Edição de 13 Junho 2008 • N.º 623 • II Série • Ano 14 • Directora: Inês Vidal

Secções

Útil

  



Do contra
por Hélder Dias

A las cinco da la tarde
por José Ricardo Costa

A VER O MUNDO
O nosso atraso
por Jorge Carreira Maia

DA OUTRA MARGEM
O peso do chumbo
por Santana-Maia Leonardo

O FIGO E A AZEITONA
Também em defesa do touro bravo
por Jorge Salgado Simões

FUTEBOLÊS
Com o pé direito!
por Carlos Henriques

  

 

 

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

Topo

Do contra

  

  

  

Topo

A las cinco da la tarde

No ano passado decidi levar os garotos a uma tourada. Eles nunca tinham ido e eu, verdade seja dita, também há mais de 20 anos que não sabia o que era estar sentado perante a atávica e circular arena de terra batida.

Quando eu era miúdo queria ser toureiro. Passei horas da minha vida a lidar touros imaginários e olhava para o José Júlio ou para o El Cordobés, como muitos garotos olham hoje para o Cristiano Ronaldo. Depois, cresci e as circunstâncias da vida levaram-me a um quase completo desinteresse pelo universo tauromá-quico e, sobretudo, pelo ethos tauromáquico.

Levei os garotos à tourada porque achei que seria uma vergonha haver dois ribatejanos que vêem a MTV sem nunca terem visto uma tourada. Ora bem, eles gostaram muito da tourada. Eu gostei ainda mais.

Uma das coisas mais impressionantes naquela tourada foi o facto de estar a ver a mesma tourada de sempre. Ou seja, nada mudou. Os mesmos gestos, os mesmos aplausos, as mesmas músicas, as mesmas roupas, as mesmas cores e lantejoulas, as mesmas interjeições, os mesmos rituais.

O futebol de hoje não é o mesmo de outros tempos. Nem a música, a televisão, o cinema, a escola, o trabalho, o sexo, a arte, a guerra. Nada é como dantes. Ou melhor, nada é como dantes, excepto a tourada.

Finalmente percebi o que terá levado homens como Picasso, Hemingway ou Orson Welles a vibrarem com a tourada. É como se andássemos uma semana inteira a comer no Mcdonald´s e, depois disso, entrássemos numa boa tasca de Braga para comer uns rojões com papas de Sarrabulho.

O que atrai na tourada é a sua autenticidade. A autenticidade da repetição. A mesma repetição que há nos passos do tango, nas procissões católicas, no sabor das azeitonas com sal, azeite e orégãos ou no canto dos rouxinóis. Nós vamos ver a tourada e já sabemos o que vamos ver. Não há surpresa. É como o nascer do sol.

Há ali qualquer coisa que é assim porque foi feito para ser assim e cuja essência não seria a mesma se não fosse assim. Contrariamente ao que muitos pensam, a repetição não é um sinal de vacuidade. Vacuidade é a tresloucada invenção de sinais que se esgotam na torrente do tempo, gestos que não resistem à devoradora voragem de Cronos.

Na tourada, não somos filhos de Cronos. O círculo de terra onde homem e animal se confrontam é o círculo do eterno retorno girando sobre si próprio como se o grego Teseu se metamorfoseasse em Manolete, Manolete em Manuel dos Santos e Manuel dos Santos em Mário Coelho.

Não entendo como num país como Portugal se proíbe a transmissão televisiva de uma tourada antes das 22 e 30 por causa da sua violência e desrespeito pelo animal. Eu sei que o argumento da tradição, só por si, não é argumento nenhum. Há péssimas tradições e eu seria o primeiro a acabar com elas.

Mas censurar a tourada num mundo onde toda a gente come carne, carne essa que outrora foram animais e animais que, para serem transformados em carne, viveram em linhas de montagem para a morte, é de uma valente hipocrisia.

O touro morre, certo. Mas para chegar àquela morte, viveu como não viveram os frangos, os perus, os patos, os porcos e as vacas para que aqueles que censuram as touradas os possam comer no sossego dos seus lares e dos restaurantes.

Contrariamente aos animais das linhas de montagem da morte, aquele touro, neto do Minotauro, luta na claridade da arena, longe das labirínticas sombras das linhas de montagem, iluminadas pelo doente e macilento sol do Guernica de Picasso.

"Morrer às cinco da tarde", essa mítica e única hora do poema de Garcia Lorca, sempre é morrer às cinco da tarde, seja touro ou toureiro, naquele círculo de luz solar que brilha desde o princípio do tempo. Bem melhor do que viver e morrer no mundo sem dias, horas e minutos do aviário ou do matadouro.

E, nós seres humanos, vimos de lá reconciliados com o tempo, com o fio de Ariadne na mão para seguirmos pelo obscuro labirinto onde burocratas europeus, as modas passageiras e falsos humanismos, nos querem pôr a viver.

Evoé! Perdão, olé!

josericardoccosta@gmail.com

  

  

  

Topo

A VER O MUNDO
http://averomundo-jcm.blogspot.com

 

O nosso atraso

Há, sobre as causas do atraso de Portugal, um persistente equívoco. A teoria oficial centra-o no défice de formação e de qualificação dos portugueses. Há dias, o ministro Vieira da Silva, em debate com o bispo D. Manuel Clemente, afirmava: "O que precisamos é de atacar o nosso défice mais profundo, que é o défice do conhecimento, da educação e da formação."

Como consequência desta teoria, a escola portuguesa, durante a democracia, tem sido vítima das mais tontas intervenções, desde a trágica Reforma de Roberto Carneiro até à fúria persecutória dos docentes por parte do actual governo, passando pela paixão de Guterres. Toda esta gente pensa que a escola é o lugar onde a sociedade portuguesa se há-de redimir.

O problema é que, por mais que se mexa na escola, o nosso atraso persiste sem alteração. O que se continua a ignorar é a cultura e a atitude que os portugueses exibem na vida comunitária, é ela que está na base do mau desempenho social, económico, político e também escolar. Que atitude é essa?

O Presidente da República, no discurso do 10 de Junho, tocou no problema ao dizer: "Temos de começar por ser exigentes e rigorosos connosco". O problema de Portugal não é a falta de conhecimento e de educação escolar; é, antes, a falta de rigor e de exigência que os portugueses colocam naquilo que fazem, incluindo na escola. Um país que tem por lema a expressão «desenrasquei-me» pode ser muito «desenrascado», mas nunca passará de um país medíocre. Onde deveria haver trabalho sério, profundo e continuado, há um mero «desenrascanço». Portugal é assim o lugar onde até as coisas que aparentam ser bem feitas estão cheias de buracos, truques e armadilhas escondidos, que se manifestarão na primeira oportunidade.

O problema não é a falta de escolarização, mas a forma como lidamos com a vida. Se não queremos nem gostamos de estudar é porque estamos convencidíssimos, devido à experiência social, que o conhecimento serve para pouco e o que interessa mesmo é que o pessoal se «desenrasque», seja lá como for. Mas onde assenta esta cultura lusíada do «desenrasca»?

Esta cultura funda-se numa experiência de sobrevivência. No fundo, as elites nacionais, sociais, económicas e políticas, no seu «desenrascanço» atávico, nunca permitiram à maioria dos portugueses outra coisa para além da mera sobrevivência. Sobreviver não é viver de forma digna, sobreviver é «desenrascar-se» para não morrer à míngua. É isto que os portugueses fazem na escola, nas empresas, nas relações económicas, na política; até na religião, através da promessa, se tenta iludir a divindade. Em todo o lado enganam a realidade para fugir à miséria que os ameaça. O nosso principal problema é a falta de rigor e de exigência connosco fundada no círculo vicioso entre miséria e «desenrascanço». O resto é conversa de políticos que vivem, também eles, da miséria do «desenrascanço».

 

 

 

Topo

DA OUTRA MARGEM
http://sol.sapo.pt/blogs/contracorrente

 

O peso do chumbo

Parece que a ministra da Educação começou agora a perceber que as reprovações são o principal cancro do nosso sistema de ensino. Mais vale tarde do que nunca. Fraústo da Silva já tinha percebido isso há mais de vinte anos e os finlandeses há mais de quarenta. É uma daquelas evidências que só mesmo os cegos intelectuais não conseguem ver. Sendo certo que, a fazer fé no que para aí se ouve e escreve, só talvez daqui a trinta anos a maioria dos professores e comentadores vai perceber isso. Por alguma coisa, somos um dos países mais atrasados da Europa.

Antigamente, recorde-se, ninguém era obrigado a andar na escola mas todos sabiam que quem conseguisse obter qualquer qualificação académica, por pequena que fosse (2º ano, 5º ou 7º ano dos liceus), conseguiria facilmente um bom emprego. Por isso, a escola organizava-se para exigir competências e conhecimentos a quem queria obter aqueles diplomas, segundo o princípio «quem sabe passa, quem não sabe chumba». E das duas uma: ou a pessoa tinha capacidade para atingir os objectivos propostos ou não tinha e não lhe restava outra alternativa senão abandonar a escola e ir trabalhar.

Hoje, com a escolaridade obrigatória, os alunos, tenham ou não tenham capacidade, não podem abandonar a escola. A escola tanto é para quem quer ser doutor como para quem quer ser pastor. E não me parece que um pastor necessite de saber tanto de Biologia como um médico. Agora o que é absolutamente imoral, criminoso e ilógico é o Estado obrigar um aluno a andar nove anos na escola, impondo-lhe, todos os anos, um programa e objectivos que sabe que ele não consegue e não tem capacidade para atingir.

E qual é a consequência desta estupidez defendida por professores e comentadores? Antigamente, o problema ficava resolvido com o abandono escolar. Mas hoje, os alunos com menor capacidade, porque estão proibidos de abandonar a escola, vão reprovando todos os anos e acumulando-se nas turmas, alterando completamente o seu equilíbrio e sem qualquer vantagem para o sistema, porque as turmas ficam piores, quer a nível de comportamento, quer de conhecimentos.

Ou seja, a reprovação dos alunos, sem que estes possam abandonar a escola, tem duas consequências inevitáveis para a turma onde vão ser inseridos: diminuição da qualidade do ensino e aumento dos problemas disciplinares.

Com efeito, se a maioria dos alunos é repetente, o professor não pode leccionar a pensar nos dois ou três alunos que revelam algumas capacidades. Além disso, porque não se pode chumbar uma turma inteira (e ainda bem, porque, caso contrário, no ano seguinte ainda seria pior), acaba a maioria dos alunos por passar por antiguidade, mesmo tendo-se a consciência de que pouco sabem para o merecer.

Quero com isto dizer que, se os alunos não reprovassem no ensino obrigatório, a qualidade de ensino melhoraria? Obviamente, porque a percentagem de bons e maus alunos por turma mantinha-se constante, uma vez que ambos sairiam do sistema ao mesmo tempo: os primeiros para a universidade, os segundos para o mercado de trabalho. Além disso, porque os alunos com mais dificuldades nunca abandonariam o seu escalão etário, os problemas disciplinares derivados da mistura, na mesma turma, de garotos de doze anos com matulões de quinze acabariam. Sem esquecer que é mais enriquecedor para qualquer pessoa ouvir, durante nove anos, coisas diferentes do que ouvir sempre a mesma coisa.

Isso não significa, no entanto, que Nuno Crato também não tenha razão quando defende que nenhum aluno deveria subir de nível sem dominar os conceitos do nível anterior. Mas isso não implica, obviamente, que o aluno tenha de reprovar.

A escolaridade obrigatória impõe, apenas, um novo conceito de turma. Todas as turmas deveriam ser constituídas, em princípio, por sessenta ou setenta alunos, devendo todas as disciplinas ter três níveis (que funcionavam, em simultâneo, em cada turma e em salas diferentes): iniciação/recuperação, médio e alto. Ou seja, durante a escolaridade obrigatória, os alunos passariam sempre de ano, podendo, no entanto, não passar de nível. Nada obstaria, assim, que um aluno do 9º ano, por exemplo, frequentasse a sub-turma de nível III a Matemática, de nível II a Português e de nível I a Inglês.

Agora o que não se compreende é que se obrigue um aluno que reprovou a três ou quatro disciplinas a repetir o mesmo programa às outras dez disciplinas em que teve aproveitamento, para mais quando o destino de muitos deles é ir para servente de pedreiro, pastor ou varredor. Ou será que os alunos ficam melhores varredores se andarem nove anos na 1ª classe?

 

 

 

Topo

O FIGO E A AZEITONA


 

Também em defesa do touro bravo

Em defesa dos defensores dos direitos dos animais, este artigo responde aos argumentos de Santana-Maia Leonardo e ao seu artigo "em defesa do touro bravo", publicado neste jornal há duas semanas. Porque me considero um dos "putativos" defensores a que se refere, defendo que o autor ignora a questão central nesta luta entre Toureiros e Associação Animal. E ignora porque gosta muito dos touros, tanto que aprecia o espectáculo da sua "lide", que enaltece o seu sofrimento, reclamando ainda o direito à sua morte nas arenas. E isso é legítimo, tanto que Santana-Maia Leonardo, como qualquer outro cidadão, se pode deslocar livremente a qualquer praça de touros para apreciar esse "espectáculo" de sangue, sofrimento e desprezo por um ser vivo que não dispõe dos mesmos meios dos toureiros. O que já não é legítimo, nem aceitável, nem admissível, é que este mesmo "espectáculo" seja transmitido (logo pago) pela televisão pública, e muito menos às cinco da tarde de um domingo, como reconheceu o tribunal que impediu a sua transmissão. Ao contrário do que argumentam os toureiros, que consideram a sua actividade um exemplo de "coragem, arte, destreza técnica e tradição", na tourada, há qualquer coisa de cobardia, violência gratuita e de tradição, mas de uma tradição, como tantas outras, que não interessa perpetuar, mesmo que isso implique a extinção de uma espécie que, lamentavelmente, já não vive de outra forma. E isto em defesa de uma sociedade que não tenha a honra como principal valor de referência, mas sim a tolerância, os princípios da não agressão e de respeito pelas diferentes formas de vida.

 

 

 

Topo

FUTEBOLÊS


 

Com o pé direito!

A selecção das quinas entrou com o pé direito. Vitória incontestável sobre a selecção da Turquia por concludentes 2-0 na jornada inaugural do Europeu de futebol. Boa exibição da selecção portuguesa que, tal como no teatro, a um mau ensaio sucedeu um bom desempenho perante os portugueses e os europeus.

Pepe, o defesa central brasileiro naturalizado português, marcou o primeiro golo já no segundo tempo, um golo aliás muito bonito, e Raul Meireles fechou a contagem a passe magistral de João Moutinho, depois de, no ferro, a bola ter batido três vezes.

A selecção turca mostrou fracos argumentos perante a selecção de Portugal. Futebol de fraca qualidade, desligado, sem criar qualquer ocasião de golo junto da baliza de Ricardo. A selecção da Turquia arrisca-se a não passar da primeira fase da prova, regressando mais cedo ao seu país.

No dia em que sair este apontamento no jornal, já terá decorrido o jogo entre as selecções de Portugal e da República Checa. Teremos naturalmente um jogo diferente, porventura bem mais difícil para a selecção portuguesa. Os checos praticam bom futebol, os seus jogadores são dotados de boa técnica, uma excelente compleição física e competem nos campeonatos mais importantes da Europa.

Talvez porque o campeonato de futebol da Europa não se disputa em Portugal e principalmente porque os portugueses estão deprimidos pela crise económica que os afecta, é bem diferente o entusiasmo do povo português comparativamente ao Europeu de 2004. Isto mede-se pelo fraco número de bandeiras que se vêem e pelas poucas manifestações dos adeptos da bola que ocorrem pelo país. Diferente são as manifestações de emigrantes na Suíça, bem ampliadas já se vê pela Comunicação Social.

Bem tentam as televisões incutir entusiasmo nos portugueses. As quatro estações generalistas debitam dezenas de minutos de reportagens de todo o tipo em cada telejornal e nos programas dedicados à participação de Portugal no Europeu de futebol, sem contar com os anúncios publicitários dos grandes grupos económicos alusivos à selecção e a chamar os portugueses ao consumo. Depois do fim do mês de Junho volta tudo à mesma situação. A festa acabou. Os combustíveis continuam caros, os juros aumentam, a alimentação tem preços elevados. A qualidade de vida dos portugueses deteriora-se a olhos vistos. A crise social alastra. Mesmo em tempo de Europeu, viu-se uma manifestação com 200.000 pessoas em Lisboa. Mas vêm aí as férias e as pessoas esquecem. Lá para Outubro logo se vê.

Continua a guerra Vieira versus Pinto da Costa. O primeiro, está satisfeito com a possibilidade do seu Benfica poder disputar o acesso à UEFA Champions League devido ao castigo imposto ao Futebol Clube do Porto, em primeira instância. Mas ao mesmo tempo preocupado, segundo relatos da imprensa, com a possibilidade do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol absolver Pinto da Costa o que, a verificar-se, requer a demissão do presidente Madaíl. O segundo, diz que vai recorrer junto da UEFA da injustiça sobre o seu clube, tendo já recorrido da decisão sobre o castigo que lhe foi aplicado individualmente. Se lhe for dado provimento, o que se duvida, o Benfica não vai disputar o acesso à UEFA Champions League.

De acordo com a entrevista que deu à estação de televisão SIC, Pinto da Costa argumenta que a decisão de o castigarem está ferida de legalidade. Pareceres de quatro conhecidos juristas, catedráticos do Direito, juntos ao processo, apontam no sentido da decisão tomada ter sido sustentada em escutas telefónicas que são proibidas em processos disciplinares. Tem a palavra o CJ da Federação. Mas parece que o Sr. Vieira não tem motivos para estar preocupado: Há também um parecer do Dr. Vital Moreira que aponta em sentido diverso.

Se assim for, bem pode Pinto da Costa argumentar que ganhou o campeonato com vinte pontos de avanço sobre o Benfica. De nada lhe valerá. O Porto fica fora e o Benfica pode ficar dentro da UEFA Champions League.



inépcia.jpg (11776 bytes)

 


© Jornal Torrejano 2000
Optimizado para 800x600 (IExplorer 4.x / Netscape 4.x)
E-mail:  jornal@jornaltorrejano.pt
WebDesign: MG|interactive