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Eis a questão?

Opinião  »  2016-07-10  »  Ricardo Jorge Rodrigues

""De forma eloquente digo que ser emigrante é uma condição especial. Mas sê-lo em Moçambique é mais fácil do que, certamente, em muitos outros países de mundo""

Ser ou não ser? Eis a questão” é um dos mais famosos aforismos da literatura mundial, da autoria de William Shakespeare. Quando se questiona sobre a integração de emigrantes portugueses em Mo- çambique há uma questão que se coloca inevitavelmente: é difícil?

Não, não é. De todo. Muito por culpa do cariz simpático, afável e acolhedor do povo moçambicano, que carrega num olhar a doçura de um povo inteiro e a história de uma gente cansada de sofrer. Ser emigrante nunca é uma condição fácil. Porque saímos da nossa zona de conforto, porque estamos longe do que é nosso – amigos, lar, família –, porque muitas vezes quem faz vida noutro país que não aquele em que nasceu fá-lo por dificuldades económicas e por procurar uma vida melhor.
Arrisco dizer que esse é o principal factor, por larga margem, que leva as pessoas a emigrar. Na nossa história recente temos uma geração inteira que ficou marcada por uma vaga de emigrantes que procuraram pelo mundo fora melhores condições de vida. Actualmente, muitos dos nossos emigrantes são-no porque as suas competências os levam a, confortavelmente, procurar experiências no estrangeiro.

Tudo isto – diferentes gera- ções com motivos variados – se encontram aqui, onde África se dobra a caminho da terra que os portugueses ousaram descobrir no longínquo século XV. De facto, sair da zona de conforto nunca foi um problema para o sangue português.

Se me perguntarem quais as maiores dificuldades que Moçambique oferece para a integração de emigrantes destacaria a forma como os vários agentes sociais (desde o povo, proprietários ou empresários) tentam sempre enganar quem é novo no país para com isso tirar algum proveito; para quem tem um negócio é muito difícil controlar furtos por parte dos empregados; e a logística em Moçambique é tremendamente lenta, levando qualquer um ao desespero.

Por outro lado, o facto de a língua ser a mesma – ainda que o povo moçambicano transporte consigo muitos dialectos no dia-a-dia –, das paisagens serem deslumbrantes e também de estarem muitos portugueses em várias zonas do país (Maputo, Nacala, Pemba, Tete, etc.) facilita muito a integração num grupo social evitando que os tempos fora do horário laboral sejam passados num negativismo inerente à saudade do lugar a que pertencemos.

Noto, também, uma diferença entre duas gerações de emigrantes portugueses que vivem no país: uma geração acima dos 40 anos que aproveita os salários muito baixos dos moçambicanos, e faz ainda sobreviver alguns resquícios sociais da época colonial, fazendo com que a necessidade destas pessoas alimente a sede de poder que trazem de Portugal, abusando no tratamento desleal e impróprio para com o povo nativo; e uma geração abaixo dos 40 anos, sem qualquer tipo de sentimento de superioridade, vingança histórica ou de suprimir em Moçambique os falhanços da vida, que convive com os moçambicanos sem qualquer tipo de diferenciação social ou racial.

De forma eloquente digo que ser emigrante é uma condição especial. Mas sê-lo em Moçambique é mais fácil do que, certamente, em muitos outros países de mundo.

 

 

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