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A Dyna: crónica de verão de uma pequena memória - josé mota pereira

Opinião  »  2025-08-25  »  José Mota Pereira

Era rara a segunda-feira que a Toyota Dyna da cooperativa não fosse a Lisboa. Pelo caminho, muitos já conheciam a camionete grená que transportava betoneiras ou outras máquinas de construção civil produzidas na Cooperativa.

 Esclareça-se: refiro-me à cooperativa metalúrgica criada na Barreira Alva em 1975 por iniciativa dos trabalhadores, designada inicialmente por Dopovo e mais tarde Grufer. A Toyota Dyna, protagonista desta memória, foi a primeira camionete da cooperativa, tendo cumprido a sua missão desde o final do anos 70 até aos anos 90 do século passado.

 A viagem da Dyna às segundas-feira era tão certa que ao longo do caminho, à porta das fábricas, já se sabia a hora da passagem da “camionete das betoneiras”. Era nessa altura que a saudavam e ao volante o Carlos “Pesquim” respondia com duas sonoras buzinadelas.

O Carlos “Pesquim”, motorista da Dyna, era multifacetado. Conduzia a Dyna grená em acumulação com o seu ofício original de serralheiro. Nas horas vagas ainda arranjava tempo para a prática de enfermagem pirata ao domicílio, dando injecções aos velhotes na sua aldeia, entre outras coisas aprendidas no serviço militar.
Nessas viagens, muitas vezes solitárias, o Carlos “Pesquim” tinha a companhia do auto rádio onde António Sala distribuía escudos no popular “Jogo da Mala” da Radio Renascença. Outras vezes, o Carlos “Pesquim” tinha a companhia de alguém que, precisando de se deslocar a Lisboa, aproveitava a boleia num dos assentos da cabine da Dyna. Foi nessas circunstâncias que eu, nos anos 90, fui também um desses viajantes, de algumas dessas segundas-feiras, nomeadamente nos tempos de estudante em Lisboa, para onde regressava depois dos fins de semana torrejanos.

 Nesses anos, a auto estrada era apenas um pequeno troço e a pobre Dyna andava muitas vezes em esforço com o peso que transportava. Razões suficientes (embora talvez houvesse outras) para o Carlos “Pesquim” fazer sempre uma paragem num café de beira de estrada que se encontrava saída do Carregado, um pouco antes de entrar na autoestrada. Então, a Dyna descansava, arrefecia o motor e o Carlos “Pesquim” aviava um branquinho fresco, que era uma espécie de doping matinal essencial para ganhar coragem para enfrentar o trânsito da capital. E se o trânsito à segunda-feira era duro!

Foram muitas e incontáveis segundas-feiras assim. Dessas vezes que eu viajei na Toyota Dyna grená não esqueço que o Carlos “Pesquim” fazia o favor de se desviar da sua rota, embrenhando-se com a Dyna pelo centro de Lisboa, para me deixar à porta da faculdade situada na Rua da Junqueira. Despedia-se com duas sonoras buzinadelas

 Anos depois, a cooperativa fechou portas e o Carlos “Pesquim” reformou-se. Nunca mais falei com ele, embora o tenha visto muitas vezes sentado à porta da sua casa junto à Estrada Nacional. Era aí que respondia, com um aceno, a quem passava e o saudava. Talvez aguardasse, nunca se saberá, uma última passagem da sua Toyota Dyna grená.

 

 

 

 

 

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