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Os males do presente

Opinião  »  2026-05-04  »  Jorge Carreira Maia

Por que razão vivemos num momento de grande turbulência mundial? Haverá muita gente com respostas, umas mais sensatas do que outras. Aventuras geopolíticas das grandes potências imperiais e os habituais interesses económicos são razões que surgem para dar um sentido ao que estamos a viver. Essas respostas não são erradas. Contudo, são limitadas e tomam por causa aquilo que é uma consequência. A grande questão situa-se num outro lugar: o desenvolvimento técnico-científico exponencial não foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma capacidade humana para gerir as poderosas forças que ciência e tecnologia puseram ao dispor da humanidade. Dito de outra maneira, a nossa espécie não está capacitada para lidar, de modo razoável, com os poderes que a sua inteligência libertou.

Não estamos preparados do ponto de vista moral. Em 1979, o filósofo alemão Hans Jonas propõe um novo imperativo moral que se sintetiza na frase seguinte: agir de modo que as condições de uma vida genuinamente humana na Terra se mantenham. Enquanto o imperativo categórico de Kant nos manda agir respeitando a humanidade no outro e em nós próprios, o de Jonas prolonga-o para as gerações futuras. O que assistimos nas últimas décadas, porém, mostra-nos que não apenas a espécie, embrenhada numa paranóia consumista, não tem qualquer interesse pelo futuro da vida humana na Terra, como o próprio respeito pelo outro e por si mesmo se encontra numa fase de vertiginosa degradação. No lugar de um desenvolvimento moral e espiritual necessário para lidar com a técnica, a espécie recuou nos seus padrões morais e está hoje à mercê dos efeitos não controlados da tecnologia.

Não estamos preparados do ponto de vista político. As instituições políticas tinham uma função de complemento da vida moral. Se as regras morais falhavam, entrava em jogo a lei e a punição. Ora, nada disto se passa nos dias de hoje, quando se trata da tecnologia. Basta ver o caso das redes sociais. Os interesses desenvolvidos em torno dos produtos tecnológicos, além de colonizarem as consciências dos indivíduos, capturaram as instituições políticas. Estas ou são impotentes para lidarem com a pressão ou tornaram-se agentes de degradação do mundo e da vida, seja nas alterações do clima, seja na corrupção das regras morais, seja na alienação dos indivíduos orientada por algoritmos. Günther Anders dizia, em 1956, que somos analfabetos emocionais: sabemos construir a bomba atómica, mas não conseguimos sentir o que significa um milhão de mortos. A partir de 1956, esse analfabetismo apenas se aprofundou. É aqui que está a origem dos males presentes.

 

 

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