O silêncio em Auschwitz
Opinião
» 2016-08-04
» Jorge Carreira Maia
"O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens fazem a outros homens..."
Nesta última crónica antes de férias, podia falar das sanções europeias a Portugal, que não houve, do terrorismo que continua a haver ou, como entrámos silly season, de um tema estival que estivesse à mão. Escolho, todavia, falar do silêncio. Do silêncio do Papa Francisco na sua visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. O que significa o silêncio de um Papa no reino do terror nazi? Para muitos de nós, impregnados pela cultura moderna que hipervaloriza a acção em detrimento da contemplação, o gesto do Papa não é muito diferente dos minutos de silêncio que se guardam antes dos jogos, quando alguém importante do mundo do futebol morre. Um gesto simbólico, onde o símbolo, destituído do seu sentido profundo, é apenas entendido como mera homenagem dos vivos a quem morreu.
O silêncio do Papa em Auschwitz, porém, não é comemorativo nem rememorativo. Não é sequer uma homenagem. O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens – crentes, agnósticos e ateus – fazem a outros homens – também eles crentes, agnósticos e ateus. Na algazarra em que se transformou o mundo, na balbúrdia que a acção desenfreada lança sobre a Terra, é necessário que se faça silêncio para que o horror possa ser visto na sua própria natureza, para que os gritos dos que sofrem às mãos de outros homens possam ser escutados. As palavras e a as acções são sempre um analgésico que nos permite não ter de enfrentar o horrível que habita nos horrores que cometemos.
Auschwitz-Birkenau não é apenas o símbolo do terror nazi. É o símbolo de todo e qualquer terror, individual ou colectivo. É uma manifestação, e que manifestação, desse mysterium iniquitatis que assola a espécie humana, encontrando sempre novas razões para espalhar a dor sobre os homens. Na verdade, a única possibilidade perante aquilo que ali se passou – perante aquilo que se passa no mundo – é o silêncio. O silêncio de um velho Papa naquele lugar não é um gesto político, nem um condenação judicial, nem um acto ritual. É apenas a criação de um espaço de escuta. Escuta de quem? Escuta de todos aqueles que, antes de expirar e com voz forte, poderiam dizer: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni, que significa “Meu Deus, Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mateus 27:46).
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O silêncio em Auschwitz
Opinião
» 2016-08-04
» Jorge Carreira Maia
O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens fazem a outros homens...
Nesta última crónica antes de férias, podia falar das sanções europeias a Portugal, que não houve, do terrorismo que continua a haver ou, como entrámos silly season, de um tema estival que estivesse à mão. Escolho, todavia, falar do silêncio. Do silêncio do Papa Francisco na sua visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. O que significa o silêncio de um Papa no reino do terror nazi? Para muitos de nós, impregnados pela cultura moderna que hipervaloriza a acção em detrimento da contemplação, o gesto do Papa não é muito diferente dos minutos de silêncio que se guardam antes dos jogos, quando alguém importante do mundo do futebol morre. Um gesto simbólico, onde o símbolo, destituído do seu sentido profundo, é apenas entendido como mera homenagem dos vivos a quem morreu.
O silêncio do Papa em Auschwitz, porém, não é comemorativo nem rememorativo. Não é sequer uma homenagem. O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens – crentes, agnósticos e ateus – fazem a outros homens – também eles crentes, agnósticos e ateus. Na algazarra em que se transformou o mundo, na balbúrdia que a acção desenfreada lança sobre a Terra, é necessário que se faça silêncio para que o horror possa ser visto na sua própria natureza, para que os gritos dos que sofrem às mãos de outros homens possam ser escutados. As palavras e a as acções são sempre um analgésico que nos permite não ter de enfrentar o horrível que habita nos horrores que cometemos.
Auschwitz-Birkenau não é apenas o símbolo do terror nazi. É o símbolo de todo e qualquer terror, individual ou colectivo. É uma manifestação, e que manifestação, desse mysterium iniquitatis que assola a espécie humana, encontrando sempre novas razões para espalhar a dor sobre os homens. Na verdade, a única possibilidade perante aquilo que ali se passou – perante aquilo que se passa no mundo – é o silêncio. O silêncio de um velho Papa naquele lugar não é um gesto político, nem um condenação judicial, nem um acto ritual. É apenas a criação de um espaço de escuta. Escuta de quem? Escuta de todos aqueles que, antes de expirar e com voz forte, poderiam dizer: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni, que significa “Meu Deus, Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mateus 27:46).
Joaquim Paço d`Arcos
» 2018-11-09
» Jorge Carreira Maia
Foi só agora que cheguei à leitura de Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979). Não fazia parte daquele grupo de escritores tidos por referência, apesar de ter sido bastante lido nos anos 40 e 50 do século passado. |
Orçamento municipal 2019
» 2018-11-09
» António Gomes
O OM é o documento orientador mais importante da gestão municipal. É um documento técnico que deve ter plasmadas as contas do município, mas é sobretudo um documento político que espelha as prioridades e as opções de quem aqui governa. |
Coesão
» 2018-10-27
» João Carlos Lopes
A criação da província do Ribatejo, em 1936, surgiu na sequência de movimentações das “forças vivas” de toda uma vasta região que, grosso modo, vai de Vila Franca a Abrantes, e cujo potencial económico (a agricultura, sobretudo, mas já os grandes polos industriais emergentes), enunciava razões de sobra para um “destaque” face à imensa e diversa Estremadura. |
O campo das piscinas
» 2018-10-27
» António Gomes
Entendamo-nos: o acesso à fruição de piscinas por puro recreio, manutenção física ou prática desportiva deveria ser de acesso fácil. Infelizmente, em Torres Novas, a generalidade da população, na época do calor, no verão, não tem onde refrescar-se, não temos piscinas de verão e as que já tivemos são recordadas com muita saudade. |
Compreender e prevenir as doenças cardiovasculares
» 2018-10-27
» Juvenal Silva
Na categoria de doenças cardíacas e cardiovasculares, estão englobadas vários tipos de doenças, entre as quais destaco: aterosclerose, angina de peito e ataque cardíaco. |
O desejo da barbárie
» 2018-10-24
» Jorge Carreira Maia
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Casimiro Pereira… dedicação e simplicidade
» 2018-10-12
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Como prevenir e tratar infeções urinárias
» 2018-10-12
» Juvenal Silva
Como prevenir e tratar infeções urinárias As infeções urinárias são muito incómodas e mais recorrentes nas mulheres, que as obrigam a consultas médicas algumas vezes ao ano. Normalmente, o tratamento consiste na toma de antibióticos, que matam a infeção presente, mas deixam a bexiga vulnerável a uma próxima invasão bacteriana. |
Venha daí um refrigerante fresquinho!
» 2018-10-12
» Miguel Sentieiro
Sumol é um dos actuais alvos da implacável máquina fiscal. Essa refrescante bebida de laranja, com bolhinhas, que nos alivia o calor no pingo do verão, afinal é um vilão cheio de sacarose para nos envenenar. |
Passa
» 2018-10-12
» Inês Vidal
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» 2018-11-09
» Jorge Carreira Maia
Joaquim Paço d`Arcos |
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» 2018-11-09
» António Gomes
Orçamento municipal 2019 |