Da importância da redenção
Opinião
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. Há dias, sem que descortinasse a razão, perguntei-me quais seriam os três filmes de que mais gosto. Não me questionei sobre os três melhores filmes que vi, que é uma questão diferente. Uma resposta inequívoca surgiu-me de imediato. Em primeiro lugar, Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman. Depois, Táxi Cor de Malva (1977), de Yves Boisset. Por fim, A Festa de Babette (1987), de Gabriel Axel. Todos eles, embora cada um a seu modo, são filmes contemplativos, operam como se o tempo se dilatasse para que o espectador possa ver, sem ser perturbado, os rostos humanos e a própria natureza. Não são filmes de acção, mas de revelação.
Contudo, a viagem tem um papel central nos três. O velho e solitário Dr. Isak Borg, personagem central de Morangos Silvestres, faz uma longa viagem de carro para receber um doutoramento Honoris Causa. Nela, confronta-se com o seu passado e aquilo que fez da sua vida. Philippe Marchal, um escritor de sucesso, em Táxi Cor de Malva, tendo abandonado França, confronta-se na Irlanda rural com a dor da perda de um filho e o desabar do casamento. No filme de Gabriel Axel, também Babette se instala numa pequena e remota aldeia rural, agora da Jutlândia (Dinamarca), depois de ter fugido da Comuna de Paris (1871). Em todos estes filmes, a viagem, mais do que física, é de natureza interior. Os protagonistas viajam dentro das suas memórias, confrontando-se consigo, com a dor da existência e com o destino.
Ora, este viajar interior é uma condição para curar o que a vida e o mundo fizeram adoecer, para abrir caminho à redenção. E talvez seja por isso – pela possibilidade da redenção – que sempre gostei destes filmes. O cristianismo teve uma intuição genial, ao fazer da redenção de cada um o elemento central da religião. Ora, mesmo em tempos de retracção religiosa no mundo ocidental, a ideia de redimir a sua existência nunca foi abandonada. Saltou do culto e espalhou-se pelos diversos campos da acção humana, em especial da arte. Ao secularizar-se, a redenção religiosa tornou-se prosaica, mas não menos fundamental: significa agora encontrar um sentido para a vida, que permita dizer que valeu a pena ser vivida, mesmo quando a cidade arde e os invasores estão dentro dela, e sejamos aqueles xadrezistas que no só jogo encontram o sentido da sua vida.
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Da importância da redenção
Opinião
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. Há dias, sem que descortinasse a razão, perguntei-me quais seriam os três filmes de que mais gosto. Não me questionei sobre os três melhores filmes que vi, que é uma questão diferente. Uma resposta inequívoca surgiu-me de imediato. Em primeiro lugar, Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman. Depois, Táxi Cor de Malva (1977), de Yves Boisset. Por fim, A Festa de Babette (1987), de Gabriel Axel. Todos eles, embora cada um a seu modo, são filmes contemplativos, operam como se o tempo se dilatasse para que o espectador possa ver, sem ser perturbado, os rostos humanos e a própria natureza. Não são filmes de acção, mas de revelação.
Contudo, a viagem tem um papel central nos três. O velho e solitário Dr. Isak Borg, personagem central de Morangos Silvestres, faz uma longa viagem de carro para receber um doutoramento Honoris Causa. Nela, confronta-se com o seu passado e aquilo que fez da sua vida. Philippe Marchal, um escritor de sucesso, em Táxi Cor de Malva, tendo abandonado França, confronta-se na Irlanda rural com a dor da perda de um filho e o desabar do casamento. No filme de Gabriel Axel, também Babette se instala numa pequena e remota aldeia rural, agora da Jutlândia (Dinamarca), depois de ter fugido da Comuna de Paris (1871). Em todos estes filmes, a viagem, mais do que física, é de natureza interior. Os protagonistas viajam dentro das suas memórias, confrontando-se consigo, com a dor da existência e com o destino.
Ora, este viajar interior é uma condição para curar o que a vida e o mundo fizeram adoecer, para abrir caminho à redenção. E talvez seja por isso – pela possibilidade da redenção – que sempre gostei destes filmes. O cristianismo teve uma intuição genial, ao fazer da redenção de cada um o elemento central da religião. Ora, mesmo em tempos de retracção religiosa no mundo ocidental, a ideia de redimir a sua existência nunca foi abandonada. Saltou do culto e espalhou-se pelos diversos campos da acção humana, em especial da arte. Ao secularizar-se, a redenção religiosa tornou-se prosaica, mas não menos fundamental: significa agora encontrar um sentido para a vida, que permita dizer que valeu a pena ser vivida, mesmo quando a cidade arde e os invasores estão dentro dela, e sejamos aqueles xadrezistas que no só jogo encontram o sentido da sua vida.
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
CH4
» 2026-06-20
» Carlos Paiva
Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. |
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia
» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. |
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
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» 2026-06-23
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes |
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» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia |
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» 2026-06-20
» Carlos Paiva
CH4 |
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» 2026-06-20
» António Mário Santos
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança? |
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» 2026-06-20
» António Gomes
Julgam-se donos disto tudo |