Laura
Opinião
» 2016-03-17
» Ricardo Jorge Rodrigues
"CRÓNICAS DE ÁFRICA"
Na minha última crónica frisei duas vezes que a noção de crise é algo muito relativo. Começo este texto por acentuar essa ideia. Vou contar-vos (mais) uma história daquelas que diferenciam Moçambique e Portugal. Mas esta mexeu demasiado comigo e por isso ocupará todas as linhas desta crónica.
Ter uma empregada doméstica em Moçambique é barato. Nem sequer é “relativamente barato”. É tão barato que sinto embaraço e vergonha alheia por só ter de pagar aquele valor, embora a Laura certamente receba um bónus generoso. Digamos que com o que se paga a uma empregada doméstica aqui, beber um café é algo como para nós é abrir uma garrafa de Champagne caro: acontece uma vez por ano, quando os dias são favoráveis.
Conheci a Laura apenas uma semana após ela começar a trabalhar porque me mudei mais tarde que os meus colegas com quem partilho casa. Sabia pouco da sua história. E é aqui que a noção de crise, ou de dificuldades, ganha contornos embaraçosos para mim.
Saí do trabalho e fui almoçar a casa, visto que apenas escassos metros separam um edifício do outro. Com o calor abrasador que se sentia, cheguei a casa com uma cara de cansaço tão evidente que a Laura me perguntou: “Está cansado, patrão?”. Eu disse que sim, que tinha muito calor.
Tomei um duche e sentei-me à mesa. Sou de conversa fácil e em breves segundos fiz com que a Laura me contasse a sua história. Não sei se me arrependi, julgo que não. Mas fiquei com um certo embaraço por, minutos antes, ter mostrado cansaço por estar com calor e ter feito três minutos a pé.
A Laura tem 24 anos. “Perdi a minha mãe em 2006”, conta timidamente. Aliás, toda a postura da Laura é nesse registo de timidez, como se temesse que o patrão branco lhe tirasse o emprego a cada segundo. Não, Laura: comigo não tens de ter esse medo. E então fui-lhe perguntando como era o seu dia-a-dia. A Laura acorda todos os dias às 3.15h da madrugada para apanhar um transporte desde onde mora – a cerca de duas horas de Maputo – até nossa casa. Chega às 6.15h e fica 45 minutos à espera para bater à porta e entrar em funções às 7h. Trabalha em nossa casa até às 15h e depois vai para as aulas até às 22h. De noite, o caminho de regresso até casa, para lá da Matola, é algo mais rápido. Chega às 23h para acordar novamente às 3.15h.
“Então e quando vês a tua filha?”, pergunto eu enquanto engulo em seco o relato que acabei de ouvir. “Quando chego à noite vou ao quarto e espreito para ver ela dormir”. Apetece-me terminar a crónica assim, deixando o leitor neste silêncio frio e que provoca em cada um de nós uma certa vergonha alheia perante os nossos problemas.
Mas preciso de ir mais longe. De imediato disse à Laura que no dia seguinte poderia começar a entrar às 8h. “Mas assim posso chegar 30 minutos atrasada patrão”, justificando isso com o trânsito e os transportes. Mas assim ela vai dormir mais duas horas todos os dias. Que luxo, já viram? Então não há problema: a Laura entra às 8h e passa a sair à 16h, mesmo que chegue atrasada. O rosto estático deu lugar a um sorriso genuíno e alegre: “O corpo também precisa de descansar, patrão”, deixa escapar em tom de felicidade.
A Laura faz tudo isto por um salário que me embaraça. “Não desistas de estudar, um dia podes ter a recompensa”, tento-a motivar. Expliquei-lhe que mesmo para nós, que junto dela somos figuras abastadas, passámos dificuldades. “Eu próprio estive alguns anos sem estudar antes de entrar na faculdade”, e ela olha para mim como quem precisa de ver a verdade nos meus olhos para acreditar. Mas os meus olhos não transportavam nada mais do que vergonha. “Eu não vou desistir, patrão. Eu sei o que quero para a minha vida e tudo o que faço é com amor e carinho”, desabafa.
O mais chocante acaba por chegar no dia seguinte quando, entre amigos, digo que para a Laura poder dormir mais duas horas por noite e não ter que acordar antes do sol nascer, eu permiti que ela viesse mais tarde. Uma dessas pessoas fica espantada: “Mas tu não podes ter pena dela, ela aceitou as condições e tu pagas-lhe para ela fazer o trabalho, se tens pena dela ainda te vais arrepender”. Não é pena que sinto da Laura, mas tento oferecer-lhe o melhor dentro do possível considerando apenas que um ser humano não precisa de pena para poder ser recompensado: precisa de sentir consideração e estima.
Mas para esta pessoa, “eles estão habituados a isso”, como se passar sacríficos fosse uma condição natural, como se “eles” fossem menos que nós, ignorando que quem aceita estes trabalhos, fá-lo no desespero de ganhar dinheiro para sobreviver, não por achar que as condições de trabalho são ideais. Mas este, infelizmente, é o retrato de uma geração que acha que tudo se pode comprar com dinheiro: se lhe pago, ela não é nada mais além da condição de empregada. Tento explicar-lhe que uma empregada não é uma criada. Que ela tem um nome e um rosto. Uma história.
Como um dia li: “Servir é a arte suprema. Deus é o primeiro servidor”. E eu nem preciso de acreditar em Deus para acreditar num mundo melhor. Não mudo o mundo sozinho – nem sequer o apartamento onde vivo – mas fiquei muito melhor comigo mesmo por ter feito do mundo da Laura um pouco mais feliz.
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Laura
Opinião
» 2016-03-17
» Ricardo Jorge Rodrigues
CRÓNICAS DE ÁFRICA
Na minha última crónica frisei duas vezes que a noção de crise é algo muito relativo. Começo este texto por acentuar essa ideia. Vou contar-vos (mais) uma história daquelas que diferenciam Moçambique e Portugal. Mas esta mexeu demasiado comigo e por isso ocupará todas as linhas desta crónica.
Ter uma empregada doméstica em Moçambique é barato. Nem sequer é “relativamente barato”. É tão barato que sinto embaraço e vergonha alheia por só ter de pagar aquele valor, embora a Laura certamente receba um bónus generoso. Digamos que com o que se paga a uma empregada doméstica aqui, beber um café é algo como para nós é abrir uma garrafa de Champagne caro: acontece uma vez por ano, quando os dias são favoráveis.
Conheci a Laura apenas uma semana após ela começar a trabalhar porque me mudei mais tarde que os meus colegas com quem partilho casa. Sabia pouco da sua história. E é aqui que a noção de crise, ou de dificuldades, ganha contornos embaraçosos para mim.
Saí do trabalho e fui almoçar a casa, visto que apenas escassos metros separam um edifício do outro. Com o calor abrasador que se sentia, cheguei a casa com uma cara de cansaço tão evidente que a Laura me perguntou: “Está cansado, patrão?”. Eu disse que sim, que tinha muito calor.
Tomei um duche e sentei-me à mesa. Sou de conversa fácil e em breves segundos fiz com que a Laura me contasse a sua história. Não sei se me arrependi, julgo que não. Mas fiquei com um certo embaraço por, minutos antes, ter mostrado cansaço por estar com calor e ter feito três minutos a pé.
A Laura tem 24 anos. “Perdi a minha mãe em 2006”, conta timidamente. Aliás, toda a postura da Laura é nesse registo de timidez, como se temesse que o patrão branco lhe tirasse o emprego a cada segundo. Não, Laura: comigo não tens de ter esse medo. E então fui-lhe perguntando como era o seu dia-a-dia. A Laura acorda todos os dias às 3.15h da madrugada para apanhar um transporte desde onde mora – a cerca de duas horas de Maputo – até nossa casa. Chega às 6.15h e fica 45 minutos à espera para bater à porta e entrar em funções às 7h. Trabalha em nossa casa até às 15h e depois vai para as aulas até às 22h. De noite, o caminho de regresso até casa, para lá da Matola, é algo mais rápido. Chega às 23h para acordar novamente às 3.15h.
“Então e quando vês a tua filha?”, pergunto eu enquanto engulo em seco o relato que acabei de ouvir. “Quando chego à noite vou ao quarto e espreito para ver ela dormir”. Apetece-me terminar a crónica assim, deixando o leitor neste silêncio frio e que provoca em cada um de nós uma certa vergonha alheia perante os nossos problemas.
Mas preciso de ir mais longe. De imediato disse à Laura que no dia seguinte poderia começar a entrar às 8h. “Mas assim posso chegar 30 minutos atrasada patrão”, justificando isso com o trânsito e os transportes. Mas assim ela vai dormir mais duas horas todos os dias. Que luxo, já viram? Então não há problema: a Laura entra às 8h e passa a sair à 16h, mesmo que chegue atrasada. O rosto estático deu lugar a um sorriso genuíno e alegre: “O corpo também precisa de descansar, patrão”, deixa escapar em tom de felicidade.
A Laura faz tudo isto por um salário que me embaraça. “Não desistas de estudar, um dia podes ter a recompensa”, tento-a motivar. Expliquei-lhe que mesmo para nós, que junto dela somos figuras abastadas, passámos dificuldades. “Eu próprio estive alguns anos sem estudar antes de entrar na faculdade”, e ela olha para mim como quem precisa de ver a verdade nos meus olhos para acreditar. Mas os meus olhos não transportavam nada mais do que vergonha. “Eu não vou desistir, patrão. Eu sei o que quero para a minha vida e tudo o que faço é com amor e carinho”, desabafa.
O mais chocante acaba por chegar no dia seguinte quando, entre amigos, digo que para a Laura poder dormir mais duas horas por noite e não ter que acordar antes do sol nascer, eu permiti que ela viesse mais tarde. Uma dessas pessoas fica espantada: “Mas tu não podes ter pena dela, ela aceitou as condições e tu pagas-lhe para ela fazer o trabalho, se tens pena dela ainda te vais arrepender”. Não é pena que sinto da Laura, mas tento oferecer-lhe o melhor dentro do possível considerando apenas que um ser humano não precisa de pena para poder ser recompensado: precisa de sentir consideração e estima.
Mas para esta pessoa, “eles estão habituados a isso”, como se passar sacríficos fosse uma condição natural, como se “eles” fossem menos que nós, ignorando que quem aceita estes trabalhos, fá-lo no desespero de ganhar dinheiro para sobreviver, não por achar que as condições de trabalho são ideais. Mas este, infelizmente, é o retrato de uma geração que acha que tudo se pode comprar com dinheiro: se lhe pago, ela não é nada mais além da condição de empregada. Tento explicar-lhe que uma empregada não é uma criada. Que ela tem um nome e um rosto. Uma história.
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