O rio que maltratamos mata-nos a sede
Opinião
» 2026-05-18
» António Mário Santos
Em 20 de Março último publiquei, neste periódico, um artigo intitulado «Falemos de Cultura e do que o Município pode criar». Apontava, entre outros aspectos, um dos erros que, na minha opinião, menorizava a dimensão da actividade, neste sector específico do município: a sua municipalização, assente na pura opção dos seus técnicos, sem atenção ao que, na comunidade, se ia construindo.
A ausência duma comissão municipal da cultura a sério, capaz de pensamento crítico e ligação profunda com o meio, independente de interesses partidocráticos, da defesa de cargos de nomeação que se ocupam, ou dos subsídios de que se depende, conduziu, no passado, a uma desvalorização do que se considera a produção criativa local, em troca de acções estruturadas com figuras ditas de relevo, pagas muitas vezes a peso de ouro, que, após o fulgor momentâneo da sua intervenção, não deixaram sementes aptas a criar raízes e gerar frutos. Em cinco sectores municipais, a Biblioteca Gustavo Pinto Lopes, o Museu Municipal Carlos Reis, o Centro Documental Humberto Delgado, a sala de espetáculos Virgínia, a Central do Caldeirão, se concentrava, com programas autónomos, concorrenciais, por vezes conflituantes, a acção cultural do município, sem qualquer intervenção directa da comunidade, e nenhuma autoavaliação crítica posterior conhecida dos resultados atingidos.
Não sou dos que, quando o poder muda de mãos, mesmo que de forma parcial, coloque o selo da negatividade no que se diz querer mudar. Há sempre um tempo de espera, de adaptação, que assenta no que já existe, e que num mandato de quatro anos, pode começar a ser diferente, na prática, quando se aproxima o tempo do próprio programa, quase no final do primeiro ano.
O actual presidente da Câmara, Dr. José Manuel Trincão Marques, apresentou-se ao eleitorado, e venceu, sob o signo da mudança.
Herdara, do seu partido, uma difícil gestão de muita parra e pouca uva, treinada na aparência e quase ignara na produtividade, que perdera, entre os munícipes, a credibilidade, mas da qual, como presidente da Assembleia Municipal cessante, não poderia alhear-se, nem mostrar ignorância.
A sua vitória na direcção concelhia assentara na necessidade duma decisiva viragem. Mesmo com a renovação das listas eleitorais do PS, a vitória do PSD/CDS ameaçara ser credível, e o aparecimento do Chega propulsionado pela propaganda Ventura em todos os canais televisivos e redes sociais, prepararam terreno a uma viragem à direita, que um populismo com espírito de crença liberal/conservadora de cariz religioso sustentava no concelho rural e no semiurbano.
Por outro lado, à sua esquerda, a multiplicidade partidária, perdida nos seus labirintos com mais dum século de desavenças, que lhe ia retirando o encanto da solidariedade colectiva da revolução de Abril e dos seus sonhos de mudança e de progresso, com boas intenções e projectos, mas sem força para uma união consequente dos defensores da Democracia e da Constituição, pulverizada numa cada vez menor aceitação, expresso no voto, ante o ataque diário do poder multimilionário do capitalismo selvagem, do seus aliados neoliberais e do neofascismo ressuscitado.
O Dr. José Manuel Trincão Marques, ao vencer as eleições municipais, sem maioria, assumiu essa desvantagem, dizendo que com ele iria mudar, na relação com o munícipe, na acção da Câmara em relação ao concelho, na atenção dada aos problemas herdados e não resolvidos, na distribuição dos pelouros pelos vereadores eleitos do PS, na estruturação para um próximo programa, dalgumas alterações no quadro de pessoal, em acções de mudança no funcionamento dos serviços municipais.
Seis meses depois, desaparecido o obstáculo duma tentativa de derrube, pela aliança PSD/CDS com o Chega, por o vereador deste último ter abandonado o partido, mantendo-se como independente, o que, para quem saiba ler, mudou por completo o modo do jogo no actual xadrez político municipal, não se estranha que nas redes sociais, o Dr. José Manuel Trincão Marques venha assumir que o trabalho por si concretizado até o momento demonstre mudança, com respeito pelo outro, em defesa da democracia.
Pessoalmente, creio que é cedo para tal demonstração de sucesso.
Há algo que, para mim, marca, decisivamente, a qualidade dum político: a humildade e a autocrítica. Acima de tudo, vigiar-se na euforia, quando se começa a desembrulhar a meada dum concelho, com anos de muito pouco respeito pelos seus concidadãos. O caminho não é nada fácil, caro presidente!
No caso da cultura, tema que me trouxe a esta reflexão, o novelo, por muito boa vontade de mudança, ainda mal iniciou o desenrolar o fio de Ariadne que conduzirá Teseu ao Minotauro.
A verba orçamentada, ainda por cima, não permite senão meros paliativos em algo que necessita de sério tratamento cirúrgico.
Eu identifico-a a um rio, no seu próprio tempo, e no dos que o utilizam. Dois tempos diferentes, que se interligam, num mútuo respeito. E, desculpe-se-me a citação da cientista escritora Vanessa Taylor, no suplemento, de domingo último, do Público: «os rios nunca são neutros, são canais de poder, quanto de água…; o que fazemos com os nossos rios, diz-nos quem tem o poder e o que valorizamos».
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O rio que maltratamos mata-nos a sede
Opinião
» 2026-05-18
» António Mário Santos
Em 20 de Março último publiquei, neste periódico, um artigo intitulado «Falemos de Cultura e do que o Município pode criar». Apontava, entre outros aspectos, um dos erros que, na minha opinião, menorizava a dimensão da actividade, neste sector específico do município: a sua municipalização, assente na pura opção dos seus técnicos, sem atenção ao que, na comunidade, se ia construindo.
A ausência duma comissão municipal da cultura a sério, capaz de pensamento crítico e ligação profunda com o meio, independente de interesses partidocráticos, da defesa de cargos de nomeação que se ocupam, ou dos subsídios de que se depende, conduziu, no passado, a uma desvalorização do que se considera a produção criativa local, em troca de acções estruturadas com figuras ditas de relevo, pagas muitas vezes a peso de ouro, que, após o fulgor momentâneo da sua intervenção, não deixaram sementes aptas a criar raízes e gerar frutos. Em cinco sectores municipais, a Biblioteca Gustavo Pinto Lopes, o Museu Municipal Carlos Reis, o Centro Documental Humberto Delgado, a sala de espetáculos Virgínia, a Central do Caldeirão, se concentrava, com programas autónomos, concorrenciais, por vezes conflituantes, a acção cultural do município, sem qualquer intervenção directa da comunidade, e nenhuma autoavaliação crítica posterior conhecida dos resultados atingidos.
Não sou dos que, quando o poder muda de mãos, mesmo que de forma parcial, coloque o selo da negatividade no que se diz querer mudar. Há sempre um tempo de espera, de adaptação, que assenta no que já existe, e que num mandato de quatro anos, pode começar a ser diferente, na prática, quando se aproxima o tempo do próprio programa, quase no final do primeiro ano.
O actual presidente da Câmara, Dr. José Manuel Trincão Marques, apresentou-se ao eleitorado, e venceu, sob o signo da mudança.
Herdara, do seu partido, uma difícil gestão de muita parra e pouca uva, treinada na aparência e quase ignara na produtividade, que perdera, entre os munícipes, a credibilidade, mas da qual, como presidente da Assembleia Municipal cessante, não poderia alhear-se, nem mostrar ignorância.
A sua vitória na direcção concelhia assentara na necessidade duma decisiva viragem. Mesmo com a renovação das listas eleitorais do PS, a vitória do PSD/CDS ameaçara ser credível, e o aparecimento do Chega propulsionado pela propaganda Ventura em todos os canais televisivos e redes sociais, prepararam terreno a uma viragem à direita, que um populismo com espírito de crença liberal/conservadora de cariz religioso sustentava no concelho rural e no semiurbano.
Por outro lado, à sua esquerda, a multiplicidade partidária, perdida nos seus labirintos com mais dum século de desavenças, que lhe ia retirando o encanto da solidariedade colectiva da revolução de Abril e dos seus sonhos de mudança e de progresso, com boas intenções e projectos, mas sem força para uma união consequente dos defensores da Democracia e da Constituição, pulverizada numa cada vez menor aceitação, expresso no voto, ante o ataque diário do poder multimilionário do capitalismo selvagem, do seus aliados neoliberais e do neofascismo ressuscitado.
O Dr. José Manuel Trincão Marques, ao vencer as eleições municipais, sem maioria, assumiu essa desvantagem, dizendo que com ele iria mudar, na relação com o munícipe, na acção da Câmara em relação ao concelho, na atenção dada aos problemas herdados e não resolvidos, na distribuição dos pelouros pelos vereadores eleitos do PS, na estruturação para um próximo programa, dalgumas alterações no quadro de pessoal, em acções de mudança no funcionamento dos serviços municipais.
Seis meses depois, desaparecido o obstáculo duma tentativa de derrube, pela aliança PSD/CDS com o Chega, por o vereador deste último ter abandonado o partido, mantendo-se como independente, o que, para quem saiba ler, mudou por completo o modo do jogo no actual xadrez político municipal, não se estranha que nas redes sociais, o Dr. José Manuel Trincão Marques venha assumir que o trabalho por si concretizado até o momento demonstre mudança, com respeito pelo outro, em defesa da democracia.
Pessoalmente, creio que é cedo para tal demonstração de sucesso.
Há algo que, para mim, marca, decisivamente, a qualidade dum político: a humildade e a autocrítica. Acima de tudo, vigiar-se na euforia, quando se começa a desembrulhar a meada dum concelho, com anos de muito pouco respeito pelos seus concidadãos. O caminho não é nada fácil, caro presidente!
No caso da cultura, tema que me trouxe a esta reflexão, o novelo, por muito boa vontade de mudança, ainda mal iniciou o desenrolar o fio de Ariadne que conduzirá Teseu ao Minotauro.
A verba orçamentada, ainda por cima, não permite senão meros paliativos em algo que necessita de sério tratamento cirúrgico.
Eu identifico-a a um rio, no seu próprio tempo, e no dos que o utilizam. Dois tempos diferentes, que se interligam, num mútuo respeito. E, desculpe-se-me a citação da cientista escritora Vanessa Taylor, no suplemento, de domingo último, do Público: «os rios nunca são neutros, são canais de poder, quanto de água…; o que fazemos com os nossos rios, diz-nos quem tem o poder e o que valorizamos».
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
CH4
» 2026-06-20
» Carlos Paiva
Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. |
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia
» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. |
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
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» 2026-06-23
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes |
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» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia |
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» 2026-06-20
» Carlos Paiva
CH4 |
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» 2026-06-20
» António Mário Santos
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança? |
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» 2026-06-20
» António Gomes
Julgam-se donos disto tudo |