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Lições de História

Opinião  »  2019-01-25  »  Jorge Carreira Maia

"Um dos aspectos interessantes do primeiro volume – A Mocidade e os Princípios – é o jogo narrativo que coloca em tensão o desenvolvimento de Salazar com a situação política do país."

Comecei há pouco a ler a biografia de Salazar da autoria do embaixador Franco Nogueira, a qual data dos anos setenta do século passado. São seis volumes que cobrem a vida do homem forte do Estado Novo, desde a infância até ao fim da sua existência política. Não estamos perante o trabalho de um historiador ou de alguém que tenha sido politicamente neutro. Pelo contrário, o embaixador foi um dos homens fortes da ditadura e um auxiliar precioso do presidente do Conselho. É uma visão privilegiada a partir de dentro do regime. Um dos aspectos interessantes do primeiro volume – A Mocidade e os Princípios – é o jogo narrativo que coloca em tensão o desenvolvimento de Salazar – os aspectos da sua vida pessoal, de formação e de interesse pela res publica – com a situação política do país.

O que me interessa, neste artigo, não é a figura do ditador, nem o seu processo de formação, o qual tem aspectos que ajudam a explicar muito do que foi a sua posterior acção governativa. Importa-me a caracterização da situação política dos finais do século XIX e do início do XX feita por Franco Nogueira. As rivalidades políticas do final da monarquia constitucional foram prolongadas, com outros protagonistas, mas com o mesmo azedume, nos tempos da primeira república. Ao rotativismo político monárquico sucedeu o rotativismo político republicano. Ambos tiveram um fim doloroso. O primeiro acabou com o assassinato do Rei e do Príncipe herdeiro, a que se seguiu uma agonia até ao golpe republicano. O segundo terminou com um novo golpe e a instauração de uma ditadura, tendo passado pelo assassinato de um Presidente.

Outro traço – tão importante como o anterior e ligado a este – é o das finanças públicas. O défice crónico e o excesso de despesa na função pública deixavam, continuamente, o país à beira da bancarrota e nas mãos das potências estrangeiras. A conflitualidade exacerbada entre os partidos impedia-os de encarem o problema e de tomarem as medidas drásticas que a situação exigia. Se os rotativismos tiveram um mau fim, este foi dinamizado também pelo problema do défice público, da dívida externa e da desordem das finanças do Estado. O que a História nos ensina é que a conjugação dos dois factores – rotativismo político com conflitualidade acentuada e pandemónio nas contas do Estado – conduzem, mais cedo ou mais tarde, ao enfraquecimento da ordem democrática e à instauração da ditadura. Esta lição da nossa pré-história democrática não deveria ser esquecida, nestes tempos em que vivemos, por ninguém, a começar pelas elites políticas democráticas.

 

 

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