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OS VENTOS DA NOSSA INQUIETAÇÃO

Opinião  »  2020-04-05  »  José Alves Pereira

"É imperioso tomar os devidos cuidados de protecção sanitária, mas igualmente estar lucidamente disponível para questionar as saídas políticas e sociais"

Os tempo preocupantes que vivemos não são propícios a pensamentos e análises com lucidez e serenidade, mergulhando-nos em múltiplos casos colaterais, em detrimento do essencial. Teorias da conspiração, responsabilizações de países e entidades num clima em que a desorientação e o medo levam a um irracional desabafar de sentimentos, transportando por arrastão, de forma descontextualizada, modos de vida e de sociabilidade. Para melhor interpretarmos o presente, façamos uma breve digressão pelo passado. A história do Homem é também a das inúmeras doenças, epidemias, pragas, com implicações na demografia, economias e sistemas sociais. O Universo que habitamos é um ecossistema feito de muitos seres vivos que mudam e se cruzam, criando situações para as quais nem sempre a ciência tem imediata resposta. Muitas doenças que foram um flagelo para os nossos antepassados, estão hoje controladas, subsistindo apenas em países mais pobres. Quem recorda a varíola, lepra, febre amarela, sifílis, malária, tuberculose, sarampo, cólera, raiva, etc, etc. Durante muitos séculos não se compreendia a origem e a noção de contágio e, portanto, a de agente transmissor, logo ou não se combatia a doença, ou se usavam tratamentos que a agravavam. Erigia-se como conhecimento a teoria dos “humores desequilibrados” e “o desalinhamento dos astros” ou pior ainda a responsabilização e perseguição dos judeus – com a morte de alguns milhares -, dos hereges e outros comportamentos pecaminosos, susceptíveis de levar aos castigos de Deus. As viagens, guerras, expedições, rotas de comércio, eram veículos privilegiados de difusão dos vírus e bactérias. A sífilis que imperou na Europa durante 400 anos terá surgido em Itália e difundida pela armada de Carlos VIII que conquistara o reino de Nápoles. As expedições marítimas dos descobridores levaram os seus germens, bem como o da varíola, para a América do Sul, provocando grandes baixas nas populações ameríndias. A lepra expandiu-se com as cruzadas. O isolamento, aqui, já era praticado, mas visava menos tratamento e mais o retirar do espaço público os andrajosos, com aspecto repugnante, que abanando uma matraca ou um sino avisavam da sua passagem. A cólera com origem na Índia, passou pelo norte de África antes de chegar à Europa. A “peste negra” veio da Euroásia e através da Rota da Seda chegou até à Península Ibérica. Centro-me agora em duas epidemias que no séc. XX marcaram a vida portuguesa. Uma foi vivida pela actual geração mais velha: a gripe “asiática”, iniciada em Agosto de 1957, quando o vapor Moçambique, vindo de África, entrou no Tejo com passageiros doentes. Começou então a propagação da epidemia no País. Fábricas paralisadas, hospitais sobrelotados, escolas fechadas, etc. As pessoas iam gerindo por si próprias as ausências ao trabalho, adoecendo e morrendo, enquanto os jornais publicavam a benignidade da epidemia em Portugal, ao contrário do que estaria a acontecer noutros países. A gripe provocou 1050 óbitos, sendo 288 em Lisboa. Calcula-se que tenham morrido cerca de 4 milhões de pessoas em todo o mundo. Uma outra pandemia, bem mais devastadora, irrompeu há pouco mais de um século, em meados de 1918 e terá sido a maior da humanidade: a “pneumónica” ou a “espanhola”. Estava-se no final da I Guerra Mundial, milhares de soldados dos EUA tinham sido mobilizados para a Europa, sendo que muitos eram portadores do vírus da gripe. Em poucos meses mais de quarenta milhões de pessoas morrem em todo o mundo. Diz-se espanhola porque tendo-se mantido neutral, a Espanha, era o único país que não estava sujeito a censura informativa. Terminada a guerra, soldados desmobilizados regressavam, sem qualquer impedimento, às suas terras. Diz-nos Álvaro Sequeira “Nos momentos mais críticos da epidemia, a confusão era tal, que impediu a discussão das suas causas e as possíveis soluções”. Um aviso para o presente! Embora os números oficias, em Portugal, apontem para 60474 óbitos, o que já não seria pouco, calcula-se que juntando os casos de doenças não identificadas ou mal definidas os números ultrapassem os 100.000 mortos. A pandemia do COVID-19, que estamos a sofrer, é a pior de todas porque é a “nossa”, a que nos assusta, a que alterou os nossos modos de vida, a que criou incertezas e diversificados problemas a um mundo de múltiplas interdependências. As limitações ao nosso modo de vida são a consequência de um muito maior conhecimento do problema. Vivemos num clima de medo e desconfiança, alimentado pela desinformação das redes sociais e pela omnipresença de uma comunicação social, nomeadamente da televisão, agressora dos cidadãos enclausurados nas suas residências. É imperioso tomar os devidos cuidados de protecção sanitária, mas igualmente estar lucidamente disponível para questionar as saídas políticas e sociais que inevitavelmente se colocarão após a pandemia . A ideia do retorno “aos bons velhos tempos”, como parece deprender-se de alguns comentários, não passa de um exercício nostálgico, sem respaldo na história, e que traz à memória o filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”, em que alguns protagonistas, insatisfeitos com o seu tempo (1920), sonham com anteriores vivências sociais. Alguém recordava então, que esse passado, transportava também muitas doenças e sofrimento, e, acrescento eu, uma esperança média de vida, à nascença, que por volta de 1880 e nos países mais desenvolvidos, não chegava aos 50 anos.

Bibliografia de apoio George, Francisco; Nunes, Emília, JANUS 2009, Pandemias no século XXI Sequeira, Álvaro, “A Pneumónica”, Medicina Interna, Vol. 8, 2001
Vários, DGS, “Gripe em Lisboa”, 1957 e 2008, s/d

 

 

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