Quantos Salazares? - acácio gouveia
Opinião
» 2025-12-22
» Acácio Gouveia
“O recado que trazem é de amigos / Mas debaxo o veneno vem coberto / Que os pensamentos eram de inimigos” - Luís de Camões in Os Lusíadas Canto I, 105
Essa é boa! Evocar Salazar como figura tutelar da luta contra a corrupção! Se tal patrono convencer os portugueses, então confirma-se que somos um povo condenado ao equívoco do messianismo, como sugeria António Mário no passado número do JT. Há quatro séculos ansiávamos pelo regresso de D. Sebastião, que não passou dum incompetente reizito, responsável pelo catastrófico desaire de Alcácer Quibir e da perda da independência. Eleger um garotelho inábil para campeão salvador da pátria, um fedelho que, em dez anos, pouco fez pelo seu povo, e acabou por conduzi-lo ao abismo e à mais trágica hecatombe da sua História, não lembraria a maioria dos povos. É preciso ter mesmo muito mau gosto e enorme falta de discernimento.
E, em 2025, parece que a vocação para escolhas disparatadas se mantém. Apostar em Salazar (e logo três!) para combater a corrupção pode enganar muita gente, sobretudo os mais novos, que nasceram depois de...digamos,1960. Mas, para quem guarde recordações do salazarismo, lembrar-se-á que a imagem dum regime impoluto não coincide com as memórias desse tempo.
Só gentes da minha geração, ou mais velhas, se recordarão, por exemplo, da PVT – Polícia de Viação e Trânsito - que em 1970 foi extinta e substituída pela Brigada de Trânsito, após o afastamento de Salazar. Dizia-se então que o motivo estava na corrupção, de tal modo entrincheirada naquela corporação, que Caetano renunciou a qualquer tentativa de saneamento, optando pela solução mais radical e segura. Mais preocupado com a exactidão do que os actuais alucinados fazedores de narrativas desvairadas que por aí pululam, tentei confirmar esta versão, mas confesso que não encontrei senão referências a “desvarios” (seja lá o que isso signifique) na pesquisa sumária pela IA. Enfim, fica um testemunho embora com a ressalva referida.
Porém, historicamente confirmado, temos o caso Ballet Rose, versão lusitana do escândalo Epstein, lá dos ianques. Um sórdido episódio de pedofilia e prostituição, que envolveu várias figuras gradas do regime e que Salazar conseguiu abafar de tal forma que apenas foi punido o peixe miúdo, ficando incólumes os figurões. Aí está um exemplo de corrupção da justiça, naqueles tempos em que se poupava os poderosos. Hoje, é surpreendente que haja quem queira (por grossa ignorância, quero crer) regressar a épocas da honestidade e lisura, só que se equivocam redondamente. É que, seguramente, não foi o salazarismo tempo de honradez e decoro.
É verdade incontestada que o ditador era honestíssimo de contas pessoais e nunca se apropriou de quaisquer bens para seu proveito. Contudo, não é menos verdade que, em meio século de democracia, também há vários exemplos de chefes de Estado e do Governo a quem nada se pode apontar nesse domínio. Portanto, o mantra dos “últimos 50 anos de corrupção” atribuído ao regime democrático vigente é falsa propaganda.
Mas, voltando aos tempos de Salazar, desiludam-se os que ainda acreditam na pureza de costumes. O nepotismo, herdado de anteriores épocas e culturalmente entranhado, manteve-se incólume. É certo que não houve histórico, durante o Estado Novo, de mega-desfalques, como o de Sócrates, mas também é bom recordar que não era permitido o jornalismo de investigação, que se debruçasse sobre políticos ou figuras influentes do mundo dos negócios. Por outro lado, independência dos tribunais ou da investigação criminal estavam muito limitadas. Por isso, muita da corrupção ou crimes económicos ficariam por chegar ao conhecimento público ou nunca seriam investigados, ao contrário do que hoje acontece.
A falsidade e a meia-verdade sempre foram recursos usados no combate político, mas vivemos tempos em que se abusa das imposturas com descaramento inaudito. Uma mentira repetida à exaustão tem o condão de passar por verdade, é por demais sabido. É o que se passa com essa ilusão dum neossalazarismo redentor para combater a corrupção em Portugal.
Que sirva de aviso o que se passa do lado de lá do Atlântico: Trump fez bandeira da sua eleição a “drenagem do pântano”, isto é, supostamente pretendia acabar com a conjecturada corrupção instalada em Washington. Uma vez chegado ao poder estabeleceu a mais descaradamente corrupta administração na Casa Branca de que há memória em dois séculos e meio de história americana. Ora, que eu saiba, o único dirigente partidário português convidado para assistir à tomada de posse de Trump foi justamente André Ventura, que actualmente se proclama campeão anticorrupção.
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Quantos Salazares? - acácio gouveia
Opinião
» 2025-12-22
» Acácio Gouveia
“O recado que trazem é de amigos / Mas debaxo o veneno vem coberto / Que os pensamentos eram de inimigos” - Luís de Camões in Os Lusíadas Canto I, 105
Essa é boa! Evocar Salazar como figura tutelar da luta contra a corrupção! Se tal patrono convencer os portugueses, então confirma-se que somos um povo condenado ao equívoco do messianismo, como sugeria António Mário no passado número do JT. Há quatro séculos ansiávamos pelo regresso de D. Sebastião, que não passou dum incompetente reizito, responsável pelo catastrófico desaire de Alcácer Quibir e da perda da independência. Eleger um garotelho inábil para campeão salvador da pátria, um fedelho que, em dez anos, pouco fez pelo seu povo, e acabou por conduzi-lo ao abismo e à mais trágica hecatombe da sua História, não lembraria a maioria dos povos. É preciso ter mesmo muito mau gosto e enorme falta de discernimento.
E, em 2025, parece que a vocação para escolhas disparatadas se mantém. Apostar em Salazar (e logo três!) para combater a corrupção pode enganar muita gente, sobretudo os mais novos, que nasceram depois de...digamos,1960. Mas, para quem guarde recordações do salazarismo, lembrar-se-á que a imagem dum regime impoluto não coincide com as memórias desse tempo.
Só gentes da minha geração, ou mais velhas, se recordarão, por exemplo, da PVT – Polícia de Viação e Trânsito - que em 1970 foi extinta e substituída pela Brigada de Trânsito, após o afastamento de Salazar. Dizia-se então que o motivo estava na corrupção, de tal modo entrincheirada naquela corporação, que Caetano renunciou a qualquer tentativa de saneamento, optando pela solução mais radical e segura. Mais preocupado com a exactidão do que os actuais alucinados fazedores de narrativas desvairadas que por aí pululam, tentei confirmar esta versão, mas confesso que não encontrei senão referências a “desvarios” (seja lá o que isso signifique) na pesquisa sumária pela IA. Enfim, fica um testemunho embora com a ressalva referida.
Porém, historicamente confirmado, temos o caso Ballet Rose, versão lusitana do escândalo Epstein, lá dos ianques. Um sórdido episódio de pedofilia e prostituição, que envolveu várias figuras gradas do regime e que Salazar conseguiu abafar de tal forma que apenas foi punido o peixe miúdo, ficando incólumes os figurões. Aí está um exemplo de corrupção da justiça, naqueles tempos em que se poupava os poderosos. Hoje, é surpreendente que haja quem queira (por grossa ignorância, quero crer) regressar a épocas da honestidade e lisura, só que se equivocam redondamente. É que, seguramente, não foi o salazarismo tempo de honradez e decoro.
É verdade incontestada que o ditador era honestíssimo de contas pessoais e nunca se apropriou de quaisquer bens para seu proveito. Contudo, não é menos verdade que, em meio século de democracia, também há vários exemplos de chefes de Estado e do Governo a quem nada se pode apontar nesse domínio. Portanto, o mantra dos “últimos 50 anos de corrupção” atribuído ao regime democrático vigente é falsa propaganda.
Mas, voltando aos tempos de Salazar, desiludam-se os que ainda acreditam na pureza de costumes. O nepotismo, herdado de anteriores épocas e culturalmente entranhado, manteve-se incólume. É certo que não houve histórico, durante o Estado Novo, de mega-desfalques, como o de Sócrates, mas também é bom recordar que não era permitido o jornalismo de investigação, que se debruçasse sobre políticos ou figuras influentes do mundo dos negócios. Por outro lado, independência dos tribunais ou da investigação criminal estavam muito limitadas. Por isso, muita da corrupção ou crimes económicos ficariam por chegar ao conhecimento público ou nunca seriam investigados, ao contrário do que hoje acontece.
A falsidade e a meia-verdade sempre foram recursos usados no combate político, mas vivemos tempos em que se abusa das imposturas com descaramento inaudito. Uma mentira repetida à exaustão tem o condão de passar por verdade, é por demais sabido. É o que se passa com essa ilusão dum neossalazarismo redentor para combater a corrupção em Portugal.
Que sirva de aviso o que se passa do lado de lá do Atlântico: Trump fez bandeira da sua eleição a “drenagem do pântano”, isto é, supostamente pretendia acabar com a conjecturada corrupção instalada em Washington. Uma vez chegado ao poder estabeleceu a mais descaradamente corrupta administração na Casa Branca de que há memória em dois séculos e meio de história americana. Ora, que eu saiba, o único dirigente partidário português convidado para assistir à tomada de posse de Trump foi justamente André Ventura, que actualmente se proclama campeão anticorrupção.
Os nossos sonhos - joão carlos lopes
» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
1. Tomar e Santarém vão ver os seus politécnicos passar a escolas politécnicas universitárias. Independentemente da lógica da medida, que já se esperava para atender a interesses corporativos e políticos, esta cosmética vai suscitar naturalmente novas dinâmicas a essa duas cidades. |
A educação das massas
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. |
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades?
» 2026-08-08
» António Gomes
As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou. “Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo. |
Caderneta completa
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. |
Leituras de férias
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. |
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
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» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
Os nossos sonhos - joão carlos lopes |
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» 2026-08-08
» António Gomes
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» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
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» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
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» 2026-08-08
» Carlos Paiva
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