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Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?

Opinião  »  2026-06-20  »  António Mário Santos

"«Mas [Trincão Marques] não está livre, na Assembleia, dessas forças [de direita] se unirem e surgir uma moção de censura»"

Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. Das sindicâncias que se fizeram nunca houve informação pública transparente.

Tal situação, por cansaço populacional, veio a fazer soçobrar a maioria absoluta municipal do Partido Socialista no concelho de Torres Novas, num volte-face para a AD (PSD+CDS) e para o Chega, usufruindo este do populismo salazarista de André Ventura, que as redes sociais e os canais televisivos publicitavam diariamente.

O município ainda ficou gerido por um executivo PS, perdida a maioria absoluta, e com uma composição na oposição, três vereadores da AD e um do Chega, que superavam os seus três eleitos.

Mas era um executivo PS que se dizia diferente, presidido por um elemento do Partido que se candidatara e vencera a anterior direcção concelhia e a maioria da então existente vereação respectiva. Assentava o seu objectivo num programa de transparência e reforma municipais, que implicava, desde logo, a cedência à oposição, da feitura duma auditoria a certos aspectos da gestão anterior.

Diga-se, desde já. Conheço há muitos anos o actual presidente da Câmara, o Dr. José Manuel Trincão Marques, a sua família, o seu percurso político e profissional.

Mesmo não fazendo parte do seu partido político, tenho defendido, como cidadão de esquerda, ante a proposta do seu programa e dos objectivos essencias de transparência, combate à corrupção e ao compadrio, defesa de democracia, da liberdade de opinião, da responsabilização do funcionalismo camarário, da atenção à opinião pública, o benefício da dúvida neste primeiro ano de gestão, em que o programa aprovado saíra, na maioria, pelas regras do funcionamento autárquico em anos de transferência de poderes, do projecto da vereação anterior.

É difícil governar em minoria, ainda mais quando a oposição se revela toda do mesmo arco da direita e, a nível nacional - que influencia muito a política local - a AD se encaminhe duma forma cada vez mais evidente para alianças e compromissos com a extrema-direita, abandonando o PSD a sua origem social-democrata e a sua corresponsabilização constitucional, numa viragem que coloca em risco todas as conquistas da democracia portuguesa nos últimos 50 anos.

Localmente, o Chega, que conseguiu um vereador, perdeu-o, transformando-se aquele em independente. O actual presidente respirou de alívio, porque abrandava o perigo duma aliança entre as duas forças oposicionistas, e o executivo ser derrotado. Mas não está livre, na Assembleia, dessas forças se unirem e surgir uma moção de censura, que só não singrará, se conseguir manter do seu lado os dois partidos de esquerda, Bloco de Esquerda e PCP e o membro do grupo independente P’la Nossa Terra, de António Rodrigues.

O Dr. José Manuel Trincão Marques tem tentado, na sua gestão, demonstrar que a sua acção é conduzida para a concretização do bem comum. As mudanças na coordenação dos serviços, a tentativa de uma nova fisionomia da higiene pública, a posição ambientalista contra empresas poluidoras no concelho, a demonstração de tentar desbloquear certos cancros urbanísticos, quer na cidade quer, nas freguesias, sugerem-nos a concretização de mudanças, que só o tempo virá demonstrar se conseguidas e se supera os anticorpos pandémicos do seu próprio partido. Mas a auditoria continua por avançar, e já teve tempo suficiente de mostrar se avança, ou não, se é objectiva ou apenas formal.

Cidadão não concordante, para já, com as benesses concedidas na gestão municipal ao vereador ex-Chega, limito-me a desejar ao actual presidente que a sua actuação, neste mandato de quatro anos, possa colocar o concelho, a todos os níveis, num grau de desenvolvimento e de qualidade de vida assente no respeito pelo outro, na defesa da intervenção das populações na vida municipal, nos sectores da educação, da saúde, da habitação, da cultura, do ambiente, da informação, mas também na integração da mutação tecnológica do dia a dia planetário, numa cidade e num concelho, com a sua história, mentalidade, dinamismo popular, criatividade, mas politicamente afastada da participação activa na sua gestão e no seu futuro.

 

 

 

 

 

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