As nossas paixões
Opinião
» 2015-06-12
» Jorge Carreira Maia
"O que todos nós procuramos nas paixões não é a alienação e a evasão da realidade. É o contrário. "
No passado fim-de-semana, Vasco Pulido Valente (VPV) escrevia no Público o seguinte: «O futebol, a obsessão com a cozinha e os concertos de música popular são três maneiras de resistir à realidade doméstica e ao desespero a que ela nos reduziu. É uma evasão, uma grande evasão». O tema da grande evasão não é outro senão o da alienação marxista. A religião para Marx era uma alienação pois representava uma consciência invertida da realidade social. Hoje em dia, em que a influência da religião nos comportamentos humanos é, em Portugal, tendencialmente nula, a alienação da realidade social vem através do futebol, da obsessão com a comida gourmet e a música popular, nas palavras de VPV.
Nesta retórica, encontramos a velha crítica – de que Platão e o cristianismo foram os expoentes – das paixões humanas. As paixões sempre foram vistas como as grandes inimigas da razão. Pressupõe-se que os homens esmagados pelas suas paixões – é escravo das suas paixões, dizia-se – são incapazes de condutas racionais e sofrem, por isso, de uma espécie de deficiência contumaz para conhecer a verdade e agir segundo os preceitos da sábia razão. Veja-se como VPV mostra as paixões da bola, da comida e da música (só faltou a do sexo) como formas de resistir à realidade, isto é, de não encarar a verdade de frente.
Este tipo de moralidade cansa-me. Há nela uma duplicidade insuportável. O moralista terá por certo as suas paixões, mas está sempre disposto a apontar ao próximo o dedo inflexível, o que é uma forma de evidenciar tanto a sua presumida superioridade como de mostrar a indigência moral dos outros. Estes não passam de alienados ou de evadidos da realidade. Ora está longe de estar demonstrado que ter paixões (seja a religião, o futebol, a música, a comida, o sexo ou a filatelia) nos impeça de perceber qual é o nosso lugar na sociedade e de compreender a realidade.
Por outro lado, o que todos nós procuramos nas paixões não é a alienação e a evasão da realidade. É o contrário. Na paixão, seja ela qual for, o homem procurar viver intensamente a realidade do objecto da paixão, experimentá-la nos seus limites, destruir as fronteiras que a vida quotidiana impõe e abrir-se para algo que o transcenda e tenha, por isso mesmo, um excesso de realidade. Contrariamente ao que escreve VPV, não é para resistirem à realidade que os portugueses se entregam às paixões que ele denuncia. É para a encontrarem, para experimentarem a intensidade que qualquer um de nós atribui àquilo que é real. Deixem as nossas paixões em paz.
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As nossas paixões
Opinião
» 2015-06-12
» Jorge Carreira Maia
O que todos nós procuramos nas paixões não é a alienação e a evasão da realidade. É o contrário.
No passado fim-de-semana, Vasco Pulido Valente (VPV) escrevia no Público o seguinte: «O futebol, a obsessão com a cozinha e os concertos de música popular são três maneiras de resistir à realidade doméstica e ao desespero a que ela nos reduziu. É uma evasão, uma grande evasão». O tema da grande evasão não é outro senão o da alienação marxista. A religião para Marx era uma alienação pois representava uma consciência invertida da realidade social. Hoje em dia, em que a influência da religião nos comportamentos humanos é, em Portugal, tendencialmente nula, a alienação da realidade social vem através do futebol, da obsessão com a comida gourmet e a música popular, nas palavras de VPV.
Nesta retórica, encontramos a velha crítica – de que Platão e o cristianismo foram os expoentes – das paixões humanas. As paixões sempre foram vistas como as grandes inimigas da razão. Pressupõe-se que os homens esmagados pelas suas paixões – é escravo das suas paixões, dizia-se – são incapazes de condutas racionais e sofrem, por isso, de uma espécie de deficiência contumaz para conhecer a verdade e agir segundo os preceitos da sábia razão. Veja-se como VPV mostra as paixões da bola, da comida e da música (só faltou a do sexo) como formas de resistir à realidade, isto é, de não encarar a verdade de frente.
Este tipo de moralidade cansa-me. Há nela uma duplicidade insuportável. O moralista terá por certo as suas paixões, mas está sempre disposto a apontar ao próximo o dedo inflexível, o que é uma forma de evidenciar tanto a sua presumida superioridade como de mostrar a indigência moral dos outros. Estes não passam de alienados ou de evadidos da realidade. Ora está longe de estar demonstrado que ter paixões (seja a religião, o futebol, a música, a comida, o sexo ou a filatelia) nos impeça de perceber qual é o nosso lugar na sociedade e de compreender a realidade.
Por outro lado, o que todos nós procuramos nas paixões não é a alienação e a evasão da realidade. É o contrário. Na paixão, seja ela qual for, o homem procurar viver intensamente a realidade do objecto da paixão, experimentá-la nos seus limites, destruir as fronteiras que a vida quotidiana impõe e abrir-se para algo que o transcenda e tenha, por isso mesmo, um excesso de realidade. Contrariamente ao que escreve VPV, não é para resistirem à realidade que os portugueses se entregam às paixões que ele denuncia. É para a encontrarem, para experimentarem a intensidade que qualquer um de nós atribui àquilo que é real. Deixem as nossas paixões em paz.
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