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Ananias Lopes, o ardina amigo - anabela santos

Opinião  »  2020-12-06  »  AnabelaSantos

"É difícil entender esta questão da língua portuguesa ser considerada língua oficial em Timor"

De segunda a sexta feira, a rotina repete-se. Por volta das seis da manhã, o sol entra pela janela, o calor já é muito e são horas de sair da cama. Banho, pequeno almoço, preparar o material para levar para a escola e chega o momento de começar o dia de trabalho.
De Taibessi, local onde vivo, até à rua de Balide, onde se situa a escola portuguesa, são três ou quatro minutos de caminho. Muito perto!
O caminho faz-se a pé, o sol a queimar o corpo e sentindo o pó provocado pelo estado da estrada e pelo trânsito. Apesar de curto, o percurso é cheio de vida. Gente que vai para o trabalho, para a escola ou para o mercado, muito trânsito, vendedores de fruta, legumes e de outras coisas que, ainda, não sei o nome…uma cidade em movimento.
E eu sigo com muito cuidado, sempre atenta ao trânsito, pois circular nas ruas de Díli é uma aventura “perigosa”. Até chegar ao portão da escola, vou respondendo a todos os “bom dia, professora!” que me são dirigidos, por miúdos e graúdos, com um sorriso de orelha a orelha. Quando regressar a Portugal, penso que estas vozes me irão acompanhar durante muito tempo e será difícil desligar.
Então, tenho o trânsito, o pó, o calor, o cumprimento afável das pessoas e, todos os dias, ouço alguém chamar:
- Professora Anabela!
É o Ananias! Segue pela rua na sua bicicleta, os jornais sobre o guiador e o sorriso verdadeiro que o caracteriza.
Ananias Lopes nasceu em Viqueque, tem quarenta e seis anos, veio com sete anos para Díli e é o ardina que, todas as manhãs, espera por mim para vender o jornal.
Só o senhor do quiosque da esquina, que fala perfeitamente português, compra o jornal como eu, mas não importa, ele passa sempre.
- Professora, “Díli Post”?
- Não, Ananias, hoje levo “O Diário” e o “Timor Post”.
Jornais escritos em tetum, mas que mantêm uma página em língua portuguesa. É difícil entender esta questão da língua portuguesa ser considerada língua oficial em Timor Leste, mas sobre esse tema falarei num outro dia.
Voltando aos jornais… cada jornal custa cinquenta centavos e o Ananias ganha cinco centavos pela venda de cada um. Fico irritada pela injustiça a que ele está sujeito. Não sei se é normal ou não, não sei se o Ananias poderia ganhar mais, mas para mim é injusto. É difícil sobreviver! Na verdade, eu nunca dou só os cinquenta centavos. Mas estou certa ou errada? Mais uma questão que ficará para depois.
Hoje só importa o ardina de Díli.
E, a razão que me leva a contar esta história real, é o facto de constatar que o destino, mesmo estando eu neste lado do mundo, permite que o meu ritual do café e do jornal da manhã se mantenha graças ao meu ardina. Amanhã, eu e o Ananias não temos encontro marcado, mas ele vai lá estar.

 

 

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