penélope para cujos braços voltar, apenas uma esquelética miséria para esquecer de vez.

Hoje, embora também já sejamos um país de imigrantes, continuamos a ser um país de emigrantes. Porém, nada que ver com os míticos avós dos anos 60, os quais ainda eram filhos das personagens de As Vinhas da Ira em busca das belas laranjeiras da Califórnia. O modo como viajam hoje os novos emigrantes, já não para se atolarem nos esgotos de Paris mas para as simplesmente modestas periferias de Londres, Frankfurt, Amsterdão ou Copenhaga, faz-me lembrar a primeira das seis conferências de Italo Calvino, em Harvard, no longínquo ano de 1984, intitulada “Leveza”, reunidas num livro chamado “Seis propostas para o próximo milénio”.

O tempo não parou e o milénio passou a ser o nosso enquanto a história esfrega um olho. A primeira ideia que me vem à cabeça ao pensar na emigração dos nossos millennials é a de “leveza”. O lento Sud Expresso, carregado de batatas, enchidos, azeite e muita angústia, deu lugar a voos low cost da Ryanair ou da Easyjet, levando pelo ar jovens que falam Inglês e há muito conectados ao mundo, demorando o mesmo que uma singela viagem de comboio entre Lisboa e Aveiro. Entretanto, o bidonville lá no esgoto de Paris, deu lugar a um apartamento com wi-fi, onde, a todo o momento, via facebook, whatsapp, skype ou chamadas já sem roaming, se está ligado a todo o mundo e a qualquer hora.

Mas são as malas. São as malas, de porão ou cabine, com as suas pueris rodinhas, que nos dão o sentido da história. Em vez de trágicos sísifos, carregando enormes e pesados rochedos, temos jovens deambulando em assépicos e climatizados aeroportos, com phones nos ouvidos, telemóvel na mão direita e mão esquerda a fazer deslizar uma mala com rodinhas, o que até pode ser feito com as pontas dos dedos. O emigrante de hoje faz lembrar as criancinhas da escola primária em dia de visita de estudo, levando a sua mochila de rodinhas com o seu lanchinho para comer a meio da manhã. Como ousaria pensar o velho Paracelso, os sísifos de outrora transformaram-se nas sílfides de hoje.

Felizmente, convenhamos.

 

 

 Outras notícias - Opinião


O drama dos partidos de poder »  2018-12-07  »  Jorge Carreira Maia

A crise em que se arrasta o principal partido da oposição, o PSD, é sintomática da natureza dos partidos de poder em Portugal. São fortes e sólidos quando estão no poder; são frágeis e à beira da desagregação quando a governação lhes foge.
(ler mais...)


Mulheres »  2018-12-07  »  Inês Vidal

São mulheres. São presidentes, directoras, empresárias, polícias, bombeiras, autarcas, entre tantas outras profissões ou actividades. Acima de tudo, são mulheres. Ocupam cargos que um dia foram tradicionalmente de homens, ou foram as primeiras a fazê-lo por estas bandas.
(ler mais...)


Direito à indignação »  2018-12-07  »  Fernando Faria Pereira

O conceito deve-se, tanto quanto me lembro a Mário Soares, figura incontornável da democracia, que protagonizou a Presidência Aberta pelo Ambiente em resposta ao artigo 66º da constituição (ambiente e qualidade de vida) que estipula no seu nº 1: todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender.
(ler mais...)


Amasso Friday »  2018-12-07  »  Miguel Sentieiro

Vi as imagens daquela massa humana compactada à porta da loja de aspiradores na tal Black Friday. Numa primeira análise temo confessar que também embarquei na tese “ o que passa na cabeça destes mentecaptos para, numa 6ª feira de manhã, se sujeitarem a uma espera de horas neste degredo massivo?”.
(ler mais...)


As estradas do concelho de Torres Novas »  2018-12-07  »  António Gomes

Uma parte muito significativa das estradas, ruas, ruelas, largos, rotundas, somando mais de cem, que fazem parte da rede viária deste concelho, encontram-se em estado de deterioração mais ou menos avançado. Algumas situações estão mesmo num estado miserável, como sabemos.
(ler mais...)


Como funciona a nossa memória »  2018-12-07  »  Juvenal Silva

 

A memória é essencial para a nossa capacidade de gravar, armazenar e recuperar informações. A nossa memória é uma máquina fantástica, que contém as nossas perceções, os nossos sentimentos, as nossas memórias, imaginação e permite-nos pensar e, ser quem somos.
(ler mais...)


Filhos e netos »  2018-11-23  »  Jorge Carreira Maia

Para o meu neto Manuel.

Há uma diferença essencial, para um pai e avô, entre o nascimento de um filho e o de um neto. O nascimento do filho traz com ele, para além do prazer que a sua vinda significa, problemas práticos.
(ler mais...)


Palavra passe »  2018-11-21  »  Fernando Faria Pereira

Estaciono à primeira. Entro no café. Portas automáticas. 3 rapazes: o do lado de lá e outros 2. Boa noite! Bnoite. 1 Água com gás natural sem copo. A televisão está no CM: desgraças, previsíveis ameaças.
(ler mais...)


Biblioteca com vida »  2018-11-21  »  Anabela Santos

Há muitos anos, não quero lembrar quantos para não recordar que já estou na “meia idade”, subia, com alguma regularidade, a ladeira de Salvador e dirigia-me à biblioteca municipal, que ficava junto da igreja.
(ler mais...)


Quais os sintomas e tratamentos naturais dos resfriados »  2018-11-21  »  Juvenal Silva

Os resfriados podem ocorrer em qualquer época do ano. Todavia, são mais comuns entre as estações de outono e inverno.

Os sintomas mais comuns são: coriza, espirros, congestão nasal, tosse, dor garganta, cansaço, perda de apetite, febre baixa, embora nas crianças possa ser mais elevada ocasionalmente.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2018-11-23  »  Jorge Carreira Maia Filhos e netos
»  2018-11-21  »  Juvenal Silva Quais os sintomas e tratamentos naturais dos resfriados
»  2018-11-21  »  Anabela Santos Biblioteca com vida
»  2018-11-21  »  Fernando Faria Pereira Palavra passe
»  2018-12-07  »  Jorge Carreira Maia O drama dos partidos de poder