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Do contra
por Hélder Dias
A las cinco da la tarde
por José Ricardo Costa
A VER O MUNDO
O nosso atraso
por Jorge Carreira Maia
DA OUTRA MARGEM
O peso do chumbo
por Santana-Maia Leonardo
O FIGO E A AZEITONA
Também em defesa do touro bravo
por Jorge Salgado Simões
FUTEBOLÊS
Com o pé direito!
por Carlos Henriques
Do contra

Topo
No
ano passado decidi levar os garotos a uma tourada. Eles nunca tinham ido e
eu, verdade seja dita, também há mais de 20 anos que não sabia o que era
estar sentado perante a atávica e circular arena de terra batida.
Quando eu era miúdo queria ser toureiro.
Passei horas da minha vida a lidar touros imaginários e olhava para o José
Júlio ou para o El Cordobés, como muitos garotos olham hoje para o Cristiano
Ronaldo. Depois, cresci e as circunstâncias da vida levaram-me a um quase
completo desinteresse pelo universo tauromá-quico e, sobretudo, pelo
ethos tauromáquico.
Levei os garotos à tourada porque achei que
seria uma vergonha haver dois ribatejanos que vêem a MTV sem nunca terem
visto uma tourada. Ora bem, eles gostaram muito da tourada. Eu gostei ainda
mais.
Uma das coisas mais impressionantes naquela
tourada foi o facto de estar a ver a mesma tourada de sempre. Ou seja, nada
mudou. Os mesmos gestos, os mesmos aplausos, as mesmas músicas, as mesmas
roupas, as mesmas cores e lantejoulas, as mesmas interjeições, os mesmos
rituais.
O futebol de hoje não é o mesmo de outros
tempos. Nem a música, a televisão, o cinema, a escola, o trabalho, o sexo, a
arte, a guerra. Nada é como dantes. Ou melhor, nada é como dantes, excepto a
tourada.
Finalmente percebi o que terá levado homens
como Picasso, Hemingway ou Orson Welles a vibrarem com a tourada. É como se
andássemos uma semana inteira a comer no Mcdonald´s e, depois disso,
entrássemos numa boa tasca de Braga para comer uns rojões com papas de
Sarrabulho.
O que atrai na tourada é a sua
autenticidade. A autenticidade da repetição. A mesma repetição que há nos
passos do tango, nas procissões católicas, no sabor das azeitonas com sal,
azeite e orégãos ou no canto dos rouxinóis. Nós vamos ver a tourada e já
sabemos o que vamos ver. Não há surpresa. É como o nascer do sol.
Há ali qualquer coisa que é assim porque
foi feito para ser assim e cuja essência não seria a mesma se não fosse
assim. Contrariamente ao que muitos pensam, a repetição não é um sinal de
vacuidade. Vacuidade é a tresloucada invenção de sinais que se esgotam na
torrente do tempo, gestos que não resistem à devoradora voragem de Cronos.
Na tourada, não somos filhos de Cronos. O
círculo de terra onde homem e animal se confrontam é o círculo do eterno
retorno girando sobre si próprio como se o grego Teseu se metamorfoseasse em
Manolete, Manolete em Manuel dos Santos e Manuel dos Santos em Mário Coelho.
Não entendo como num país como Portugal se
proíbe a transmissão televisiva de uma tourada antes das 22 e 30 por causa
da sua violência e desrespeito pelo animal. Eu sei que o argumento da
tradição, só por si, não é argumento nenhum. Há péssimas tradições e eu
seria o primeiro a acabar com elas.
Mas censurar a tourada num mundo onde toda
a gente come carne, carne essa que outrora foram animais e animais que, para
serem transformados em carne, viveram em linhas de montagem para a morte, é
de uma valente hipocrisia.
O touro morre, certo. Mas para chegar
àquela morte, viveu como não viveram os frangos, os perus, os patos, os
porcos e as vacas para que aqueles que censuram as touradas os possam comer
no sossego dos seus lares e dos restaurantes.
Contrariamente aos animais das linhas de
montagem da morte, aquele touro, neto do Minotauro, luta na claridade da
arena, longe das labirínticas sombras das linhas de montagem, iluminadas
pelo doente e macilento sol do Guernica de Picasso.
"Morrer às cinco da tarde", essa mítica e
única hora do poema de Garcia Lorca, sempre é morrer às cinco da tarde, seja
touro ou toureiro, naquele círculo de luz solar que brilha desde o princípio
do tempo. Bem melhor do que viver e morrer no mundo sem dias, horas e
minutos do aviário ou do matadouro.
E, nós seres humanos, vimos de lá
reconciliados com o tempo, com o fio de Ariadne na mão para seguirmos pelo
obscuro labirinto onde burocratas europeus, as modas passageiras e falsos
humanismos, nos querem pôr a viver.
Evoé! Perdão, olé!
josericardoccosta@gmail.com
Topo
Há, sobre as causas do atraso de Portugal,
um persistente equívoco. A teoria oficial centra-o no défice de formação e
de qualificação dos portugueses. Há dias, o ministro Vieira da Silva, em
debate com o bispo D. Manuel Clemente, afirmava: "O que precisamos é de
atacar o nosso défice mais profundo, que é o défice do conhecimento, da
educação e da formação."
Como consequência desta teoria, a escola
portuguesa, durante a democracia, tem sido vítima das mais tontas
intervenções, desde a trágica Reforma de Roberto Carneiro até à fúria
persecutória dos docentes por parte do actual governo, passando pela paixão
de Guterres. Toda esta gente pensa que a escola é o lugar onde a sociedade
portuguesa se há-de redimir.
O problema é que, por mais que se mexa na
escola, o nosso atraso persiste sem alteração. O que se continua a ignorar é
a cultura e a atitude que os portugueses exibem na vida comunitária, é ela
que está na base do mau desempenho social, económico, político e também
escolar. Que atitude é essa?
O Presidente da República, no discurso do
10 de Junho, tocou no problema ao dizer: "Temos de começar por ser
exigentes e rigorosos connosco". O problema de Portugal não é a falta de
conhecimento e de educação escolar; é, antes, a falta de rigor e de
exigência que os portugueses colocam naquilo que fazem, incluindo na escola.
Um país que tem por lema a expressão «desenrasquei-me» pode ser muito
«desenrascado», mas nunca passará de um país medíocre. Onde deveria haver
trabalho sério, profundo e continuado, há um mero «desenrascanço». Portugal
é assim o lugar onde até as coisas que aparentam ser bem feitas estão cheias
de buracos, truques e armadilhas escondidos, que se manifestarão na primeira
oportunidade.
O problema não é a falta de escolarização,
mas a forma como lidamos com a vida. Se não queremos nem gostamos de estudar
é porque estamos convencidíssimos, devido à experiência social, que o
conhecimento serve para pouco e o que interessa mesmo é que o pessoal se
«desenrasque», seja lá como for. Mas onde assenta esta cultura lusíada do
«desenrasca»?
Esta cultura funda-se numa experiência de
sobrevivência. No fundo, as elites nacionais, sociais, económicas e
políticas, no seu «desenrascanço» atávico, nunca permitiram à maioria dos
portugueses outra coisa para além da mera sobrevivência. Sobreviver não é
viver de forma digna, sobreviver é «desenrascar-se» para não morrer à
míngua. É isto que os portugueses fazem na escola, nas empresas, nas
relações económicas, na política; até na religião, através da promessa, se
tenta iludir a divindade. Em todo o lado enganam a realidade para fugir à
miséria que os ameaça. O nosso principal problema é a falta de rigor e de
exigência connosco fundada no círculo vicioso entre miséria e
«desenrascanço». O resto é conversa de políticos que vivem, também eles, da
miséria do «desenrascanço».
Topo
Parece que a ministra da Educação começou
agora a perceber que as reprovações são o principal cancro do nosso sistema
de ensino. Mais vale tarde do que nunca. Fraústo da Silva já tinha percebido
isso há mais de vinte anos e os finlandeses há mais de quarenta. É uma
daquelas evidências que só mesmo os cegos intelectuais não conseguem ver.
Sendo certo que, a fazer fé no que para aí se ouve e escreve, só talvez
daqui a trinta anos a maioria dos professores e comentadores vai perceber
isso. Por alguma coisa, somos um dos países mais atrasados da Europa.
Antigamente, recorde-se, ninguém era
obrigado a andar na escola mas todos sabiam que quem conseguisse obter
qualquer qualificação académica, por pequena que fosse (2º ano, 5º ou 7º ano
dos liceus), conseguiria facilmente um bom emprego. Por isso, a escola
organizava-se para exigir competências e conhecimentos a quem queria obter
aqueles diplomas, segundo o princípio «quem sabe passa, quem não sabe
chumba». E das duas uma: ou a pessoa tinha capacidade para atingir os
objectivos propostos ou não tinha e não lhe restava outra alternativa senão
abandonar a escola e ir trabalhar.
Hoje, com a escolaridade obrigatória, os
alunos, tenham ou não tenham capacidade, não podem abandonar a escola. A
escola tanto é para quem quer ser doutor como para quem quer ser pastor. E
não me parece que um pastor necessite de saber tanto de Biologia como um
médico. Agora o que é absolutamente imoral, criminoso e ilógico é o Estado
obrigar um aluno a andar nove anos na escola, impondo-lhe, todos os anos, um
programa e objectivos que sabe que ele não consegue e não tem capacidade
para atingir.
E qual é a consequência desta estupidez
defendida por professores e comentadores? Antigamente, o problema ficava
resolvido com o abandono escolar. Mas hoje, os alunos com menor capacidade,
porque estão proibidos de abandonar a escola, vão reprovando todos os anos e
acumulando-se nas turmas, alterando completamente o seu equilíbrio e sem
qualquer vantagem para o sistema, porque as turmas ficam piores, quer a
nível de comportamento, quer de conhecimentos.
Ou seja, a reprovação dos alunos, sem que
estes possam abandonar a escola, tem duas consequências inevitáveis para a
turma onde vão ser inseridos: diminuição da qualidade do ensino e aumento
dos problemas disciplinares.
Com efeito, se a maioria dos alunos é
repetente, o professor não pode leccionar a pensar nos dois ou três alunos
que revelam algumas capacidades. Além disso, porque não se pode chumbar uma
turma inteira (e ainda bem, porque, caso contrário, no ano seguinte ainda
seria pior), acaba a maioria dos alunos por passar por antiguidade, mesmo
tendo-se a consciência de que pouco sabem para o merecer.
Quero com isto dizer que, se os alunos não
reprovassem no ensino obrigatório, a qualidade de ensino melhoraria?
Obviamente, porque a percentagem de bons e maus alunos por turma mantinha-se
constante, uma vez que ambos sairiam do sistema ao mesmo tempo: os primeiros
para a universidade, os segundos para o mercado de trabalho. Além disso,
porque os alunos com mais dificuldades nunca abandonariam o seu escalão
etário, os problemas disciplinares derivados da mistura, na mesma turma, de
garotos de doze anos com matulões de quinze acabariam. Sem esquecer que é
mais enriquecedor para qualquer pessoa ouvir, durante nove anos, coisas
diferentes do que ouvir sempre a mesma coisa.
Isso não significa, no entanto, que Nuno
Crato também não tenha razão quando defende que nenhum aluno deveria subir
de nível sem dominar os conceitos do nível anterior. Mas isso não implica,
obviamente, que o aluno tenha de reprovar.
A escolaridade obrigatória impõe, apenas,
um novo conceito de turma. Todas as turmas deveriam ser constituídas, em
princípio, por sessenta ou setenta alunos, devendo todas as disciplinas ter
três níveis (que funcionavam, em simultâneo, em cada turma e em salas
diferentes): iniciação/recuperação, médio e alto. Ou seja, durante a
escolaridade obrigatória, os alunos passariam sempre de ano, podendo, no
entanto, não passar de nível. Nada obstaria, assim, que um aluno do 9º ano,
por exemplo, frequentasse a sub-turma de nível III a Matemática, de nível II
a Português e de nível I a Inglês.
Agora o que não se compreende é que se
obrigue um aluno que reprovou a três ou quatro disciplinas a repetir o mesmo
programa às outras dez disciplinas em que teve aproveitamento, para mais
quando o destino de muitos deles é ir para servente de pedreiro, pastor ou
varredor. Ou será que os alunos ficam melhores varredores se andarem nove
anos na 1ª classe?
Topo
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O FIGO E A AZEITONA
Também em defesa do touro bravo |
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Em defesa dos defensores dos
direitos dos animais, este artigo responde aos argumentos de Santana-Maia
Leonardo e ao seu artigo "em defesa do touro bravo", publicado neste jornal
há duas semanas. Porque me considero um dos "putativos" defensores a que se
refere, defendo que o autor ignora a questão central nesta luta entre
Toureiros e Associação Animal. E ignora porque gosta muito dos touros, tanto
que aprecia o espectáculo da sua "lide", que enaltece o seu sofrimento,
reclamando ainda o direito à sua morte nas arenas. E isso é legítimo, tanto
que Santana-Maia Leonardo, como qualquer outro cidadão, se pode deslocar
livremente a qualquer praça de touros para apreciar esse "espectáculo" de
sangue, sofrimento e desprezo por um ser vivo que não dispõe dos mesmos
meios dos toureiros. O que já não é legítimo, nem aceitável, nem admissível,
é que este mesmo "espectáculo" seja transmitido (logo pago) pela televisão
pública, e muito menos às cinco da tarde de um domingo, como reconheceu o
tribunal que impediu a sua transmissão. Ao contrário do que argumentam os
toureiros, que consideram a sua actividade um exemplo de "coragem, arte,
destreza técnica e tradição", na tourada, há qualquer coisa de cobardia,
violência gratuita e de tradição, mas de uma tradição, como tantas outras,
que não interessa perpetuar, mesmo que isso implique a extinção de uma
espécie que, lamentavelmente, já não vive de outra forma. E isto em defesa
de uma sociedade que não tenha a honra como principal valor de referência,
mas sim a tolerância, os princípios da não agressão e de respeito pelas
diferentes formas de vida.
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FUTEBOLÊS
Com o pé direito! |
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A selecção das quinas entrou com
o pé direito. Vitória incontestável sobre a selecção da Turquia por
concludentes 2-0 na jornada inaugural do Europeu de futebol. Boa exibição da
selecção portuguesa que, tal como no teatro, a um mau ensaio sucedeu um bom
desempenho perante os portugueses e os europeus.
Pepe, o defesa central brasileiro
naturalizado português, marcou o primeiro golo já no segundo tempo, um golo
aliás muito bonito, e Raul Meireles fechou a contagem a passe magistral de
João Moutinho, depois de, no ferro, a bola ter batido três vezes.
A selecção turca mostrou fracos
argumentos perante a selecção de Portugal. Futebol de fraca qualidade,
desligado, sem criar qualquer ocasião de golo junto da baliza de Ricardo. A
selecção da Turquia arrisca-se a não passar da primeira fase da prova,
regressando mais cedo ao seu país.
No dia em que sair este
apontamento no jornal, já terá decorrido o jogo entre as selecções de
Portugal e da República Checa. Teremos naturalmente um jogo diferente,
porventura bem mais difícil para a selecção portuguesa. Os checos praticam
bom futebol, os seus jogadores são dotados de boa técnica, uma excelente
compleição física e competem nos campeonatos mais importantes da Europa.
Talvez porque o campeonato de
futebol da Europa não se disputa em Portugal e principalmente porque os
portugueses estão deprimidos pela crise económica que os afecta, é bem
diferente o entusiasmo do povo português comparativamente ao Europeu de
2004. Isto mede-se pelo fraco número de bandeiras que se vêem e pelas poucas
manifestações dos adeptos da bola que ocorrem pelo país. Diferente são as
manifestações de emigrantes na Suíça, bem ampliadas já se vê pela
Comunicação Social.
Bem tentam as televisões incutir
entusiasmo nos portugueses. As quatro estações generalistas debitam dezenas
de minutos de reportagens de todo o tipo em cada telejornal e nos programas
dedicados à participação de Portugal no Europeu de futebol, sem contar com
os anúncios publicitários dos grandes grupos económicos alusivos à selecção
e a chamar os portugueses ao consumo. Depois do fim do mês de Junho volta
tudo à mesma situação. A festa acabou. Os combustíveis continuam caros, os
juros aumentam, a alimentação tem preços elevados. A qualidade de vida dos
portugueses deteriora-se a olhos vistos. A crise social alastra. Mesmo em
tempo de Europeu, viu-se uma manifestação com 200.000 pessoas em Lisboa. Mas
vêm aí as férias e as pessoas esquecem. Lá para Outubro logo se vê.
Continua a guerra Vieira versus
Pinto da Costa. O primeiro, está satisfeito com a possibilidade do seu
Benfica poder disputar o acesso à UEFA Champions League devido ao castigo
imposto ao Futebol Clube do Porto, em primeira instância. Mas ao mesmo tempo
preocupado, segundo relatos da imprensa, com a possibilidade do Conselho de
Justiça da Federação Portuguesa de Futebol absolver Pinto da Costa o que, a
verificar-se, requer a demissão do presidente Madaíl. O segundo, diz que vai
recorrer junto da UEFA da injustiça sobre o seu clube, tendo já recorrido da
decisão sobre o castigo que lhe foi aplicado individualmente. Se lhe for
dado provimento, o que se duvida, o Benfica não vai disputar o acesso à UEFA
Champions League.
De acordo com a entrevista que
deu à estação de televisão SIC, Pinto da Costa argumenta que a decisão de o
castigarem está ferida de legalidade. Pareceres de quatro conhecidos
juristas, catedráticos do Direito, juntos ao processo, apontam no sentido da
decisão tomada ter sido sustentada em escutas telefónicas que são proibidas
em processos disciplinares. Tem a palavra o CJ da Federação. Mas parece que
o Sr. Vieira não tem motivos para estar preocupado: Há também um parecer do
Dr. Vital Moreira que aponta em sentido diverso.
Se assim for, bem pode Pinto da
Costa argumentar que ganhou o campeonato com vinte pontos de avanço sobre o
Benfica. De nada lhe valerá. O Porto fica fora e o Benfica pode ficar dentro
da UEFA Champions League.
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