Ter lido quatro ou cinco vezes a Carta sobre a Tolerância de John Locke deve ter-me dado a volta à cabeça. Eu sou a favor de uma total liberdade religiosa e, por isso, completamente contra a proibição do uso do véu por parte das mulheres, sejam raparigas nas escolas, sejam funcionárias públicas nos seus locais de trabalho.
Acontece que já por duas ou três vezes em que defendi isso, vieram com o seguinte argument é justo que nos nossos países as mulheres sejam proibidas de usar o véu pois nos países deles as mulheres ocidentais são obrigadas a usá-lo. Ou seja, se eles obrigam a usar, nós devemos obrigá-las a não usar. E se estão mal, mudem-se. Olho por olho, dente por dente.
Ora, este argumento é bastante disparatado.
Para nós, andar ou não de véu é completamente indiferente. Cada pessoa é livre de usar o que bem entender. Porém, nos países islâmicos, não é assim. Imaginemos uma mulher africana que vive numa aldeia tribal de Angola na qual algumas mulheres andam com o peito descoberto e outras não. Se essa mulher vier para Portugal irá ser obrigada a tapar o peito pois, de acordo com a nossa cultura, com excepção do topless na praia, não é socialmente aceitável uma mulher andar assim na rua. Imaginemos, entretanto, que uma mulher portuguesa, por exemplo, uma médica, irá passar uns meses na aldeia tribal angolana. E que lhe dirã ”Desculpe, mas vai ser obrigada a andar com o peito descoberto, pois as nossas mulheres quando vão para Portugal são obrigadas a cobri-lo”. Ora, o que irá sentir a médica portuguesa? O que irá ela sentir, sabendo, entretanto, que naquela aldeia há mulheres que andam assim e outras não? Depende do gosto, da vontade, da disposição, da personalidade de cada uma. Para além da humilhação e vergonha por mostrar publicamente uma parte do corpo que, pela sua educação e cultura, foi habituada a cobrir, irá sentir que está a ser estupidamente discriminada e alvo de uma irracional retaliação.
Também por esta ordem de ideias, muitas viúvas portuguesas que ainda cobrem a cabeça e vestem de preto, deviam ser proibidas de andar assim. O facto de as viúvas, ao contrário dos viúvos, cobrirem a cabeça, não é um sinal de inferiorização da mulher? Como se irá sentir uma rapariga muçulmana proibida de entrar com um véu numa universidade, vendo, depois, na rua, viúvas vestidas de preto e com lenços na cabeça?
Uma das grandes riquezas das nossas sociedades liberais é precisamente a diversidade tornada possível pela liberdade individual. Eles, os muçulmanos, não são assim? Pior para eles. Agora, não faz sentido proibir-lhes o que para nós constitui um direito básic a liberdade individual. Que inclui, naturalmente, a liberdade de usar véu.
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