Zôon politikon
Opinião
» 2026-03-22
» Carlos Paiva
Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo, mas decorreu algum desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.
Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.
Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.
Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.
A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos à bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".
A desumanização e demonização dos alvos inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.
A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que o distanciamento do indivíduo ao acto violento tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não soldados. Os controladores remotos de drones são classificados como especialistas em alta tecnologia, e não soldados. Seguindo a lógica desta escala até uma sala climatizada, luxuosamente decorada, cadeiras ergonómicas em pele de búfalo, mesa de mogno com motivos embutidos em madeiras exóticas, esticar um dedo, carregar num botão e matar milhares de seres humanos no outro lado do planeta, chama-se... pequeno almoço.
O que descrevo atrás explica com mais ou menos detalhe porque tomar conhecimento pela televisão de crianças decapitadas e com as tripas de fora é menos chocante e preocupante que a eventual subida da prestação da casa. Explica. Mas não justifica.
A fase final desta culinária altamente elaborada, transferir a responsabilidade dos actos horrendos perpetrados pelos governantes para os cidadãos, porque, afinal, foram os cidadãos que os elegeram em acto democrático perfeitamente legal, fechará o círculo. E então, só então, serão exigidas justificações.
Assegurar a sobrevivência e bem estar à custa da vida de outrém, encaixa na definição de parasita. Preferem ver lobos e tubarões quando se olham ao espelho, mas a realidade devolvida pelo reflexo é de carraças e pulgas.
Segundo Aristóteles, o homem é um animal social. À organização social, chamamos política. Logo, o homem é um animal político. Por a existência humana ser indissociável da tecnologia, a mais recente proposta para a designação que nos identifica é homo techno-sapiens, substituindo o anterior homo sapiens sapiens. Sociais, políticos e tecnológicos, vazios de humanidade, pode-se remover o homo com elevado grau de segurança.
Para o leigo, a tecnologia é indistinguível da magia.
Terceira lei de Clarke (Arthur C. Clarke, 1917/2008).
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Zôon politikon
Opinião
» 2026-03-22
» Carlos Paiva
Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo, mas decorreu algum desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.
Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.
Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.
Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.
A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos à bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".
A desumanização e demonização dos alvos inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.
A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que o distanciamento do indivíduo ao acto violento tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não soldados. Os controladores remotos de drones são classificados como especialistas em alta tecnologia, e não soldados. Seguindo a lógica desta escala até uma sala climatizada, luxuosamente decorada, cadeiras ergonómicas em pele de búfalo, mesa de mogno com motivos embutidos em madeiras exóticas, esticar um dedo, carregar num botão e matar milhares de seres humanos no outro lado do planeta, chama-se... pequeno almoço.
O que descrevo atrás explica com mais ou menos detalhe porque tomar conhecimento pela televisão de crianças decapitadas e com as tripas de fora é menos chocante e preocupante que a eventual subida da prestação da casa. Explica. Mas não justifica.
A fase final desta culinária altamente elaborada, transferir a responsabilidade dos actos horrendos perpetrados pelos governantes para os cidadãos, porque, afinal, foram os cidadãos que os elegeram em acto democrático perfeitamente legal, fechará o círculo. E então, só então, serão exigidas justificações.
Assegurar a sobrevivência e bem estar à custa da vida de outrém, encaixa na definição de parasita. Preferem ver lobos e tubarões quando se olham ao espelho, mas a realidade devolvida pelo reflexo é de carraças e pulgas.
Segundo Aristóteles, o homem é um animal social. À organização social, chamamos política. Logo, o homem é um animal político. Por a existência humana ser indissociável da tecnologia, a mais recente proposta para a designação que nos identifica é homo techno-sapiens, substituindo o anterior homo sapiens sapiens. Sociais, políticos e tecnológicos, vazios de humanidade, pode-se remover o homo com elevado grau de segurança.
Para o leigo, a tecnologia é indistinguível da magia.
Terceira lei de Clarke (Arthur C. Clarke, 1917/2008).
Os nossos sonhos - joão carlos lopes
» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
1. Tomar e Santarém vão ver os seus politécnicos passar a escolas politécnicas universitárias. Independentemente da lógica da medida, que já se esperava para atender a interesses corporativos e políticos, esta cosmética vai suscitar naturalmente novas dinâmicas a essa duas cidades. |
A educação das massas
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. |
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades?
» 2026-08-08
» António Gomes
As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou. “Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo. |
Caderneta completa
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. |
Leituras de férias
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. |
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
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» 2026-08-12
» João Carlos Lopes
Os nossos sonhos - joão carlos lopes |
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» 2026-08-08
» António Gomes
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades? |
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» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A educação das massas |
|
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Leituras de férias |
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» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Caderneta completa |